Marx e nós(otros)

As raízes anticoloniais de Karl Marx

Por Thierry Drapeau* (publicado originalmente em Jacobin)
Tradução: Lucas Parreira Álvares**

Através de sua relação com o cartista radical e poeta trabalhista Ernest Jones, Karl Marx percebeu a necessidade de se opor à escravidão e ao colonialismo para a superação do capitalismo.

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* * *

Em seu filme O jovem Karl Marx, o diretor Raoul Peck apresenta uma cena em que um francês anônimo de descendência africana faz uma comovida intervenção durante um dos discursos ao ar livre de Pierre-Joseph Proudhon em Paris. Contrastando com a multidão de trabalhadores reunidos em torno dele, o cavalheiro negro elegantemente vestido e de cartola, interrompe brevemente o famoso orador para incitá-lo a falar de liberdade não apenas para os artesãos, cujos ofícios eram cada vez mais ameaçados pela indústria, mas também para as classes inferiores proletárias – “as forças navais, os mecânicos, as fundidoras!”, exclama ele. Marx e sua parceira e co-pensadora, Jenny, estão sentados ao lado do citoyen de couleur, ambos se mostrando encantados com a observação crítica direcionada ao pai do anarquismo francês.

A cena é memorável, com certeza, pois não é Marx, mas uma pessoa negra – que pela ascendência provavelmente foi associada imediatamente ao colonialismo e à escravidão – que exorta Proudhon a sustentar uma concepção da classe operária que incluísse o proletariado fabril. A discussão na cena nunca se volta explicitamente à questão dos proletários racializados e escravizados do mundo colonial. Implicitamente, no entanto, isso acontece. Porque através de seu personagem negro, Peck nos lembra que Marx estava vivendo e pensando no coração de um império colonial, com posses ultramarinas ainda dominadas pela escravidão racial, e que esse contexto maior moldava inexoravelmente a composição da classe trabalhadora no núcleo metropolitano.

No entanto, tanto no filme como na história, o Marx parisiense ainda não estava preocupado intelectualmente e politicamente com o colonialismo e a escravidão. Peck, portanto, não faz com que seu Marx fale com o interlocutor negro, com quem ele claramente compartilhava a mesma perspectiva, mas com Proudhon, a quem ele era altamente crítico.

Esse ponto cego colonial que o cineasta haitiano revela no pensamento do jovem Marx não era apenas uma idiossincrasia pessoal. Espelhou a política da classe trabalhadora que ele havia descoberto e intercambiou em conversas nos cafés, salões e banquetes da Cidade Luz entre 1843 e 1845.

Embora não se manifestassem a favor da escravidão, todos os proeminentes socialistas franceses, de Proudhon a Louis Blanc e Pierre Leroux, apoiaram – em diferentes graus – a causa colonial no início da década de 1840 como uma maneira de resolver a chamada “questão social” interna e exportar o socialismo a outras regiões. Clamar e lutar pela libertação dos oprimidos na Argélia ou em Guadalupe não era, portanto, uma preocupação premente para sua política. E, assim, não se tornou uma preocupação premente para o proletariado “abstrato”, sobre cujos ombros Marx, em seus Manuscritos de Paris e, posteriormente, no Manifesto Comunista, decidiu apoiar a tarefa de derrubar o capitalismo.

As coisas começaram a se modificar quando Marx se mudou para Londres. Sua imersão em uma cultura diferente da classe trabalhadora e, em particular, sua íntima associação com o poeta radical e trabalhista cartista[1] Ernest Jones, é fundamental para o alargamento de sua perspectiva.

Londres radical

A poeira das revoluções mal havia se assentado na Europa continental quando Marx desembarcou em Londres no final de agosto de 1849, depois de ser expulso da França pelo novo regime conservador. Um ano antes, a ala revolucionária do Cartismo – o primeiro movimento de massa da Inglaterra impulsionado pela classe trabalhadora – havia tentado dar ao povo do norte do Canal da Mancha a sua própria primavera.

