Geral

Voltar a desejar. Devires comunistas em meio à indeterminação.

Por Clarisse Gurgel

Transcrição da intervenção de Clarisse Gurgel na jornada de conferências “Devires Comunistas”, realizada no dia 25 de outubro de 2017 pelo Grupo de Estudos em Antropologia Crítica (GEAC).

O tempo da direita é um tempo acelerado. O tempo da esquerda é outro. É de médio e longo prazo. Tampouco o espaço da esquerda é o mesmo da extrema-direita. O desta última é um espaço massivo, porque ela utiliza bem os veículos de massa e possui uma mediação de massa. O espaço da esquerda é local: o lugar de trabalho, de moradia, de estudo. Disto decorre o nosso descompasso temporal-espacial em relação à extrema-direita e o nosso desafio neste momento.

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* * *

Quando fui convidada a falar sobre “devires comunistas”, confesso que me encontrava num momento de abatimento. Acredito que muitos de nós estejamos um pouco abatidos. Em especial, por conta da conjuntura brasileira. Não porque sejamos, de alguma maneira, fiéis à Lula ou ao Partido dos Trabalhadores, mas porque a queda da presidenta Dilma foi resultado de uma “reação sem ofensiva”. Quero dizer, com isto, que os setores mais conservadores do Brasil encabeçaram uma reação contra um sujeito que não existia. Fazendo um diálogo com a teoria psicanalítica, podemos dizer que só os mais histéricos acreditavam realmente que este sujeito existia. Só a extrema direita acreditava que Lula e Dilma transformariam o Brasil numa espécie de Cuba. Quisera eu ter essa crença. Costumo brincar com isso, porque a histeria proporciona um tipo de gozo que consiste em crer em coisas que estão fora do nosso alcance. E transformar o Brasil em Cuba estava fora do nosso alcance.

“Sem palavras”

Tratarei, nesta intervenção, do estado de apatia em que a esquerda parece ter caído, quando se coloca diante da conjuntura em que estamos. Quando me propus a pensar e falar sobre o devir comunista, me vi imersa num profundo mal-estar. Mal-estar é um nome muito feliz: designa uma situação em que você não encontra lugar. Você está mal. Eu não encontrava lugar, pois não tinha interlocução com meus parceiros e companheiros, já que todos estão se sentido um pouco solitários diante da conjuntura, incluídos aqueles organizados politicamente. Como eu tenho o costume de escrever, tanto para o Lavra Palavra, um blog que admiro muito, quanto para a Carta Capital, fui rapidamente cobrada: “Clarisse, porque tu não estás escrevendo?”, perguntaram meus companheiros. Interpelada neste sentido, eu parei para pensar. Era uma ausência de palavras o que me acometia. Eu estava sem palavras. O que é estar sem palavras?

Procuro me apropriar das contribuições da teoria psicanalítica para pensar estas questões, pois entendo que Freud, embora não tenha sido interpelado diretamente pela teoria marxiana ou pelos marxistas, fazia uma articulação entre a psique individual e a psique coletiva ou social. Posto isso, eu me aproprio da teoria psicanalítica na tentativa de compreender os fenômenos que ocorrem no âmbito coletivo. Acredito que essa sensação de “estar sem palavras” não é só minha, ela é compartilhada entre quase todos nós. Antes de entender o que é essa sensação, abordarei brevemente a natureza da palavra.

A psicanálise entende a linguagem como aquele recurso que atravessa o sujeito; um sujeito que é, em princípio, destituído dos meios para obter aquilo que é básico para sua sobrevivência. Como disse Che Guevara, um animal que vê uma comida pela vitrine vai rompê-la para obter o alimento. O animal humano não. Nós somos seres sociais, justamente pelo fato de que dependemos do outro para viver. A primeira manifestação dessa condição ocorre através da fala. Ela é a expressão mais exata e imediata do quanto nós dependemos da cultura e da linguagem para sobreviver. É pela fala que nós recorremos ao outro, àquele que supre nossas necessidades primárias. Geralmente esse outro é uma mãe ou alguém que assume seu lugar. É essa figura que vai dar significado aos fonemas que o bebê balbucia diante das primeiras necessidades que surgem a ele.

