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Sim, houve ocidente: sobre a tradição europeia e seus efeitos

Por Vicente Cretton Pereira

Imagem: Hernán Cortés que chega a Tenochtitlan. Manuscrito conhecido como o códice Azcatitlan, biblioteca nacional de França.

A lista de noções ou ideias que são tidas como exclusivas do “ocidente” é, em grande medida, arbitrária, de modo que em vez de enfatizar democracia, liberdade e livre-mercado, poderíamos pôr em relevo a ciência, o industrialismo, a racionalidade burocrática, o nacionalismo, as teorias raciais e uma necessidade infinita de expansão territorial, terminando por concluir que o Terceiro Reich teria sido o ponto culminante da cultura ocidental. Trata-se de uma sugestão um pouco irônica, mas não é preciso muito esforço para percebermos que ela está longe de ser completamente falsa.

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Introdução

No capítulo onze de seu livro Possibilities[1] (2007, pp.329-374) o antropólogo David Graeber defende a interessante tese de que o Ocidente nunca teria existido –  pelo menos não como a maioria dos ditos ocidentais pensa que existiu. Trata-se obviamente de uma provocação, já que o artigo segue discutindo como “valores ocidentais” fundamentais, como democracia e liberdade, foram na verdade apropriados pelo discurso de líderes políticos após terem surgido no que ele chama de “espaços intermediários” (ou seja, espaços fronteiriços onde haviam poucas possibilidades de qualquer atuação por parte do Estado) como navios piratas que atuavam no Atlântico ou fronteiras de expansão colonial na América. Um dos pontos de partida de seu argumento é o fato de que, se levarmos ao pé da letra a lista de conceitos geralmente associados a uma “tradição ocidental” – como por exemplo individualismo, liberalismo, constitucionalismo, direitos humanos, igualdade, liberdade, democracia, livre-mercado, separação entre igreja e Estado e assim por diante – teríamos que assumir que o Ocidente somente tomou forma entre os séculos XIX e XX. Em qualquer dos séculos anteriores os “ocidentais” (isto é, povos originários da Europa) teriam rejeitado praticamente todas estas ideias, e isso caso alguém tivesse tido a capacidade de formulá-las (ibidem, p.333).

A noção de que existe algo como uma “civilização ocidental” cuja tradição particular teria surgido na Grécia Antiga, passado pelo Império Romano, mantendo depois um tipo de sobrevida durante a Idade Média para ressurgir na Renascença italiana estabelecendo-se desde então nos países do Norte Global é, segundo o autor, particularmente estranha. Tal concepção somente se torna possível se imaginarmos que “cultura” e “civilização” sejam o resultado de tradições que são passadas adiante por pessoas que lêem os livros umas das outras: a razão para achar que Napoleão esteja mais próximo de Platão ou de Tucídides do que um pastor grego contemporâneo destes é somente porque Napoleão leu Platão e Tucídides (ibidem, p.336). A tradição ocidental, deste ponto de vista, é percebida como um conjunto de ideias que foi sendo passado adiante por meio de livros e textos, discutido em salões de leitura e cafés, em salas de aula e assim por diante. Isso de um lado.

Mas de outra perspectiva há o entendimento de que “ocidentais” são pessoas que vivem atualmente na Europa e na América do Norte, e “tradição ocidental” é uma expressão que poderia se referir à cultura ou ao senso comum destas pessoas. Entre um e outro a noção de “ocidente” ficaria perdida tornando-se assim uma categoria sem sentido (ibidem,  p.337-9). Um dos nossos objetivos no presente texto é recuperar um pouco esse sentido, buscando uma nova “configuração de cultura” para o “ocidente”, isto é, caracterizando de fato em que consistiram as tradições europeias nos últimos dois mil anos mais ou menos e como elas chegaram até nós.

