Máquina Crísica – Antropologia crítica – geac

  • Twitter
  • Perfil Facebook
  • Início
  • Sobre Máquina Crísica
  • Ediciones Infinitos Indistintos
  • Conta(c)to
  • Twitter
  • Perfil Facebook
  • Twitter
  • Perfil Facebook
  • Início
  • Sobre Máquina Crísica
  • Ediciones Infinitos Indistintos
  • Conta(c)to
Geral

Antropologia e Dessubjetivação. De volta ao ponto de partida

Desconhecida's avatar
por GEAC - Antropologia Crítica
Junho 20, 2016
Comments 6

Por Juliana Mesomo

Nas aulas de Introdução à Antropologia nos dizem: “aposte na sua sensibilidade, no seu olhar atento, nas intuições, nas conversas e vínculos com as pessoas”. Como diria Belchior: na antropologia, nosso delírio é a experiência com coisas reais. Num certo momento, contudo, é preciso regular e pôr freios nesse mergulho no mundo, tão criativo e potente. Por que isso acontece?

* * *

Quando um professor diz: “Isso é coisa de graduação”, referindo-se a sua forma “ingênua” de elaborar um problema ou a sua atuação política, não se sinta envergonhado pela sua atitude. Se você não tem atitudes de gente de graduação provavelmente já se tornou dócil o suficiente para perder sua autonomia de pensamento e seus vínculos apaixonados com o mundo real. Explico.

“Menina, vem trabalhar comigo, você é ótima”

Quando entramos na graduação, os professores costumam estar bastante atentos à criatividade e ao vigor com que os jovens estudantes criam questões sobre o mundo e a vida. Convidam-nos para participar de grupos de pesquisa e parcerias, principalmente se já tivermos certo domínio, “de berço” ou por esforço, da escrita acadêmica. Obviamente que estes convites passam pelo crivo de concepções classistas e racistas sobre o que é um “pesquisador em potencial”, mas muitos estudantes apesar disso e outros por conta disso conseguem chegar a conquistar a atenção de algum professor. Chegando à pós-graduação, no entanto, a criatividade dos primeiros anos parece encontrar escassos lugares para florescer e um esforço combativo muito grande é exigido para tornar dizível neste espaço o que queremos dizer. Apesar do esforço, chega-se ao final do doutorado, ou mesmo antes, com a desgraçada e mortífera sensação de perda de si, da criatividade e da força afirmativa. Vamos aderindo a uma agenda de pesquisa que parece não contemplar exatamente nossas inquietações e experiências. Nas aulas de Introdução à Antropologia nos dizem: “aposte na sua sensibilidade, no seu olhar atento, nas intuições, nas conversas e vínculos com as pessoas”. Como diria Belchior: na antropologia, nosso delírio é a experiência com coisas reais. Num certo momento, no entanto, é preciso regular e pôr freios nesse mergulho no mundo, tão criativo e potente. Por que isso acontece?

Há três formas de responder a pergunta. A primeira diz respeito à consciência de classe predominante nas academias antropológicas e à identificação de classe. Embora a voz, ou o ponto de vista da academia antropológica não seja de classe trabalhadora, a presença sim o é, e cada vez mais. A identificação com um ethos e uma consciência que não são as nossas, nos faz perder as referências. Utilizo aqui um argumento semelhante ao do texto “A voz das Ciências Sociais é masculina?”, que indica que, apesar da presença feminina ser preponderante nos cursos em ciências humanas, a “voz”, ou seja, os autores e referenciais mais citados e, por conseguinte, o modus operandi de definição de problemas, análises e conclusões, é masculino. Da mesma forma, para quem é de origem social vinculada às classes trabalhadoras pode causar-lhe certa confusão identificar-se com uma consciência e um ethos burgueses. David Graeber, por exemplo, indica que, nos Estados Unidos, a classe trabalhadora veio sendo deslocada nas universidades e nos cursos de Ciências Humanas por uma classe emergente a qual denominou professional-managerial class – uma espécie de classe média que ocupa postos de gestão e burocracia no Estado neoliberal, na gestão social e nas empresas e cuja relação com a classe proprietária não é de antagonismo, mas de admiração. A presença cada vez mais importante dessa classe nas universidades – aliada ao declínio das condições de vida da classe trabalhadora nos EUA e das suas possibilidades de acesso ao Ensino Superior — foi crucial para uma verdadeira torção nos currículos dos cursos de Ciências Humanas, cuja formação se encaminhou paulatinamente a adaptar-se à consciência burocratizada e formalista desta “classe gerencial profissional”, e para o deslocamento de teorias e posturas ligadas à classe trabalhadora dentro das Universidades.