Falar, portanto, é desejar. Quando o bebê balbucia ele deseja algo. Quando ele pronuncia os primeiros fonemas é porque lhe falta algo. E quem fornece o nome dessa falta é o outro. Logo, se nós afirmamos que “estamos sem palavras” frente à conjuntura, talvez isso signifique que estamos sem desejos. O desejo tem uma natureza própria: não é vontade, nem querer. Desejo corresponde a ansiar pelo impossível. Essa é a dialética do desejo, que está presente em Hegel, por exemplo. Quando trata da dialética do Senhor e do Escravo, na Fenomenologia do Espírito, Hegel está abordando justamente esta questão. Vocês verão, ali, a própria dialética do desejo: quando ele se realiza, não é mais desejo. Esse é o mal-estar que o desejo instaura: é da sua natureza “querer o impossível”. E o que nós testemunhamos hoje é uma conjuntura onde parece que nós não desejamos mais. Primeiro, porque tememos demandar o impossível. Segundo, porque não temos a quem dirigir nossa demanda. Nos próximos parágrafos, tentarei destrinchar o tema da ausência de desejo.

Farsas e tragédias

A obra “O Dezoito de Brumário de Luis Bonaparte”, de Marx, está bastante em voga hoje em dia, pois faz referência ao fenômeno da repetição, algo que é central para a teoria psicanalítica. Ele também menciona a farsa, a teatralidade, a comicidade, a ilusão, que é um objeto fundamental no estudo do fenômeno da ideologia. O “Dezoito de Brumário” é uma obra que faz um paralelismo entre dois momentos históricos: a Revolução Francesa, que resultou na tomada do poder do primeiro Bonaparte (Napoleão), por um lado. Por outro lado, o período posterior aos levantes de 1848 que vai resultar no “segundo” Bonaparte (Luis). Marx faz esse paralelo valendo-se de uma célebre frase de Hegel, que menciona o seguinte: “os grandes feitos históricos só ocorrem duas vezes”, na medida em que repetir um feito é instituí-lo, marcá-lo na cultura e na história. Repeti-lo é cultivá-lo. Quando Hegel diz que os grandes feitos só ocorrem duas vezes, quer dizer que um acontecimento precisa ser cultivado para que ele se institua na história e para que a compreensão dos conceitos em torno desse acontecimento seja compartilhada pela sociedade. Marx vai brincar com a ideia de Hegel: dirá que, sim, o filósofo tinha razão, mas esquecera de observar um detalhe. A história “acontece primeiro como tragédia e, depois, como farsa”.

Este livro de Marx voltou a ser citado, em muitos debates, por conta dos levantes de 2013. Para Marx, como para nós, o desafio é identificar onde está a tragédia e onde está a farsa. O ano de 2013, sem dúvida nenhuma, foi um momento de ápice de levantes sociais no Brasil, os quais ganharam uma feição popular e, em seguida, sofreram certo transformismo, incorporando pautas que podemos atribuir à extrema-direita. Em especial, esta última pegou carona na crítica às instituições burguesas democrático-liberais: o voto e o parlamento, por exemplo. “Transformismo” é um conceito gramsciano. Ocorre nas situações em que o conteúdo de uma reivindicação ou de uma mobilização é radicalmente transformado e, na ausência de uma ferramenta organizativa forte, encaminha-se em direção a uma política personalista. Sem dúvida, o que as forças organizadas da direita buscavam, em 2013, era forjar nomes em meio à efervescência das ruas, dado que suas agremiações vivem até hoje uma grande crise de quadros. Em 2013, o que eles ensaiavam era um transformismo do conteúdo enunciado nas ruas, pegando carona na crise dos partidos e buscando fazer daquela mobilização um terreno fértil para forjar novos quadros para a direita. Até agora não conseguiram. Existem alguns nomes como Dória ou Bolsonaro, mas que não têm, por enquanto, as características que a burguesia precisa, isto é, certa disciplina e certa lealdade à estrutura sócio-econômica que a sustenta. A burguesia não quer ninguém indisciplinado ocupando o aparelho burocrático do Estado.