O próprio Graeber sugere que a lista de noções ou ideias que são tidas como exclusivas do “ocidente” é em grande medida arbitrária, de modo que em vez de enfatizar democracia, liberdade e livre-mercado poderíamos pôr em relevo a ciência, o industrialismo, a racionalidade burocrática, o nacionalismo, as teorias raciais e uma necessidade infinita de expansão territorial, terminando por concluir que o Terceiro Reich teria sido o ponto culminante da cultura ocidental (ibidem, pp.333-34). É uma sugestão um pouco irônica, mas não é preciso muito esforço para percebermos que ela está longe de ser completamente falsa (“na verdade críticos radicais do Ocidente fariam precisamente essa argumentação”, observa ele).

David E. Stannard provavelmente seria considerado por Graeber um desses “críticos radicais do Ocidente”, tendo escrito mais de uma obra sobre a colonização das Américas, inclusive uma cujo impactante título é American Holocaust (Stannard, 1992). Nela, especialmente no capítulo cinco, o autor discorre sobre três temas que ele considera como fundamentais para se pensar uma cultura ou tradição europeia de longa duração: sexo, raça e violência (ou guerras santas). A pergunta que Stannard tenta responder é: o que eram essas pessoas que tão avidamente cometeram genocídios contra muçulmanos, judeus, africanos, ameríndios, ciganos e outros grupos religiosos ou étnicos? Sim, o que eram (what were they, ibidem, p.149, ênfase do autor). Bem, a resposta mais rápida seria dizer que os perpetradores de todos estes massacres eram cristãos.

Movimentos genocidas como o nazismo não surgiram na Europa do nada. Eles estavam profundamente enraizados em uma tradição dentro da qual foram preparados e amadurecidos, e esta tradição é inseparável do passado da Europa cristã e “civilizada”. O próprio Hitler, de fato, assumiu que o plano triunfal para o nazismo concebido por ele foi moldado a partir da “tenaz aderência ao dogma” que caracteriza a Igreja Católica desde seus primórdios. Uma outra grande referência para o Führer, como se sabe, foram as políticas do Estado norteamericano[2] para os povos indígenas. Stannard, oportunamente, observa que Hitler, de tempos em tempos, expressou admiração pela eficiência da campanha genocida dos EUA contra os indígenas, visualizando-a como uma espécie de experiência pioneira em relação aos seus próprios planos e programas (ibidem, p.153). Não por acaso, quando obras eugenistas como The Passing of The Great Race de Madison Grant passaram a habitar sua cabeceira, ele irá tomar os EUA como o grande exemplo de cidadania racial, onde certas “raças” estariam excluídas da sociedade pela legislação e por políticas estatais. A discussão sobre isso é geralmente evitada porque os crimes do III Reich entraram para a história como uma espécie de radicalização absoluta do mal, tornando-se um tabu.

Mas segundo James Q. Whitman (2017) nos anos 1930 acadêmicos, advogados e oficiais nazistas, ao pensarem as políticas contra o povo judeu, foram muito influenciados pela legislação estadunidense. Eles tinham bons motivos para isso: a escravidão de africanos estava escrita na constituição, e o próprio Thomas Jefferson havia defendido a completa eliminação da população indígena norte-americana, algo que se tornou parte integrante da legislação do país. As leis federais que discriminavam os povos indígenas interessavam particularmente a esses especialistas nazistas, e o próprio Hitler, em seu conhecido Mein Kampf já discutia essas leis e afirmava que os EUA eram um modelo racial a ser seguido pela Europa (Hitler, 1939[1925], p.341). Num discurso em 1928 ele põe em relevo a maneira pela qual os EUA reduziram milhões de “peles vermelhas” a apenas alguns milhares, que agora eram mantidos sob custódia com intensa vigilância numa “gaiola”.