No caso do Brasil, a democratização recente do Ensino Superior e o fato de as classes trabalhadoras persistirem bravamente em alguns espaços universitários (com destaque para o caso da História e a “historiografia dos de baixo”, a Educação, o Serviço Social, a Saúde Coletiva e alguns espaços da Sociologia) conflita com a insistência na meritocracia e a recente conversão da Universidade pública em uma prestadora de serviços em algumas áreas. Mais especificamente, segundo Carlos Coutinho (1979), a partir dos anos 1960, a complexificação do mercado de trabalho e a criação de um “exército cultural de reserva”, que se expressa no amplo desemprego ou subemprego de intelectuais e pesquisadores, cria diferenciações salariais extremadas entre as diferentes categorias de intelectuais. “Assim é que ao lado de uma minoria tecnocrática privilegiada, vai se ampliando um setor da intelectualidade para o qual a cooptação [pelos interesses das classes dominantes] perde completamente sua razão de ser”, e parte dos intelectuais podem se identificar diretamente com os interesses das classes trabalhadoras do país. Este impulso, no entanto, conflita com os resquícios de uma Universidade pública ainda elitizada e com o recente encaminhamento neoliberal da organização universitária. (Sobre luta de classes na antropologia e na universidade, ver também: “O/A antropólogo/a como produtor/a ou a luta de classes nas antropologias e um exemplo de colonização epistêmica” e “Antropologia liberal versus antropologia da libertação”).

A segunda forma de responder a pergunta sobre o porquê da perda de autonomia ao longo das nossas trajetórias institucionais passa por explorar os efeitos do produtivismo sobre a criação de pesquisas e a reflexão, elemento este mais presente nos dias atuais e que atinge também os professores universitários. Na época em que nossos professores se formaram, no entanto, o apelo produtivista não era tão importante na estruturação do ambiente de formação. O produtivismo tende a subsumir tanto a qualidade dos vínculos estabelecidos entre pesquisador e interlocutor quanto o conteúdo das pesquisas (seu valor de uso) à quantidade de publicações e lattes points (seu valor de troca) contidos, potencialmente, nos resultados escritos do trabalho investigativo. Este movimento de realização do valor de troca potencial de qualquer esforço intelectual tende a bloquear a mobilização de outros valores de uso decorrentes do nosso labor. O critério de atribuição de valor de troca ao conhecimento produzido através da pesquisa acadêmica é a sua publicabilidade. Ou seja, o valor total de uma pesquisa equivale ao seu valor potencial no mercado editorial e nos circuitos acadêmicos de avaliação — o que exclui uma série de impactos sociais, existenciais e políticos que uma pesquisa pode ter. No fim das contas, o valor de uma pesquisa no mercado das publicações acaba colonizando inclusive nossos vínculos com interlocutores, já que todo engajamento possível não deve pôr em cheque a capacidade de publicarmos em revistas indexadas os resultados das pesquisas. (Para um debate sobre a conversão das pesquisas em valores de troca no mercado editorial acadêmico, ver as intervenções do Coletivo Indocentia e do próprio GEAC).