No início de junho de 1848, Ernest Jones fez um discurso inflamado no leste de Londres, declarando à multidão que o golpe em favor da liberdade deveria ser desferido primeiro na Irlanda, reivindicando sua libertação do jugo britânico. Ele foi imediatamente preso e condenado a dois anos de confinamento solitário. Imediatamente os Cartistas radicais elaboraram um plano para fomentar uma insurreição armada na capital, tirar Jones da custódia da polícia, derrubar o governo e estabelecer uma república.

Entre os conspiradores estavam William Dowling e Thomas Fay, dois combatentes irlandeses pela liberdade, e o alfaiate negro e abolicionista cartista William Cuffay, filho de um escravo das índias Ocidentais. A conspiração tinha, portanto, uma profunda dimensão atlântica e, se tivesse triunfado, teria revivido a longa tradição insurrecional urbana do “proletariado heterogêneo” [motley proletariat] em toda a bacia oceânica, como os historiadores Peter Linebaugh e Marcus Rediker identificaram em The Many-Headed Hydra [2].

A trama fora descoberta e impedida preventivamente quando Marx pisou nas docas do rio Tâmisa. Jones ficou encarcerado por quase um ano, e Cuffay, Dowling, Fay e outros três conspiradores estavam a caminho de uma prisão perpétua na Austrália. O Cartismo estava seriamente enfraquecido, mas sua tradição política radical continuou a viver.

Liderado pelo editor de jornal, ex-marinheiro e líder dos Democratas Fraternos, George Julian Harney, o movimento cartista estava a caminho de renascer através de sua ala de esquerda. Tirando lições da derrota da revolução na Inglaterra, Harney estava reorganizando o Cartismo como um movimento independente da classe trabalhadora em uma nova base socialista – “a Carta e algo mais” [the Charter and something more] como lema.

Marx, que rompera relações com os alemães da Liga Comunista, sediada em Londres, foi atraído pelo republicanismo vermelho de Harney e juntou-se ao seu círculo com entusiasmo em 1850. Em novembro daquele ano, o jornal de Harney, The Red Republican, publicou a primeira tradução inglesa do Manifesto Comunista. Enquanto isso, Jones havia sido libertado da prisão e retomou seu ativismo cartista juntando-se aos “vermelhos” de Harney, onde tornou-se amigo de Marx.

Marx e Jones

Jones e Marx tinham trinta e dois anos de idade em 1850 e ambos eram alemães de nascimento. Nascido em uma família aristocrática britânica em Berlim e educado até a idade adulta nessa cidade, Jones não só podia se comunicar fluentemente na língua materna de Marx, mas também compartilhar com ele parte de uma cultura comum, o que ajudou a consolidar sua amizade. Eles logo confluíram na política.

Marx rapidamente ficou impressionado com as proezas da oratória de Jones. Ele presenciou de palestras e discursos de Jones em diversas ocasiões entre 1850 e 1851, em função de que o último estava de passagem pela Inglaterra para remobilizar a base cartista. Jones, na visão de Marx, era então “o representante mais talentoso, consistente e enérgico do Cartismo”, características o que levaram a assumir o papel de líder efetivo dentro do corpo cartista. Quando Jones decidiu lançar seu próprio jornal semanal, Notes to the People, em maio de 1851, Marx não hesitou em se oferecer como colaborador.

Naquela época, a principal fonte de renda de Marx dependia de suas atividades como correspondente europeu do New York Daily Tribune. No entanto, contribuir com seu jornalismo para um órgão de imprensa cartista era uma forma de se aproximar diretamente do movimento trabalhista britânico. Ele assinou dois artigos no Notes, ambos sobre as revoluções de 1848 na França, e co-escreveu pelo menos outros seis com Jones. Além disso, como admitiu mais tarde para Engels, Marx foi responsável por fornecer orientação e supostamente assistência direta na escrita de todos os artigos econômicos que apareceram no semanário de Jones entre 1851 e 1852, os quais representavam mais de dois terços de todas as peças publicadas no jornal.