As pessoas têm dúvidas, no caso de 2013, sobre o que seria a tragédia e o que seria a farsa. Alguns situam a farsa no próprio ano de 2013. Eu costumo situar a farsa em 2014, quando ocorre a Copa do Mundo e repete-se, nas ruas, a fórmula de 2013, porém, em meio a um descenso brutal das forças de esquerda, a ponto de o aparato repressor ser extremamente desproporcional em relação à disposição dos militantes de irem protestar. O aparato repressor já tinha dado conta de dispersar e de desocupar as ruas em 2013 e, em 2014, o que aconteceu foi apenas uma farsa em relação ao ano anterior. Alguns vão situar tragédia e farsa em outras posições históricas, mas eu costumo situá-las dessa maneira.

Alguns companheiros sinalizam que, talvez, muitos setores de esquerda estejam realizando uma leitura sintomal da situação. Sintomal no sentido de que cremos estar em posse de um recurso que está solucionando “o” problema, quando, na verdade, o estamos reforçando, pois estamos tratando o sintoma no lugar do problema. O sintoma indica a existência do problema real ao mesmo tempo em que o esconde. Por que se diz que há uma leitura sintomal? Porque, se formos observar, em 2013 a grande crítica às instituições democrático-liberais burguesas resultou na denúncia da farsa eleitoral. Em especial por parte dos “setores esquerdistas”. “Esquerdismo” é um termo pouco trabalhado no Brasil. Ele não designa aqueles que, no geral, são “de esquerda”. Trata-se, na verdade, de uma referência – conforme a crítica tecida por Lênin no “Esquerdismo, doença infantil do comunismo” – a setores da esquerda que são críticos à disputa do parlamento ou de qualquer tipo de aparelho; setores que são críticos ao voto ou a qualquer tipo de instrumento que represente algum tipo de diálogo com a democracia liberal ou que não seja de ação direta. 2013 deu lugar a certo esquerdismo, em muitos momentos. O desdobramento dessa crítica esquerdista à farsa eleitoral – a convocatória ao voto nulo ou à abstenção – acabou desaguando num desespero em massa com o risco de não haver eleições em 2018. Então, quem antes denunciava a farsa eleitoral, hoje reivindica veementemente a realização das próximas eleições. Isto significa, de certa forma, um retorno ao ponto de partida. Quem antes denunciava a farsa, agora pede: “por favor, realizem a farsa para que possamos participar dela”. Então, claramente, não eram as eleições “o” problema. Talvez elas fossem, isso sim, o sintoma de outra coisa que ainda nos resta descobrir.

Repetições históricas

            A história é feita de repetições, como Hegel, Marx e, inclusive, a teoria psicanalítica dizem. Quem convive com crianças, pode perceber aquilo que na teoria psicanalítica se denomina “pulsão”, que nada mais é do que uma compulsão, uma repetição. Toda criança repete muito: pede para contar a mesma história quinhentas vezes, quer ver sempre o mesmo desenho animado. Se você contar a história de maneira diferente, ela vai te corrigir. Nós frequentemente nos encontramos também com esta pulsão, esta tendência à repetição que, na teoria psicanalítica, corresponde à economia libidinal. Libido é a pulsão de vida, um esforço por perseverar na existência. Nós, a todo o momento, fazemos certa administração do prazer, da excitação, da melancolia, da angústia, da ansiedade, obedecendo ao princípio de perseverar na existência. A economia libidinal obedece a isto, ao princípio geral do prazer, que faz com que nós repitamos, a toda hora, o mesmo ato. Estruturas de comportamento nos traem, levando-nos a fazer certas coisas que não gostaríamos. Essa é a tal repetição que ocorre na estrutura subjetiva. Portanto, é possível identificar, também na história, processos de repetição, já que ela é feita de sujeitos.