A terceira resposta à pergunta inicialmente colocada é mais complicada de entender, pois ela chama a atenção sobre problemas de difícil resolução que constituem, eles próprios, uma vantagem e ao mesmo tempo uma desvantagem da antropologia enquanto disciplina. A identificação com o ponto de vista antropológico depende da inscrição de quem o reivindica numa espécie de posição mediadora evanescente. Situados nesta posição, estaríamos em condições de exorcizar nossos preconceitos e “limitações do olhar” — o famoso “senso comum” que trazemos conosco – para operar, quase sem ser vistos, a tradução recíproca entre diferentes lógicas de pensamento ou sistemas simbólicos. Este ponto de vista neutro, no entanto, encaixa-se melhor àqueles seres que têm a possibilidade de se desmarcar socialmente — homens, brancos e de classe não trabalhadora. Ora, é verdade que o ponto de vista científico antropológico permite que uma pessoa racista, por exemplo, reacomode seu olhar em direção a outras formas culturais, ao respeito à diversidade, à abertura para o Outro, etc. Mas quem é esta consciência abstrata que pode vigiar-se epistemologicamente, que pode desfazer-se de suas marcações enquanto sujeito social, que pode, de maneira liberal, mudar seu ponto de vista sem mudar de lugar socialmente? O ponto de vista da Antropologia não tem conteúdo específico — faz tempo que a disciplina não é habitada apenas por homens brancos europeus . Ele é, portanto, uma forma cuja consistência e continuidade necessita expurgar de si qualquer conteúdo. Os conteúdos históricos e localizados são incorporados de forma subalterna no seu próprio corpus teórico, mediante a “diversidade” de pontos de vista descritos como “objetos” nas etnografias. Esta identificação com o ponto de vista da Antropologia é sempre mediada com relação a um significante maior, o qual não é nem homem, nem mulher; nem negro nem branco nem índio; nem proletário nem burguês; talvez nem criança nem adulto: uma espécie de consciência universal desmarcada. No entanto, esta “forma”, a qual todos podem eventualmente preencher com sua presença localizada, não é tão vazia quanto parece. Ela foi socialmente produzida, ou seja, é determinada por relações sociais. Aqui cabe perguntar: qual é a cor, a classe e o gênero de quem pode dizer-se livre de pré-noções (que são, na verdade, noções tornadas “pré” em relação à disciplina)? O ponto de vista da antropologia é masculinizado –, sua fala é pública e quase sempre visa a “democracia”, o “entendimento”, o “diálogo” –, tem o ethos liberal, conciliador e cordial de um burguês e o pacifismo que é privilégio da branquitude. É desejável, então, que as pré-noções de uma pessoa racista desapareçam no seio do ponto de vista antropológico. Mas e no caso de pré-noções ligadas a posições anti-racistas, feministas, proletárias? Como isso é assimilado pelo olho da disciplina?

Eis o truque da Antropologia: somente um sujeito des-identificado pode se identificar de forma transparente e imediata com seus interlocutores. Do contrário, seriam pessoas concretas interagindo com pessoas concretas (racistas versus anti-racistas; burgueses contra proletários; feministas brancas e feministas negras, dialogando ou acirrando seus pontos de vista) como acontece no mundo real. Aqui, a Antropologia é como o Estado Burguês na teoria marxista de Louis Althusser: pretende figurar uma diversidade, um pluralismo mediado por esse “sujeito vazio” (masculinizado, mas que não é a masculinidade real e atual, por exemplo), como se representasse todos os interesses ao não representar nenhum a priori. Para isso é preciso negar no dia-a-dia a pluralidade concreta dos pontos de vista e das antropologias existentes, principalmente daquelas praticadas pelos estudantes. Para isso, nós precisamos nos des-identificar das nossas experiências e inquietações, enfim, da nossa posição de sujeito. Somos convocados a nos tornar uma tábula rasa para poder nos identificar em seguida com o ponto de vista antropológico. A esta aprendizagem – ou disciplinamento – escolhi denominar “dessubjetivação”.