Para E. P. Thompson (2019[1947], p.42) o nazi-fascismo foi um ataque bárbaro à então recente “civilização mundial” que avançava baseada na “livre expressão de homens e mulheres trabalhadores”, um ataque, diz ele, como nunca antes visto na história da humanidade. Porém, os EUA criaram reservas para conter populações indígenas que eram iguais em praticamente tudo a campos de concentração um século antes de Hitler fazer o mesmo para judeus e ciganos na Alemanha. Poderíamos, na verdade, multiplicar os exemplos: campos de concentração também foram utilizados pela monarquia espanhola em 1890 para conter revolucionários cubanos; a própria Alemanha já havia cometido genocídio contra povos do sudoeste da África por meio do uso de campos de concentração e outros métodos entre 1904 e 1907 (Bray, 2017, p.xvii); os milhões de mortos de fome na Índia durante a dominação inglesa; os dez milhões de congoleses mortos pelo rei da Bélgica; os horrores do tráfico de escravos do Atlântico, e assim por diante. Portanto, tudo que o mundo assistiu aterrorizado na Alemanha nazista já havia sido visto antes e continua sendo visto, em muitas partes do mundo, até hoje[3]. Tais eventos constituem-se em amostras do poder de destruição em massa que a Europa vinha desenvolvendo desde muito antes da ascenção de Hitler, de tal modo que (sem minimizar o Holocausto perpetrado na Alemanha nazista) podemos entender o nazi-fascismo como uma espécie de colonialismo “trazido para casa”. Em outras palavras, se o hitlerismo aterrorizou tanto os europeus foi exatamente porque suas ações estavam voltadas para pessoas brancas europeias, pois, ao fim e ao cabo, o que o nazismo e o fascismo fizeram foi aplicar ao velho continente os procedimentos coloniais tal e qual se fez na América, na África, na Índia e alhures (ibidem, p.xvii).

Tais procedimentos, no entanto, sempre exigem algum tipo de justificação por causa de sua própria natureza brutal e covarde. Durante a colonização americana, por exemplo, os espanhóis enumeravam os costumes alimentares dos ameríndios – incluindo o canibalismo, mas também o consumo de certos insetos e outros alimentos, considerados não adequados à dieta humana –, sua nudez e falta de agricultura, sua licenciosidade, sua libertinagem, ignorância, falta de armas ou outros objetos feitos de ferro além de sua idolatria a fim de desumanizar propositalmente àquelas mesmas pessoas que eles estavam exterminando (Stannard, 1992, p.218). Não se trata aqui meramente de pôr em relevo o etnocentrismo – “um ponto de vista ingênuo, mas profundamente enraizado na maioria dos homens”, como escreveu Lévi-Strauss (2008[1952], p.4) – dos europeus, mas antes, de entender que tais categorias de comportamento ao serem utilizadas desta maneira acusatória derivavam claramente de ideias –  comuns há séculos na Europa – sobre o que caracterizaria o “mal fundamental” e as criaturas irracionais: no background delas podemos encontrar desde a “raça de bronze” de Hesíodo até o “homem selvagem” e as “bruxas” da Idade Média (ibidem). E o primeiro “mal fundamental” que os cristãos europeus tinham que liquidar encontrava-se dentro do próprio corpo das pessoas, isto é, o desejo sexual.

O sexo como pecado

As raízes do que chamamos aqui de tradição europeia devem ser procuradas antes mesmo da Idade Média, quando parte do desejo de muitos cristãos de matar infiéis que viviam no que eles consideravam ser uma “selvageria espiritual” (spiritual wilderness) era quase uma consequência direta da necessidade de matar o “selvagem pecaminoso” (sinful wilderness) dentro de si mesmos (Stannard, 1992, p.154). Comum tanto ao universo grego como ao romano, a ideia de que o gozo dos prazeres da carne pertencia ao mundo dos brutos ou das bestas (e que, por outro lado, modéstia, abstinência e sobriedade eram características nobres) será levada ao seu extremo pelo subsequente pensamento cristão europeu (ibidem, p.154-55). Numa clara torção interpretativa, o pecado que no judaísmo estava (e está ainda hoje[4]) associado à “transgressão da lei”[5], passa a significar primordialmente ceder aos desejos sexuais.