Tal envolvimento imergiu Marx em um novo ambiente intelectual, onde ele foi exposto às ideias e visões políticas do Cartismo, inclusive o anti-imperialismo.

Cartismo contra o Império

Através de sua colaboração jornalística e da parceria política com Jones, e diferentemente de seus anos parisienses, Marx ligou-se a um movimento operário que tinha uma longa história de resistência às investidas coloniais, remontando aos Diggers e Levellers do século XVII e aos Jacobinos Painite do século XVIII[3]. Na década de 1850, Jones foi sem dúvida o mais consistente e ardente defensor dessa tradição dentro do Cartismo. O anticolonialismo que o havia mandado para a prisão em 1848 só veio aprofundar-se depois de sua libertação.

Foi de sua cela que Jones começou a escrever versos de “O Novo Mundo, Um Poema Democrático”. O épico abriu a primeira edição do Notes to the People, e se tornou a peça mais famosa de Jones. Ele imagina uma revolução mundial na Índia ocupada pelos ingleses, onde

Corre a violenta torrente de direitos de um povo

E os soldados do Sepoy, acordando, batalhão por batalhão,

Por fim, lembram-se de que eles têm uma pátria!

A tempestade revolucionária decolonial[4] se espalha em direção à África e vinga os abusos da escravidão em seu rastro, conjurando os espíritos dos revolucionários haitianos.

Nas profundezas do sul em chamas aparece uma nuvem,

A ira latente de quatro mil anos completos,

Seja qual for o nome que o capricho da história deu,

Mouro, Afrit, Etíope, Negro, ainda significava escravo!

E, terríveis aliados! Para garantir sua vingança,

Atrás deles se erguem Ogé e L’Ouverture.

Finalmente, a revolução na África varre as Américas Central e do Sul, onde os insurgentes derrubam séculos de domínio imperial espanhol em favor dos povos indígenas conquistados.

Ria, México! e bata palmas, Peru!

Velho Montezuma! Rompa sua tumba.

Reacenda as suas lâmpadas, pobres Vestais do Sol!

Que vocês poderão ver o trabalho de Pizarro superado!

A experiência militante na Londres radical ensinou a Jones que a batalha pela Carta estava entrelaçada com o abolicionismo e o anticolonialismo, que a classe trabalhadora era global e multirracial. Mas a derrota esmagadora em 1848-49 e a apatia política causada na Grã-Bretanha e em toda a Europa teve, por consequência, a reorganização da ordem das lutas, pois agora acreditava-se que a ofensiva revolucionária global na reacionária década de 1850 não seria iniciada pelos trabalhadores da Europa, mas pelas massas oprimidas das colônias.

Marx nunca havia colaborado tão intimamente com alguém que tivesse tais visões anticolonialistas. Como colaborador e leitor do Notes, ele não poderia ter perdido o “Novo Mundo” de Jones nem sua coluna, “Nossas Colônias”, que denunciava o imperialismo britânico e tentava convencer os leitores da classe trabalhadora a apoiar movimentos de resistência contra o domínio britânico no exterior.

Esta linha editorial foi transferida para o People’s Paper, lançado por Jones em maio de 1852, substituindo o Notes e tornando-se o principal órgão de imprensa do Cartismo. Marx continuou sua colaboração editorial e jornalística para o novo semanário, contribuindo com um total de vinte e cinco artigos, alguns deles reimpressos do Tribune. A primeira edição do People’s Paper declarou sua perspectiva anticolonialista com este apelo aos trabalhadores: “Nós viemos observando, e muito apropriadamente, os interesses da democracia europeia; isto é, consideramos nossas as lutas coloniais”. A liberação do domínio britânico nas colônias, em outras palavras, foi a alavanca para a libertação proletária no núcleo capitalista.