O que quero desdobrar aqui é o seguinte argumento: onde a Antropologia com A maiúsculo se desdobra como gramática, assistimos a configuração de uma forma ideológica semelhante, por exemplo, à forma Estado, que mistifica as relações de classe ao apregoar a possibilidade de mediá-las. Não há antropologias negras, feministas e operárias de um lado, e antropologias racistas, burguesas e masculinistas de outro. Há uma única Antropologia que abarca todos esses pontos de vistas, sincrônica e diacronicamente – disfarçando e eventualmente combatendo seu lado racista, burguês e masculinista. Operando em nome de “todos” em abstrato, as instituições antropológicas negam a ação de cada um e respaldam a dominação real de uma classe e de um tipo de sujeito (branco, homem, etc). Em que lugar, além do Estado “democrático” de direito e da Antropologia, um racista pode dialogar pacificamente com um anti-racista, um burguês com um proletário, a partir de uma linguagem comum como se não existisse desigualdade, conflito e dominação? Extraordinária invenção. Para falar sobre o índio, sobre as mulheres brancas e negras, sobre as classes populares é preciso negá-los na sua corporeidade, materialidade e voz própria dentro dos espaços da disciplina e, assim, emular um diálogo de salão.

No entanto, isso não acontece exatamente contra nós, ou à nossa revelia. Ocorre com certo consentimento e iniciativa própria quando escolhemos nos des-identificar de nossas experiências, intuições, vínculos, noções, pensamentos, para nos identificar com o ponto de vista da Antropologia e, logo, com o de um terceiro, a saber, o interlocutor (ou “nativo”), já também ele depurado da sua vivacidade, pois só conseguimos interagir com estas pessoas como pesquisadores no máximo íntimos, no máximo amigos, no máximo porta-vozes, ou então identificado completamente com elas. Nós desejamos, em alguma medida, estar onde está o ponto de vista antropológico, pois ele é poderoso e fala com legitimidade às plateias de uma democracia liberal. O resultado da dessubjetivação, no entanto, é que, enquanto seres políticos e localizados que éramos ou que poderíamos ser, somos incapazes já de estabelecer relação com as pessoas.

“A dialética tu deixas para a reunião do partido”

A frase foi dita por uma professora de pós-graduação a um estudante durante os acirrados debates decorrentes da greve discente no Mestrado em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 2011. Tanto para argumentar politicamente quanto teoricamente, a “dialética” não era tolerada pois era “coisa de partido”. No entanto, quando for preciso “estudá-la” ou pesquisá-la devidamente em alguma organização, poderá tornar-se objeto de especulação. Para ter um ponto de vista localizado não basta falar sobre gênero, nem aderir a determinadas teorias feministas, negras ou proletárias. É preciso pensar o lugar da universidade na nossa sociedade, as relações e conflitos entre as classes e a possibilidade de dialogar sobre nossas inquietações concretas dentro da sala de aula e mais além dela. É preciso recuperar “os não-ditos”, impedir que eles sejam circunscritos nos espaços da não elaboração, da não politização, da não teorização; impedir que eles só possam existir sob a forma docilizada de objetos de pesquisa (a classe trabalhadora, a raça, o gênero, a desigualdade de acesso ao Ensino Superior, etc.). A pesquisa docilizada nos leva a falar aos sujeitos enclassados, generizados, racializados – e, portanto, eventualmente a nós mesmxs – a partir de uma experiência cindida, desencarnada que, dizem os burocratas, só pode se inscrever no mundo acadêmico enquanto produtora de uma especulação destinada a produção de mais valor de troca (neste caso, hoje em dia, de boas publicações).

Alguém um dia me disse: “esses caras estudam relações de desigualdade e meritocracia na Universidade, mas são incapazes de reconhecê-las ocorrendo no próprio cotidiano”. Talvez a expressão não docilizada da pesquisa consista numa operacionalização imediata de sua problemática e dos seus resultados no campo de ação onde nos encontramos inseridos. Isto significaria, como já foi sugerido em outra publicação do blog do GEAC, converter a academia no campo [de batalha] que ela nunca deixou de ser. Para parafrasear um companheiro, é preciso fazer “eclodir” a raça, a classe e o gênero na disciplina, afirmando sua presença real, politizá-las e torná-las discurso, epistemologia, posição teórica.