Não apenas a carne será considerada corrupta mas a própria natureza da humanidade e até mesmo a Natureza em si mesma. Tão corrupta que apenas um rígido autoritarismo será confiável para governar a humanidade que, desde a queda de Adão e Eva, está envenenada com uma permanente incapacidade de governar a si mesma de uma maneira aceitável a Deus. Alguns dos primeiros padres, como Orígenes, chegaram a castrar a si mesmos[6], mas no quarto século a Igreja passou a condenar esse tipo de comportamento, sendo considerado suficiente o celibato voluntário. Tal renúncia passou rapidamente a ser um tipo de condição para lideranças masculinas na Igreja[7], de modo que a sexualidade acabou por tornar-se um significativo marcador, justamente porque ao ser removida do conjunto de atividades do sujeito, permitia ao mesmo autoproclamar-se alguém mais próximo ao ideal de pessoa cujo coração pertenceria somente a Deus (ibidem, p.155).

Uma oposição tão fanática e agressiva ao sexo, evidentemente, apenas poderia surgir em pessoas obcecadas por sexo, como fica claro quando observamos a vida de muitos dos antigos eremitas cristãos do terceiro século. Após concluírem que a única maneira de frear seus impulsos sexuais seria removerem a si mesmos da convivência com as demais pessoas, eles se mudavam para o deserto e declaravam guerra à sua sexualidade, evitando também a ingestão de alimentos e água. Porém, logo percebiam que quanto mais eles buscavam evitar os pensamentos sexuais – seja queimando-se com ferros em brasa, passando noites geladas ao relento, evitando alimentos cozidos e assim por diante – mais eles eram torturados pelo desejo. O jovem monge Palladus, por exemplo, afirmou ao seu superior, Pachon, que iria deixar o deserto pois não importava o que fizesse, seus pensamentos continuavam, noite e dia, sendo atormentados por visões de mulheres[8] (ibidem, p.156).  Hoje, passar por tais penitências a fim de evitar o desejo sexual pode parecer algo excessivo mas nos primeiros séculos de cristianismo, quando as sementes da fé estavam sendo alimentadas para se tornarem dogmas, tais atividades caracterizavam praticamente a vida adulta inteira de milhares dentre os mais santos e honoráveis homens (ibidem, p.157).

A vida do cristão eremita foi ao poucos perdendo espaço pois jamais os monges conseguiam encontrar isolamento suficiente para cumprir com sucesso seu intento. Assim começaram a viver em pequenos grupos e, logo em seguida, organizaram-se os monastérios, comuns durante toda a Idade média. Nestes a proximidade dos corpos tornou ainda mais difícil controlar a “tentação carnal” (carnal temptation), e tiveram que ser instituídas certas regras – tais como proibição de trancar as portas dos quartos ou proibir que dois monges conversassem no escuro – a fim de tentar desestimular certos comportamentos dos internos (ibidem).

O princípio orientador da aguerrida repressão[9] ao sexo por parte dos primeiros cristãos europeus é a separação entre coisas do espírito e coisas do mundo, duas realidades que se excluíam mutuamente[10]. Esta oposição entre espírito e mundo acabou florescendo durante a Idade Média na forma de uma ideologia bastante consistente que ficou conhecida como contemptus mundi (ibidem, p.158), isto é, a ideia de que toda a vida na terra seria mais apropriadamente vista como um lugar de sofrimento e a vida humana particularmente deveria ser considerada uma vida miserável, decrépita, impura e assim por diante. Assim, esperava-se de bons cristãos medievais na Europa que purgassem a si mesmos dos problemas mundanos e dos impulsos carnais: o que foi um valor muito bem enraizado no ascetismo dos primeiros padres da Igreja, iria persistir entre os crentes ainda por muitos séculos (ibidem, p.159). Assim, a separação entre o mundano e o espiritual, o profano e o sagrado e sua expressão em termos de repressão sexual tornou-se uma característica bem estabelecida da cultura cristã europeia (ibidem, p.160).

Pessoas monstruosas: a antiga ideia de raça

O conceito de raça, ao contrário do que comumente se acredita, tem raízes profundas na antiguidade da Europa. Não exatamente, é claro, o mesmo conceito que surgiu com as teorias raciais nos séculos XVIII e XIX, porém, há pelo menos dois mil anos já estavam em uso na Europa sistemas de categorização que distinguiam grupos de pessoas –tendo por base tanto a cor da pele quanto outros atributos físicos – criando um tipo de ranking de disposições e inteligência (ibidem, p.164). Posidônio, astrônomo grego que passou muitos anos em viagens pela Europa e Norte da África, defendia por exemplo que o comportamento de indivíduos e grupos se devia a uma variedade de fatores, inclusive seu “caráter racial”[11] (ibidem, p.165).