Só podemos imaginar o que Marx poderia ter pensado ou dito a Jones. Quatro anos antes, no Manifesto, ele e Engels haviam considerado o imperialismo ocidental como uma força progressista e benéfica que atraía as sociedades subdesenvolvidas para a civilização burguesa[5]. Ele agora estava colaborando com alguém que detinha a opinião oposta, uma situação que o atraiu para o que seu treinamento hegeliano teria reconhecido como uma posição de crítica imanente – isto é, crítica que se submete e se apropria das próprias premissas de um ponto de vista concorrente, a fim de transcendê-lo dialeticamente.

Um primeiro sinal do efeito dialético do anticolonialismo de Jones no pensamento de Marx é encontrado em seu artigo de 1852 do Tribune, “Os Cartistas”, no qual ele cita um dos discursos de Jones denunciando os abusos e a coerção do domínio britânico no Sri Lanka. Um ano depois daquele texto crucial, a Índia entrou em seu radar jornalístico, e ficou evidente que Marx estava se tornando parte da comunidade intelectual cartista em que ele gravitava e pela qual fora absorvido.

A iniciativa anticolonial

Os debates que ocorreram no Parlamento sobre a renovação da Carta da Companhia das Índias Orientais de 1852 a 1853, que divulgou detalhes sobre como a Índia era governada e administrada, levaram Jones e Marx a deslocarem seu foco de interesse para a distante colônia oriental. E, assim como a atividade política que realizavam juntos, seu jornalismo não pode ser compreendido separadamente.

Jones inicialmente escreveu uma série de artigos no People’s Paper que denunciavam o domínio britânico na Índia como uma pilhagem direta e legalizada da população nativa. Naquela série publicada em maio de 1853, Jones se refere à Índia como a “Irlanda do Oriente”, onde décadas de “barbárie britânica” – assim ele rotula o domínio colonial britânico – não resultaram em progresso, mas em miséria extrema. Era típico da crítica cartista ao imperialismo inverter o discurso orientalista que prevalecia à época, lançando não os colonizados, mas sim os colonizadores britânicos ao papel de bárbaros.

Mas Jones, como nenhum outro cartista – em sintonia com a perspectiva desenvolvida em “O Novo Mundo” – foi mais além e defendeu a independência indiana, desejando que o exército de soldados nativos – conhecidos como sipaios – se voltasse contra os governantes britânicos em um movimento de libertação nacional. Em artigo posterior, Jones associou a exploração dos trabalhadores britânicos à opressão colonial da população indiana, reiterando que uma Índia independente era crucial para a luta de classes na Inglaterra.

Marx estava convergindo para argumentos semelhantes. Variando do tom geral do Manifesto, seus artigos do Tribune reconhecem que o imperialismo britânico não trouxe progresso e civilização na Índia, mas morte e destruição. Ele também empregou a analogia da “Irlanda do Oriente” para representar a Índia, uma evidência de que Jones estava vinculado à evolução multilinear de seu pensamento.

Em seu famoso artigo de 8 de agosto de 1853, “Os resultados futuros da dominação britânica na Índia”, Marx condenou o domínio britânico na Índia como um exemplo da “barbárie inerente à civilização burguesa”, expondo-a em termos consistentes com o tropo Cartista do império. No mesmo artigo, ele admitiu, por meio de uma nova retórica anticolonialista, que a libertação da Índia poderia acontecer a partir de uma revolta da classe trabalhadora na Grã-Bretanha ou de um movimento auto emancipatório liderado pelas próprias massas colonizadas. Esta foi uma grande mudança no pensamento de Marx pois, pela primeira vez, ele delineou um cenário que concedeu aos povos coloniais a iniciativa da mudança social revolucionária, uma posição que coincidia exatamente com a de Jones.