Não nos tornamos nunca completamente esse ideal ponto de vista liberal, pluralista e vazio da Antropologia, mas somos assediados todo o tempo por sua pretensão universalista. O problema é bem mais dramático do que parece e começa muito cedo, quando começamos a abrir mão dos desejos sinceros, da paixão pelo vínculo com aqueles que conhecemos através das (ou antes de quaisquer) pesquisas, dos vínculos que nos construíram enquanto sujeitos ético-políticos e da politicidade da nossa presença no mundo – por exemplo, nossa presença em movimentos, partidos, coletivos, grupos e espaços formadores de um discurso sobre o mundo e de uma moralidade compartilhada. Nos dessubjetivamos ou nos desidentificamos do que fomos, somos e gostaríamos de ser para nos identificar com a subjetividade Antropológica e, por conseguinte, delegamos a ela o papel ético, político e até existencial, em alguns casos, que temos no mundo.

Tente, por exemplo, elaborar em seus próprios termos um problema importante para você em uma sala de aula de pós-graduação. Se ele não for elaborado a partir da linguagem disciplinar, ele deve virar um “dado”, uma questão de vivência ou de experiência. Uma questão a ser analisada “de fora”. Se ele for um problema com pretensões de universalidade, deverá ser formulado na linguagem antropológica – não feminista, nem militante, nem muito apaixonada, nem demasiadamente banal. Tudo se passa como se apenas a universalidade antropológica e suas mornas paixões existissem. O ponto de vista localizado, ou a corpopolitica do conhecimento, sempre será deslocada ao lugar da vivência, do dado ou do conteúdo a ser analisado. Dificilmente torna-se ponto de partida para elaborar um problema universal, uma estrutura teórica ou uma proposição epistemológica ou metodológica que substitua ou modifique o ponto de vista Antropológico. Quando isso acontece, é facilmente jogado aos entulhos anedóticos, mas dificilmente merece um lugar na historiografia oficial da disciplina — o que resulta em que temos que sempre começar o trabalho a partir do zero. Assim, a vivência ou a experiência localizada e a enunciação de um problema geral dificilmente se encaixam, pois o ponto de vista materialmente informado não é valorizado senão como fonte de dados para análise. Em tese, a vivência e a experiência localizadas são o essencial da teoria antropológica, mas elas só podem ser mediadas – ou comunizadas – pelo texto e a partir do diálogo — quase nunca conflito ou ruptura — com os cânones disciplinares. O ponto de vista localizado transformado em teoria antropológica é raramente tolerado. Mas, isto não  é o que Viveiros de Castro faz, tornar o ponto de vista localizado teoria antropológica? Não exatamente, pois ele já parte desta consciência universal antropológica desmarcada (a tríade Levi-Strauss, Sahlins e Clastres é seu ponto de partida) e desrespeita completamente seus leitores e interlocutores ao não esclarecer e não fazer a crítica necessária à estrutura de privilégios que o permite falar sobre o “pensamento selvagem”. (Sobre a necessidade de “nativizar” a experiência do próprio antropólogo para manter as fronteiras disciplinares bem policiadas, ver o debate desenvolvido por Tomás Guzmán e Alex Moraes aqui e aqui).

A identificação com o ponto de vista antropológico é mediada, ou seja, acontece sempre através da passagem por este significante maior. Quais são os exemplos de grandes antropólogos? Levi-Strauss, Margareth Mead e Marylin Strathern. Exemplos mais contemporâneos seriam Didier Fassin, Viveiros de Castro, Bruno Latour, João Biehl e Veena Das. Mas, por que as figuras destacadas permanecem sendo aparentemente xs grandes promotores do diálogo entre sujeitos diferentes, pessoas de certo bom senso reconhecido e capacidade admirável de desfazer “mal entendidos”? Salvo, talvez, Veena Das, todos são apresentados como portadores de uma polidez típica dos lordes e de uma capacidade de orquestrar debates entre gregos e troianos: são estes os atributos básicos do ethos que a Antropologia quer manter. Enquanto que os outros permanecem sendo os antropólogos negros, as antropólogas feministas muito radicalizadas, aqueles que propõem ações de ruptura porque não entenderam nada sobre a “boa política” de salão. Estes últimos, se quiserem ser ouvidos, também precisarão dialogar com esta grande consciência universal antropológica. Mas é claro que pessoas de classe trabalhadora, militantes, pessoas não brancas e mulheres, feministas ou não, têm dificuldade de se desmarcar, de ser menos urgentes nas suas demandas e mais conciliadoras. Elas são as pessoas que causam traumas na normalidade aparente, não as que buscam amenizar traumas. São as que negam a aparência democrática do diálogo, não as que silenciam o conflito em nome de uma “conversa” tranquila. Como exigir que sejamos lordes de salão? Justamente nós, pessoas cujas vidas se construíram sobre a irrupção no espaço público, a luta por direitos, as brigas estrondosas e a presença impactante?