Poetas gregos como Homero e Hesíodo descreveram em suas obras um universo povoado por categorias diferentes de pessoas: a “raça dourada”, pessoas que viviam como deuses longe de qualquer miséria; a “raça prateada”, muito inferior à primeira mas que, ainda assim, tinham honra; a “raça de bronze”, terrível e feroz, caracterizada pela violência, pela falta de agricultura e por não saberem fabricar utensílios de ferro. Finalmente, haveriam as “raças monstruosas” (monstruous races) descritas por Homero e outros, pelo menos oito séculos a.C., mas que aparecem compiladas num tratado de história natural de trinta e seis volumes escrito por Plínio, o Velho, no primeiro século (ibidem, p.165-6). Nele o autor nos informa sobre a existência de

different peoples living in far off lands whose feet are turned backwards; whose upper or lower lips are so large that they curl them back over their heads to use as umbrellas; who walk upside down; who walk on all fours; who are covered with hair; who have no mouths and nourish themselves by smelling their food; who have neither heads nor necks and whose faces are embedded in their chests; who have one eye–or three, or four; who have the heads of dogs, and breathe flames; who have only one leg on which they nevertheless run very fast, a leg containing an enormous foot that they use to shield themselves from the sun; who are gigantic or miniature in size; who have six fingers or six hands; who have hooves instead of feet; whose ears are so long that they use them as blankets; and more. Other such alien races have women who conceive at age five and die by the time they are eight, or children who are born with white hair that gradually turns to black as they grow older (Stannard, 1992, p.167).    

Todas essas criaturas, vale dizer, eram tidas como realmente existentes sobre a face da terra – geralmente às margens do mundo então conhecido –, e não em outras dimensões ou mundos. Tais raças monstruosas eram ainda reconhecíveis por padrões culturais que divergiam dos ideais europeus: falar línguas estranhas, comer comidas e bebidas exóticas desde carne humana a insetos, andarem nus ou com poucas roupas, usavam utensílios e armas feitos de madeira e viviam em pequenas comunidades (e não num ambiente urbano) sendo por isso carentes de qualquer tipo de legislação. Ao serem incorporadas no pensamento cristão, as raças monstruosas passaram a ser identificadas com a descendência de Caim, isto é, criaturas cuja excentricidade era parte de seu merecido sofrimento após o pecado de seu progenitor (ibidem, p.167).

Sejam gregos, romanos ou cristãos medievais, os europeus estiveram por longo tempo pensando em si mesmos como um tipo de povo “escolhido” que habitava o centro e o mais civilizado domínio da vida humana. Tudo que se afastava deste domínio acabaria sendo afastado da própria categoria de humano, e isto foi exatamente o que aconteceu com as raças monstruosas na antiguidade tardia: “they commonly were denied the label of ‘men’” (ibidem, p.168). Isso eventualmente tornou-se um problema para a Igreja, pois um dos princípios da fé cristã era a conversão de todos os seres humanos à verdade divina, e Santo Agostinho, em seu Cidade de Deus, é um dos primeiros a tentar resolvê-lo. Ele afirmava então que quem quer que houvesse nascido humano, isto é, uma “criatura mortal racional”, por mais estranha que pareça aos nossos sentidos em sua forma corporal, cor ou em qualquer faculdade, descende do primeiro ser humano criado por Deus. Claro que a condição necessária de que para ser-se humano é preciso ser também racional deixou uma grande margem para desacordos (ibidem). O que realmente Santo Agostinho deixou bem claro em seu texto é que para ele os cristãos eram certamente humanos e também racionais, enquanto alhures poderiam haver certas raças que apesar de parecerem humanas com respeito a certos aspectos, não o eram de fato[12].