Em 1854, Marx apoiou a organização popular de Jones que levou à criação de uma assembleia nacional de trabalhadores – o chamado Parlamento Trabalhista – em Manchester. Em abril de 1856, ele participou de um banquete para celebrar o quarto aniversário do People’s Paper, no qual fez o discurso de abertura. Como ele disse a Engels, seu discurso teve como objetivo consolidar sua posição enquanto membro e colaborador do movimento Cartista. No mesmo espírito militante, Marx foi às ruas mais tarde naquele mesmo ano e participou de uma demonstração de apoio ao cartista John Frost, que retornara da servidão penal.

Assim, quando uma revolta anticolonial estava prestes a eclodir na Índia, o ativismo cartista continuou a ocupar um lugar significativo na vida de Marx.

O Espectro Indiano

Na primavera de 1857, os relatos de um motim no exército colonial da Índia, liderado por rebeldes soldados sipaios, começaram a se infiltrar na Grã-Bretanha. Imediatamente, Marx e Jones se interessaram pelo evento. O que eles haviam conjecturado em teoria, quatro anos antes, agora se apresentava como uma possibilidade de “carne e osso” [flash-and-blood], que eles não hesitaram em aceitar.

Enquanto a imprensa britânica produzia relatos que depreciavam e ridicularizavam os insurgentes, Marx e Jones seguiram cursos de reportagem diferentes, porém convergentes. Desde o início, eles simpatizaram com o sofrimento da população indiana e denunciaram o domínio britânico na colônia, apontando para a inevitabilidade do motim que se transformava em um movimento de libertação nacional mais amplo. Eles também insistiram na autoatividade e racionalidade política dos indianos colonizados como o fator decisivo na conformação do curso dos acontecimentos. E Marx, como Jones, via na insurreição um novo espectro que assombrava a Europa, onde poderia causar uma crise promovendo a oportunidade para uma nova ofensiva dos trabalhadores. “A Índia é agora o nosso melhor aliado”, escreveu Marx entusiasticamente a Engels.

Durante todo o verão e outono de 1857, Jones escreveu sobre a insurreição, seguindo o tropo Cartista do retributivismo – isto é, a ideia importada do messianismo religioso de que a história é dirigida por um processo de justiça imanente pelo qual os erros históricos são retificados através da retribuição. Ele, neste sentido, sustentou em 4 de agosto de 1857 que “as iniquidades das nações são sempre reavaliadas através da retribuição”, e que a insurreição indiana foi um “exemplo marcante desse equilíbrio compensador na História – essa agência retributiva”, que ele colocou ao lado dos movimentos de libertação na Polônia, Hungria e Itália.

Uma semana depois, Marx escreveu “A Revolta Indiana” para o Tribune, no qual reconheceu que a insurreição indiana incorporava uma dinâmica social dialética e transformadora comparável à que a Europa Ocidental havia experimentado – uma reversão completa de sua posição inicial em relação ao Oriente. Ele comentou:

Há algo na história humana que se assemelha à retribuição; e é uma regra da retribuição histórica que seu instrumento seja forjado não pelos ofendidos, mas pelo próprio ofensor. O primeiro golpe dado ao monarca francês provinha da nobreza, não dos camponeses. A revolta indiana não se inicia com os Ryots, massa torturada, desonrada e despida pelos britânicos, mas com os cipaios, vestidos, alimentados, acariciados, engordados e mimados por eles.

É impressionante como a fraseologia de Jones se insinua aqui na prosa de Marx, sugerindo uma impressão duradoura do Cartismo em seu pensamento no momento em que a insurreição indiana se desdobrou. A revolta anticolonial do outro lado do império britânico certamente levou Marx a revisar sua posição e integrar o colonialismo à sua concepção materialista da história.