O problema do ponto de vista: qual é o seu lugar?

Muitos dirão: este cuidado com a localização “exagerada” do ponto de vista é apenas um cuidado com a reflexão científica. Estão certos? Sim e não. Sim, do ponto de vista das correntes epistemológicas que consideram que para chegar a um postulado científico/verdadeiro é preciso sempre praticar uma vigilância psicológica/epistemológica para que o indivíduo não subjetive demais sua análise e sua construção da pesquisa. Não, do ponto de vista daquelas correntes que consideram que o conhecimento sempre é fruto de uma localização no espectro das classes, da experiência de gênero e racial, etc. Esta localização não contamina o postulado ou a possibilidade de fazer pesquisas porque ela é um a priori, um pressuposto que já está desde sempre ali.

Nesta segunda postura, o autor deve se esforçar, então, por ser o mais fiel possível na explicitação das condições de possibilidade de sua fala, por um lado, e por outro, esforçar-se por elaborar de forma racional, demonstrativa, científica suas análises. As palavras “ciência” e “racional” não têm, aqui, conotação rígida. Elas fazem referência a algumas coordenadas de produção do conhecimento que permitiriam – inclusive a partir da evocação das determinações que o pesquisador identifica como condicionantes do seu ponto de vista – que os enunciados produzidos possam ser verificados, contestados ou usados como conclusões fidedignas por outras pessoas, mesmo que elas não compartilhem o mesmo ponto de vista do autor, em um determinado período histórico. É uma abordagem que inclui o ponto de vista material e corporal na formulação do conhecimento; e que não o toma como um mero dado da vida do pesquisador (que pode eventualmente ser “nativizado”), uma realidade com a qual “fatalmente” teremos que lidar, podando alguns excessos de subjetivismo e vínculos muito politizados.

Por outro lado, já que o ponto de vista de qualquer teoria é localizado, ela inclui os desejos de emancipação dos sujeitos e grupos que abrange na sua rede de diálogos-em-política. Outras propostas epistemológicas estabelecem que a objetividade mede-se pelo poder de transformação que um enunciado porta em direção a um mundo inclusivo onde todos possam ser ouvidos. Para aqueles aos quais “não se permite não ter um corpo e um ponto de vista finito” (Donna Haraway), o recurso a uma rede de diálogos-em-política e a conexão entre saberes parciais é fundamental. Nestas alianças entre corpos, saberes localizados, objetividades parciais, dissidências, etc., não é necessário, como nas disciplinas acadêmicas, “pagar pedágio” a uma linguagem única de tradução supostamente desmarcada e neutra — “uma linguagem imposta como pârametro de todas as traduções/conversões (…) quando há apenas uma equação (…) como acontece com o dinheiro no âmbito das trocas do capitalismo” (Donna Haraway). Também não precisamos, portanto, fingir que não ocupamos lugar algum, que não sofremos exclusões, que não nos importamos com as exclusões e que não portamos privilégios. (Para um debate sobre Donna Haraway e sua proposta de uma “ciência sucessora”, acesse aqui)

Que antropologia queremos praticar?