Muitas pessoas fazem um paralelo ou uma analogia entre a conjuntura atual e o período da ditadura cívico-militar. De acordo com este argumento, o Brasil caminharia, hoje, em direção ao aumento da intolerância, das perseguições, das retaliações, das torturas, que se expandiriam para além do proletariado mais pobre que mora nos morros e favelas. Enfim, um processo que caminharia na direção de uma ditadura. Eu faria uma distinção entre estes dois momentos, sem prejuízo da categoria da repetição. Na verdade, ambos períodos são bem diferentes no que se refere ao lugar da farsa e da tragédia e no que diz respeito a sua relação com as eleições.

Na ditadura brasileira, vivíamos uma extrema farsa eleitoral: tínhamos os deputados e senadores biônicos, tínhamos eleições gerais onde não havia sequer disputa real. Por sua vez, o Partido dos Trabalhadores, a Central Única dos Trabalhadores, as pastorais de base, entre outras organizações, vão conjugar forças, não no sentido de denunciar a farsa eleitoral, mas de reivindicar participar dela. Pode parecer com a situação que vivemos hoje. No entanto, precisamos atentar, antes, para os impossíveis daquela época e para os impossíveis de hoje. Reivindicar participar da farsa eleitoral na década de 60 e 70 era um impossível. Portanto, eles – que exigiam isto – ousaram bastante. Levantar a palavra de ordem de que “caminhamos com nossos próprios pés” era algo impossível naquela época. Logo, aquilo que aparenta ser, para nós, uma palavra de ordem ou uma reivindicação recuada, na verdade foi, na época, algo extremamente ousado. Então, traçar paralelos entre a ditadura de então e a conjuntura atual pode se tornar uma armadilha, se não fizermos, como dizia Lênin, a análise concreta da situação concreta.

O povo e sua indeterminação

Tudo isso para dizer que, hoje, o que estamos vivendo não deixa de ser uma repetição. Entretanto, temos algumas diferenças, entre elas, uma que é fundamental e que nos aproxima mais do “18 de Brumário” histórico do que da ditadura cívico-militar brasileira. No “18 de Brumário”, Marx faz referência aos levantes populares de 1848 que resultaram em massacres violentíssimos. Imaginem o que são os massacres que ocorrem depois de levantes populares como os que ocorreram em 1848: para ir a um levante desses, era necessário uma abnegação, uma coragem, um ímpeto, em suma, era preciso “sangue nos olhos”, como dizem hoje. Essa expressão é muito interessante. Ela pode explicar a ideia de pulsão, é algo que nos move para o desejo. O desejo é essa coisa angustiante, que nunca pode se realizar. Quando se realiza, não é mais desejo. Ele é diferente da vontade: muitas vezes nós nos satisfazemos com algo, mas não quer dizer que realizamos o desejo. Muitas vezes temos vontade de coisas que vão contra o nosso desejo. A pulsão não está situada nem no campo do puramente biológico nem do puramente cultural. Se fossemos explicar a pulsão através do olho, ela não seria nem o olho – a sua estrutura biológica – nem a visão – o direcionamento cultural daquilo que é visto. A pulsão seria o olhar: nem o olho nem a visão, algo entre os dois. “Sangue nos olhos”: imaginem quê olhar é esse. É um olhar cheio de vitalidade. Uma pessoa que vai a um levante popular vai com esse olhar, que é um olhar de pulsão, um olhar desejoso, de quem quer o impossível. Imaginem essa pessoa ser morta e seus parceiros serem mortos. Imaginem os familiares, suas companheiras e filhos, que não foram ao front e esperaram o retorno dessas pessoas. Essa era a situação em 1848: uma situação de desalento brutal, que nos lembra um pouco a realidade de hoje. Uma falta de perspectiva, falta de palavras, falta de pulsão, de desejo, uma descrença brutal. Em 1848, o movimento popular sofreu, portanto, um violento golpe, que não é abstrato, teórico, filosófico puramente, mas pulsional – que toca na matéria, toca no desejo, produz miséria e falta de perspectiva. Não é só um parceiro ou um companheiro que se perde, é um companheiro que supria a unidade doméstica. Este é o cenário de 1848.