Muitas histórias sobre criaturas monstruosas que ao se converterem ao cristianismo adquiriram forma humana circulavam pela Europa medieval. A própria conversão de São Cristovão, por exemplo, um dos santos mais populares da Igreja durante muito tempo, traz o Cristovão pré-converso como um ser monstruoso, com cabeça de cachorro, cabelos longos e olhos brilhantes (ibidem). Assim, a aparência monstruosa não era um empecilho para a conversão e nem mesmo para a santidade, mas esta mesma premissa leva à conclusão de que caso tais monstros, ao contrário de São Cristovão,  fossem irracionais, então eram de fato incapazes de se converterem. Estes deviam ser considerados abaixo mesmo da mais abrangente e generosa definição de pessoa (ibidem, p.168-9).

Ao longo da Idade Média o interesse pela variedade de raças monstruosas exposta por Plínio foi sendo focalizado em um só exemplar, o sylvestres hominens ou “homem selvagem” (wild man) e sua parceira a “mulher selvagem” (wild woman). Estas figuras eram de especial interesse para os europeus porque estavam em oposição direta aos ideais ascéticos e celibatários da cristandade: pessoas selvagens eram vistas, entre outras coisas, como criaturas vorazmente sexuais (ibidem, p.169). Ou seja, simbolizavam tudo que a tradição contemptus mundi queria erradicar da face da terra, mas que, como vimos, por maiores que fossem os esforços, tratavam-se de coisas efetivamente irradicáveis.

Guerras santas: a violência contra os pecadores

Neste período, selvagem (wild) era sinônimo de tudo que fugisse à norma cristã, tudo que fosse ingovernável, imprevisível, não cultivado e assim por diante. O homem selvagem, nesse sentido não era mais do que a personificação da bestialidade presente no interior mesmo no mais santo dos seres humanos – uma bestialidade que devia ser superada. Para este fim convergiam tanto o auto suplício como também as violentas campanhas de guerra contra povos considerados “infiéis” (ibidem, p.172). A selvageria (wilderness) pode ser vista mesmo como a representação do próprio inferno, mas como um verdadeiro cristão deveria passar pelo período de testes ou provações antes da revelação à verdade divina, a imagem do selvagem também carregava em si características redentoras. Um lugar onde pessoas verdadeiramente santas poderiam vencer as tentações, e triunfar diante de Satã. O aspirante a “verdadeiro cristão” poderia ser atraído para estes lugares como se eles fornecessem o único caminho para sua salvação. Em outras palavras, o selvagem – como o wild man interior – estava lá para ser confrontado e convertido, domesticado ou destruído (ibidem, p.174).

Grande parte do sucesso da Igreja na Europa está ligada à grande intolerância dos seus fiéis, algo constituído a partir do seguinte princípio: estando a fé baseada na ideia de “guerra espiritual”, isto é do Bem contra o Mal, de Deus contra o diabo, do espírito contra a matéria, etc., o “não-crente” passou a ser equivalente a “anti-crente”. Os “não-crentes” eram vistos como pessoas que desejavam a morte do deus cristão de modo que tolerar o ceticismo passou a ser algo que feria princípios cristãos fundamentais (ibidem). E durante a Idade Média, poucos povos eram considerados pelos europeus cristãos como mais “não-crentes” do que os judeus.

Na verdade, desde que o cristianismo se separou do judaísmo três opções têm sido apresentadas aos judeus na Europa: se converterem, serem expulsos ou serem aniquilados. O primeiro grande massacre de judeus europeus ocorreu em 1096, na cidade de Speyer, Alemanha, quando onze judeus se recusaram à conversão e foram assassinados (ibidem, p.175). Não houveram mais mortes de imediato graças às ações protetivas de um bispo local, mas a sede por sangue judeu acabou se espalhando pela região e, na cidade de Worms – onde as autoridades cristãs não estavam tão dispostas à proteger a população judaica – os entusiastas invadiram e saquearam a sinagoga e as casas judias, assassinando em massa oitocentas pessoas que se recusaram à conversão, inclusive crianças. Os sobreviventes foram levados para serem batizados e viverem “como cristãos”. Ao norte de Worms, na cidade de Mainz 1.100 judeus foram mortos incluindo mulheres e crianças. Dali a matança se espalhou para Trier, e depois para Metz, Cologne, Regensburg e finalmente Praga. Um mês havia se passado desde o primeiro evento em Speyer, e quando o massacre cessou um total de mais ou menos oito mil judeus haviam sido assassinados. Tal destruição em massa foi perpetrada por soldados da Primeira Cruzada do Papa Urbano II, que estavam se pondo a caminho de Jerusalém. Vagando pelo longo trajeto à Cidade Santa, eles tinham ordens de seus superiores (gente como Pedro, O Eremita) de procurar e destruir os hereges que estivessem mais “perto de casa” do que os sarracenos de Jerusalém (ibidem, p.176).