Para finalizar podemos abrir nossa proposta tipicamente geaquiana, cuja pretensão é entrar em diálogo com mais pessoas e coletivos. Pretendemos e propomos inverter a ordem de importância entre vidas, políticas e antropologias, para que não tenhamos que, ao recorrer ao farto e criativo manancial do pensamento antropológico, carregar o fardo tanto do produtivismo quanto do ponto de vista burguês e desmarcado da disciplina. Defendemos uma forma de viver onde as antropologias possam estar a serviço de nossos projetos políticos com os outros, para que não nos mortifiquem num ponto de vista estéril e comprometido apenas com sua própria reprodução. Para tanto, é preciso proceder à crítica desses mecanismos, para entender que o ponto de vista liberal, de que as pessoas mudam de opinião sem mudar de lugar socialmente, não é um lugar tão interessante — muito menos para trabalhadorxs, mulheres, negrxs e indígenas. A Antropologia e aqueles que ocupam este lugar adequadamente sempre irão mostrar seus pelos pubianos — há que duvidar de sua conversão, há que duvidar do espaço higienizado que a Antropologia oferece para o “diálogo” e para a pacificação dos conflitos. A mediação do ponto de vista desmarcado da Antropologia é falsa. A invisibilidade aparente do mediador evanescente é um efeito de relações de poder e dominação reais. Devemos, por um lado, desvendar e desconstruir sua falsa promessa e, por outro, saber resgatar dela somente o que potencializa nossa ação no mundo e nossos diálogos em política. De volta ao ponto de partida, podemos resgatar do espírito daqueles anos de estudantes de graduação a potência de uma antropologia viva.

Textos consultados

Donna Haraway. “Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial”. http://www.clam.org.br/bibliotecadigital/uploads/publicacoes/1065_926_hARAWAY.pdf

Carlos Nelson Coutinho. “Cultura e Sociedade no Brasil” (1979) in: “Cultura e Sociedade no Brasil: ensaios sobre ideias e formas”. Editora Expressão Popular: São Paulo, 2011.

David Graeber. “Anthropology and the rise of the professional-managerial class” http://www.haujournal.org/index.php/hau/article/view/hau4.3.007

Verônica Toste e Marcia Rangel Candido. “A voz das Ciências Sociais é masculina?” https://revistaescuta.wordpress.com/2016/03/24/a-voz-das-ciencias-sociais-e-masculina/

Partilhar isto:

  • Share on X (Abre numa nova janela) X
  • Partilhar no Facebook (Abre numa nova janela) Facebook
Gosto Carregando...
Etiquetasantropologías disidentes • antropologia crítica • antropologias dissidentes • debate teórico • desobediência epistêmica • Papel do antropólogo • Raça
Desconhecida's avatar

Sobre GEAC - Antropologia Crítica

O Grupo de Estudos em Antropologia Crítica é um coletivo independente que atua na criação de espaços de auto-formação e invenção teórico-metodológica. Constituído em 2011, o GEAC se propõe, basicamente, a praticar “marxismos com antropologias”. Isto significa desenvolver meios para refletir, de maneira situada, sobre os devires radicais da conflitividade social contemporânea. Delirada pelo marxismo, a antropologia se transforma, para o GEAC, numa prática de pesquisa e acompanhamento político das alteridades rebeldes que transbordam e transgridem a pretensão totalitária do modo de produção vigente e da sua parafernália institucional.

antropologiacritica.wordpress.com

6 comments on “Antropologia e Dessubjetivação. De volta ao ponto de partida”

  1. saberes's avatar
    saberes
    Junho 21, 2016

    “Vivi muito tempo no mundo acadêmico. O mundo acadêmico é um lugar perigoso. Dá medo. Nietzsche muito cedo se sentiu incapaz de respirar o seu ar. Sobre o perigo de se viver na universidade ele fez uso de metáforas sinistras: “Eles se assentam frios na sombra fria: em tudo eles desejam ser apenas espectadores. Como aqueles que ficam nas ruas observando os passantes, eles esperam para observar os pensamentos que os outros pensam. […] Eles se vigiam uns aos outros com atenção e desconfiança. Férteis em espertezas mesquinhas, eles ficam tocaiados esperando os que andam com pés trôpegos: como aranhas eles esperam” (Assim falou Zaratustra FN II(II), p.655). Durante muitos anos, não tive coragem para dizer o que eu sabia. Por medo. As inquisições não são monopólios das igrejas e não se fazem só com lenha e fogo. É muito difícil viver numa universidade e continuar a cultivar os próprios pensamento. É muito mais seguro ficar moendo os pensamentos dos outros”.