Posteriormente a este massacre, começa-se um debate sobre eleições na tentativa de incorporar a burguesia à uma monarquia decadente. Naquele momento, nem a burguesia nem a aristocracia representavam essa massa de homens e mulheres desamparada, faminta, massacrada e, sobretudo, destituída da capacidade de sonhar. A aristocracia, a propósito, nunca representou essa massa, já que era uma casta “sem fundamento”, como diz Hegel: aquilo que não precisa se explicar, que já nasceu assim. Na sucessão aristocrática, filho de rei é rei. A burguesia, por sua vez, era uma classe em ascensão, desejosa, que reivindicava entrar no poder constitucional, participar do parlamento. No entanto, a burguesia também não representava esse povo destituído da sua potência. É aí que aparece Luis Bonaparte. Ele consegue dar o golpe, aquele que vai suscitar, na obra de Marx, a ideia de que a história se repete como farsa. Pensem num político bonachão, que ninguém leva a sério, não possui o menor crédito ou confiança, é indisciplinado, vive fazendo besteira. O Bonaparte era essa figura bonachona, que nem a família respeitava, sem muito futuro, tentando conquistar um lugar na sucessão aristocrática, mas com poucas condições de consegui-lo. Ele não era um burguês, não tinha entrada no mercado financeiro, enfim, não participava do processo de acumulação de capital. Ele era aquilo que, no hegelianismo – conjugado à teoria marxiana e à teoria psicanalítica –, chamamos de um sujeito por excelência indeterminado.

Ninguém poderia dizer quem era Bonaparte: não era burguês, nem aristocrata, nem “do povo”. Em síntese, ele não era nada. Então, ele passa a ser, graças a essa indeterminação, o melhor nome para espelhar aquele povo absolutamente indeterminado: um povo que já não tinha mais nome, sonhos, fé, bandeiras, que não tinha nem comida. Sabiamente, Bonaparte cria uma organização beneficente para distribuir comida, dar sopa aos pobres, etc. A associação beneficente, que se chamou “Dez de dezembro”, soube incorporar essa massa de pobres, formando com ela uma milícia. O que ocorre hoje lembra muito esse cenário de crescente pobreza e precarização, aliado ao aumento de políticas beneficentes. Mas a principal correlação com o 18 de Brumário diz respeito à derrota brutal que, naquela época, haviam padecido as forças políticas de origem popular que existiam em 1848. Estas forças políticas estavam sem capacidade de dialogar com aquela grande massa pobre, miserável e massacrada. Não conseguiam nomeá-la. O único capaz de dar nome àquele conjunto de indeterminações foi o grande indeterminado Luis Bonaparte. Essa foi a razão da sua vitória à época.

Logo, cabe perguntar: por que, hoje, percebemos que os nomes que melhor representam o povo ou a massa são aqueles que não têm história na política, não têm passado público, não têm vínculo claro com nenhum setor social ou estrutura de poder? Dória, por exemplo, que não tem lealdade sequer ao seu partido, o PSDB. Bolsonaro, um indisciplinado que fala o que quer. São os nomes que parecem melhor espelhar um povo que, cada vez mais, sofre por excesso de indeterminação. Somos, cada vez mais, uma massa de sujeitos que não sabem o que são e pegam carona em discursos que sugerem o fim de certas categorias que só irão perecer realmente com o fim das classes. A categoria de trabalho, por exemplo. No interior da esquerda, vemos reflexos disso, embora eles não sejam novos.