Mas parece que Marx, para dar esse passo à frente, muito provavelmente seguiu o exemplo de Jones, encontrando na escrita de seu camarada de longa data argumentos que iam além do antagonismo binário, comum nos países capitalistas centrais, que opunha burguesia versus proletariado, incluindo progressiva e continuamente um movimento anticolonial que virava o governo imperial de cabeça para baixo.

Jones, então, começara a contemplar a possibilidade de formar uma coalizão eleitoral com o campo burguês-radical, com a finalidade de obter a concessão do direito de voto para os trabalhadores.  Marx certamente ficou desapontado com a medida, o que o levou a romper, embora apenas temporariamente, com Jones em 1858. Essa desilusão, no entanto, era política e de modo algum prejudicou a estima de Marx por Jones, o escritor e crítico social, como indica a homologia entre seus relatos jornalísticos que abordaram a insurreição indiana.

Em grande medida, a década de 1850 constituiu uma década cartista para o londrino Marx. Foi uma década em que ele aprendeu muito em sua parceria com Jones e, no geral, com sua experiência dentro do movimento cartista. No final daquela década, Marx pode ter se desencantado com a política de Jones, mas havia sido intelectualmente transformado. Mais importante ainda, graças a Jones, ele estava firmemente estabelecido em um caminho anticolonial que continuaria a moldar seu principal projeto político nos anos vindouros.

Notas

* Thierry Drapeau é professor de Relações Industriais na Université du Québec en Outaouais, no Canadá. Atualmente está trabalhando em um livro sobre a história atlântica do internacionalismo da classe trabalhadora.

** Lucas Parreira Álvares é mestrando em Direito e graduando em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais. É editor da Revista Práxis Comunal e autor do artigo “Para uma crítica da razão antropológica” (2018).

[1] Movimento político de cunho reformista, que ocorreu na Inglaterra entre 1837 e 1848. Dele resultou a Carta do Povo, redigida em 1838, que continha o programa do movimento.

[2] Clique aqui para acessar o PDF obra.

[3] Seguidores das ideias de Tomas Paine, político radical inglês, que emigrou para os Estados Unidos com 37 anos, onde participou da Guerra de Independência Americana. Suas principais obras foram Common Sense (1776), advogando a independência colonial americana do Reino da Grã-Bretanha e The American Crisis (1776–1783), uma série de panfletos revolucionários. Posteriormente, Paine influenciou a Revolução Francesa. Escreveu Rights of Man (1791), um guia das ideias iluministas, e foi eleito para a Convenção Nacional Francesa em 1792, mesmo sem falar francês. Na França também escreveu o panfleto Agrarian Justice (1797), discutindo as origens da propriedade. Morreu em 1802, no estado de Nova Iorque, EUA.

[4] Nota do tradutor: a utilização do termo “decolonial” por parte do autor é obviamente um anacronismo através do qual busca-se transmitir uma discussão absolutamente contemporânea no seio das ciências sociais para uma época na qual os pressupostos dessa discussão ainda não estavam postos. A crítica oitocentista ao imperialismo não é, portanto, uma “crítica decolonial”.

[5] Nota do tradutor: não é nosso objetivo aqui fazer uma oposição ao texto, mas vale ressaltar que essa passagem deveria ser melhor mediada, sobretudo em função de que Marx e Engels, no próprio Manifesto Comunista, também assinalaram a importância que a descoberta da América e a circunavegação da África tiveram para o desenvolvimento do capitalismo.

O Grupo de Estudos em Antropologia Crítica é um coletivo independente que atua na criação de espaços de auto-formação e invenção teórico-metodológica. Constituído em 2011, o GEAC se propõe, basicamente, a praticar “marxismos com antropologias”. Isto significa desenvolver meios para refletir, de maneira situada, sobre os devires radicais da conflitividade social contemporânea. Delirada pelo marxismo, a antropologia se transforma, para o GEAC, numa prática de pesquisa e acompanhamento político das alteridades rebeldes que transbordam e transgridem a pretensão totalitária do modo de produção vigente e da sua parafernália institucional.

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