    Rubem Alves

    Responder
    • GEAC - Antropologia Crítica's avatar
      GEAC||Grupo de Estudos em Antropologia Crítica
      Julho 11, 2016

      Incrível a pertinência e atualidade dessas citações, de Rubem Alves e Nietzsche. Obrigado por compartilhar! Para devolver algo àqueles que nos provocam esse mal-estar, nada melhor que pensarmos sobre a sua mediocridade: porque a Universidade conseguiu ser assim?

      Um abraço, obrigada pelo comentário 🙂

      Juliana

      Responder
  2. Daniel Etcheverry's avatar
    Daniel Etcheverry
    Junho 24, 2016

    Excelente teu texto, Juliana Messomo. Tu conseguíste ir fundo num tema muito delicado. Sem dúvida Vai inspirar alguns parágrafos como resposta! .

    Responder
    • GEAC - Antropologia Crítica's avatar
      GEAC||Grupo de Estudos em Antropologia Crítica
      Julho 11, 2016

      Oi Daniel! Que bom saber que repercutiu o texto, ficamos felizes! É fruto desses anos todos de debates do GEAC. Esperamos a resposta então, certamente vai nos mover 🙂

      Obrigada pelo comentário. Grande abraço! Ju

      Responder
  3. Thiago's avatar
    Thiago
    Junho 27, 2016

    Juliana, muito agradecido pela possibilidade de reflexão que teu texto trouxe. Incrível como o julgo acadêmico vai nos tirando a “essência humana”, nos diversos sentidos dessa expressão. Seu texto me fez lembrar porque sempre “esperneei” e como isso mantinha vivo em mim uma “chama de rebeldia” frente a esse cenário que você descreve. Perceba que escrevo no passado… Aos poucos, de forma lenta, silenciosa e solitária fui sucumbindo parcialmente a essa lógica. Descobrir pessoas “esperneando” traz uma força inenarrável e por isso compartilho esse comentário, para que saibas que teu texto ajudou (muito) a perceber o quanto docilizado e domesticado estou/estava. Seguimos “esperneando”!

    Responder
    • GEAC - Antropologia Crítica's avatar
      GEAC||Grupo de Estudos em Antropologia Crítica
      Julho 11, 2016

      Olá Thiago! Obrigada pelo comentário. Sem espernear acho que estamos fadados a reproduzir a disciplina pela disciplina… e inevitavelmente, assim, estaremos esvaziando nosso próprio trabalho, nossa própria vida. Sejamos seres políticos e sensíveis como todos são…
      Como tentei mostrar no texto, acho que tem aí uma questão geracional também. Nos últimos anos a necessidade de produzir por produzir vem impactando desde muito cedo na nossa formação. Acho que, hoje em dia, é questão de sobrevivência espernear e fazer a crítica deste lugar de enunciação que convencionou-se chamar antropologia.

      Ficamos felizes que o texto tenha ajudado. Quando quiseres compartilhar mais inquietações, angústias, ideias, fique à vontade. Certamente irá nos ajudar também. Um abraço! Juliana

      Responder

Deixe uma resposta para GEAC||Grupo de Estudos em Antropologia Crítica Cancelar resposta

Navegação de artigos

Artigo anterior
Artigo seguinte

Temáticas

acción política antropologia crítica antropologias dissidentes antropologías disidentes Atividade do GEAC ação política Cartografias da dissidência cartografías de la disidencia classe debate teórico descolonialidade desobediência epistêmica Economia Marx Marxismos com antropologias papel del antropólogo Papel do antropólogo Pesquisa militante

Temas

  • debate teórico
  • ação política
  • antropologias dissidentes
Follow on WordPress.com

Contato

antropologiacritica@gmail.com
  • Twitter
  • Perfil Facebook
  • Comentar
  • Republicar
  • Subscrever Subscrito
    • maquinacrisica.org
    • Junte-se a 136 outros subscritores
    • Already have a WordPress.com account? Log in now.
    • maquinacrisica.org
    • Subscrever Subscrito
    • Registar
    • Iniciar sessão
    • Copy shortlink
    • Denunciar este conteúdo
    • View post in Reader
    • Manage subscriptions
    • Minimizar esta barra
%d