Temporalidade e espacialidade da ação política

Hoje, na esquerda, estamos vivendo um descompasso temporal-espacial. A extrema direita, temerosa diante da indeterminação do futuro (como todos nós, aliás), conseguiu dar nome ao seu fantasma: o chamou de Partido dos Trabalhadores, de esquerda e de Cuba. Esse é o fantasma da extrema-direita. Nesse clima paranóico e histérico em que a direita embarcou, partiu-se para uma ofensiva contra um sujeito que, na verdade, era “paz e amor”: Luís Inácio Lula da Silva. Só que esta postura encontrou terreno fértil em setores que estão dentro da própria esquerda, sem que esta última tenha aderido às teses da direita, é claro. Quando a extrema-direita vai à rua para dizer que a bandeira dela “não é vermelha, é verde-amarela” ou quando diz “cada um com seu cartaz, vem para rua”, ela dialoga diretamente com o fenômeno do autonomismo, característico de alguns setores da esquerda. Autonomismo é o anseio por não ser determinado por nada exterior a si mesmo; o desejo de ser autêntico sem influência exterior. Hegel nos ajuda a entender que tal concepção da autonomia é uma ilusão, já que é impossível não sermos determinados pelo outro. Somos seres que dependem do outro. Há uma crença intrínseca a esta ideia de autonomia que é a crença de que podemos nos auto-determinar sem influência exterior. Isto faz com que muitos setores da esquerda resistam fortemente à qualquer tentativa de limitação e restrição da liberdade individual, o que se aproxima perigosamente das tendências liberais de direita.

Esses dois extremos – à esquerda e à direita – que se encostam em determinado momento precisam ser encarados de frente, especialmente por nós, comunistas. Necessitamos pensar sobre este extremo, este anseio por autonomia que termina resultando num certo fetiche da liberdade individual em detrimento de categorias como disciplina, organização e ação coletiva. Se não enfrentarmos esse impasse, continuaremos fragmentados. E estamos diante de um cenário onde não podemos nos dar ao luxo de seguir seccionados. Na conjuntura em que nos encontramos, o sectarismo virou um capricho. Isso exige de nós uma capacidade de ceder, como dizia Lênin no livro “Um passo à frente, dois passos atrás”. Além de ceder, é preciso fazer a autocrítica necessária: dar dois passos atrás, para poder dar um passo à frente na reunificação da esquerda.

No entanto, diante deste desafio, enfrentamos um descompasso temporal-espacial, em relação à direita. O tempo da direita é um tempo acelerado: eles estão encaminhando todas as reformas que Lula e Dilma não conseguiram aprovar dentro do prazo que a burguesia exigia. Nós não temos condições, no momento, de reagir a este tempo. O tempo da esquerda, infelizmente, é outro. É de médio e longo prazo, não de curto prazo. Essa é a nossa primeira derrota. Uma derrota grave, porque este tempo acelerado vai produzindo mais pauperização, desorganização, indeterminação… e vai abrindo espaço para que as indeterminações burguesas interpelem as massas. Tampouco o espaço da esquerda é o mesmo da extrema-direita. O desta última é um espaço massivo, porque ela utiliza bem os veículos de massa e possui uma mediação de massa. O espaço da esquerda é local: o local de trabalho, de moradia, de estudo. O espaço da esquerda, ao contrário do tempo, é de dimensões reduzidas. Daí o descompasso em relação à extrema-direita e daí o nosso desafio.

O que resta de tarefa, para nós, é uma disposição para lidar com a indeterminação que está por vir: indeterminação de um povo, de uma classe trabalhadora que cada vez mais perde seus nomes. Nossa tarefa, em minha opinião, é trabalhar a dialética entre determinação e indeterminação. Recuperemos conceitos e nomes que são caros à luta comunista e que só serão superados no momento em que a sociedade de classes for superada: partido, trabalho, exploração, mais-valia, expropriação. Esta última, aliás, é uma categoria que sumiu. Com a “uberização” do trabalho, por outro lado, a extração de mais-valia é ainda mais intensa e difusa. Diante da crescente indeterminação das massas, nosso trabalho é não só determinar um caminho de recuperação das categorias que nomeiam a nós e aos nossos parceiros, mas também trabalhar com a dimensão da indeterminação, que é a perda de controle. Não temos – e não devemos ter – pleno controle sobre tudo. A esquerda viveu por muito tempo sob a ilusão do controle absoluto dos processos. A disciplina militante parece muitas vezes reivindicar o controle sobre tudo, mas isso é inviável. Quando Lênin diz, em 1905, que nós precisamos ceder, fazer concessões a alguns movimentos e iniciativas, é porque ele estava disposto a lidar com a ausência de pleno controle sobre as coisas. A articulação dessa ausência de pleno controle com os esforços de organização é o que vai permitir uma adequada articulação entre vitalidade, direção e disciplina. Elementos que para os adeptos do espontaneísmo são inconjugáveis. No entanto, vitalidade e disciplina são atributos plenamente conjugáveis. A própria pulsão (na teoria psicanalítica) é o resultado da articulação entre vitalidade e repetição. Nós estamos sempre repetindo uma pulsão, obedecendo a um desejo. E o terreno do desejo é, por excelência, o terreno da indeterminação. O que é o devir senão a perspectiva de eterna mudança e a ausência de sabedoria plena do que virá, ao mesmo tempo que um deixar alimentar-se por um desejo que nos mova, nos direcione?

Lênin: desejo, disciplina e vitalidade

Portanto, articular vitalidade e disciplina é fazer reviver e recuperar a categoria do desejo, que articula o “querer o impossível” com a obediência a uma repetição que nos constitui como sujeito. Esse parece ser o caminho. Para concluir, vou evocar dois trechos da obra de Lênin que mencionei há pouco:

“Precisamente a fábrica, que a alguns parece apenas um espantalho, representa a forma superior de cooperação capitalista, que unificou e disciplinou o proletariado, o ensinou a organizar-se, o pôs à cabeça de todas as outras camadas da população trabalhadora e explorada. Precisamente o marxismo, ideologia do proletariado educado pelo capitalismo, ensinou e ensina aos intelectuais inconstantes a diferença entre o lado explorador da fábrica (disciplina baseada no medo de morrer de fome) e o seu lado organizador (disciplina baseada no trabalho em comum, unificado pelas condições em  que se realiza a produção altamente desenvolvida do ponto de vista técnico) (…) A organização do partido parece [aos esquerdistas e espontaneístas] uma monstruosa “fábrica”, a submissão da parte ao todo e da minoria à maioria surge-lhe como uma “servidão” (ver os folhetins de Axelrod), a divisão do trabalho sob a direção de um centro fá-lo lançar gritos tragicômicos contra a transformação dos homens em “engrenagens e parafusos”.

Ao final do texto, Lênin convoca:

“Um passo em frente, dois passos atrás… É algo que acontece na vida dos indivíduos, na história das nações e no desenvolvimento dos partidos. Seria a mais criminosa das covardias duvidar um só momento do triunfo inevitável e completo dos princípios da social-democracia revolucionária, da organização proletária e da disciplina de partido. Já conseguimos muito, devemos continuar a luta sem nos deixarmos desencorajar pelos reveses, lutar com firmeza, desprezando os métodos filistinos das questiúnculas de círculo, salvaguardando ao máximo o laço que liga num partido único todos os social-democratas da Rússia, laço estabelecido à custa de tantos esforços, e procurando conseguir, com um trabalho persistente e sistemático, que todos os membros do partido, sobretudo os operários, conheçam plena e conscientemente os deveres de partido, todas as causas e peripécias da nossa divergência, todo o papel pernicioso do oportunismo, que, também no domínio da organização, do mesmo modo que no domínio do nosso programa e da nossa táctica, capitula perante a psicologia burguesa, adota sem qualquer critica o ponto de vista da democracia burguesa, embota a arma da luta de classe do proletariado. O proletariado, na sua luta pelo poder, não tem outra arma senão a organização. Dividido pela concorrência anárquica que reina no mundo burguês, esmagado pelos trabalhos forçados ao serviço do capital, constantemente atirado ao abismo da miséria mais completa, do embrutecimento e da degenerescência, o proletariado só pode tornar-se, e tornar-se-á inevitavelmente, uma força invencível graças a sua unidade ideológica, baseada nos princípios do marxismo, e cimentada pela unidade material da organização que reúne milhões de trabalhadores num exército da classe operária. A esse exército não poderão resistir nem o poder decrépito da autocracia russa, nem o poder decrépito do capital internacional. Esse exército cerrará cada vez mais as suas fileiras, apesar de todos os ziguezagues e passos atrás, apesar das frases oportunistas dos girondinos da social-democracia contemporânea, apesar dos louvores presunçosos do espírito de círculo atrasado, apesar do falso brilho e do palavreado de intelectuais”.

Lênin foi muito criticado por ter feito concessões aos anarquistas e aos ditos oportunistas, além de ter permitido a crítica e acolhido aqueles companheiros que, à época, já eram minoria. A convocatória que faço a todos é que empreendamos um exercício de concessão aos companheiros, conjugado a um esforço de unidade, dando dois passos atrás efetivamente: vendo o que nos conjuga, percebendo nossas diferenças e ultrapassando o horizonte da constituição de frentes – que são frentes apenas de “agenda de lutas”, método que nos torna meramente performáticos, que nos resume à realização de eventos, passeatas, manifestações, atos, em detrimento de um trabalho mais continuado de formação política e de disputa teórica. Essa é a perspectiva, em minha opinião, que nos permitirá desejar de novo. Querer o impossível numa conjuntura em que a política é pautada pelo que é visível torna-se tarefa extretamemente difícil, porque o que se dá por sentado hoje é que o sucesso e as soluções para os problemas são individuais. O que nós tentamos dizer a toda hora é que os problemas e as soluções são coletivos. No entanto, dizer não basta numa era em que o visível ganha força. O diagnóstico que fiz obriga não só a uma humildade de dar dois passos atrás, mas também a uma humildade de fazer um esforço que nos faça ir para o trabalho militante invisível (no local de moradia, no local de trabalho ou estudo); um trabalho que não tem, ainda, uma dimensão de massa que, aliás, a esquerda vai demorar a conquistar. É nesse esforço de invisibilidade humilde que poderemos recuperar a perspectiva de unidade entre nós.

O Grupo de Estudos em Antropologia Crítica é um coletivo independente que atua na criação de espaços de auto-formação e invenção teórico-metodológica. Constituído em 2011, o GEAC se propõe, basicamente, a praticar “marxismos com antropologias”. Isto significa desenvolver meios para refletir, de maneira situada, sobre os devires radicais da conflitividade social contemporânea. Delirada pelo marxismo, a antropologia se transforma, para o GEAC, numa prática de pesquisa e acompanhamento político das alteridades rebeldes que transbordam e transgridem a pretensão totalitária do modo de produção vigente e da sua parafernália institucional.

1 comment on “Voltar a desejar. Devires comunistas em meio à indeterminação.

  1. Clarisse, seu texto me interpelou de forma profunda e me ajudou a superar a desesperança no dia em que vi diversas notícias sobre execução de mandados de busca e apreensão em universidades públicas. Não deixou de ser, também, um presente de aniversário. Gratidão.

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