Tendo por base versículos bíblicos assertivos, principalmente do Antigo Testamento (como Deuteromônio 7:2,16 e Deuteromônio 20:16-17, entre outros), o soldados cristãos europeus desenvolveram uma forma de guerra onde Deus não estaria apenas comandando o conflito, mas estaria Ele mesmo lutando, no plano cósmico, contra seus satânicos inimigos. A partir de tal concepção de “guerra cósmica” qualquer violação da doutrina cristã era vista como passível de punições violentas ilimitadas, sem nem mesmo distinguir nas linhas inimigas entre soldados e civis. Assim, a Igreja acabou aceitando entusiasticamente a ideia de “guerra justa”[13] da qual se desenvolveu o conceito de Guerra Santa – muito parecido, aliás, com o conceito islâmico de jihad.

O século XI (o mesmo em que se iniciaram as cruzadas, como vimos) foi um período especialmente difícil para a Europa, com inundações, pestilência, fome, entre outros desastres. A crença na Segunda Vinda de Jesus era amplamente difundida, mas os crentes em geral sabiam que para isso seria necessário que a Terra Santa estivesse liberada para que a cristandade pudesse nela habitar (ibidem, p.178). Assim, três anos após o massacre de judeus que começou em Speyer e terminou em Praga, os soldados de cristo do Papa Urbano II armavam o cerco a Jerusalém. Então, preparando-se para o iminente ataque:

the soldiers of the Lord underwent a sequence of penitential rituals that later became routine procedure for crusading Christian armies. In the manner of the ascetics they fasted for three days, they confessed their sins, they received communion; and then they marched barefoot around the walls of the city, chanting psalms, some of them carrying crosses and relics, in abasement before the greater glory of God.93 From within the city the commander of the Muslim garrison watched the Christians in astonishment-but with more astonishment still when they suddenly began hurling themselves against Jerusalem’s walls “like madmen, without carrying a single ladder” (Stannard, 1992, p.178)  

Ao entrarem na cidade trataram homens, mulheres e crianças igualmente como “infiéis”. Uma testemunha ocular (o autor anônimo do conhecido Gesta Francorum) deixou registrado que pilhas de cabeças, mãos e pés podiam ser vistas pelas ruas da cidade, e dentro do Templo de Salomão o sangue chegava aos joelhos e jaziam cerca de dez mil corpos. Judeus que buscaram refúgio em sinagogas foram queimados vivos, muçulmanos que tentaram se esconder na mesquita de Al-Aqsa foram passados ao fio das espadas cristãs. Os corpos de velhos e doentes eram abertos à procura de moedas de ouro que eles possivelmente tivessem engolido – já que o Papa ordenou que todo o espólio de guerra poderia ser mantido pelos soldados. Por fim, os sobreviventes tiveram que levar os corpos de seus compatriotas para fora da cidade, a fim de evitar a disseminação de doenças. A Igreja conseguia mais uma vitória.

Mas houve também derrotas, embora estas fossem sempre atribuídas aos pecados cometidos pelos cruzados. Da derrota de Gottschalk na Hungria aos fracassos dos cristãos na Antióquia a lição era lida da mesma forma: aos cruzados era garantida a vitória nessa vida e a salvação na próxima – Deus estava com eles – a menos que tivessem cometido pecados. Por conta disso, mulheres eram evitadas nos acampamentos dos cruzados, e pela mesma razão os inimigos eram vistos como bestas libertinas. O contato sexual de um cruzado com uma mulher nativa das terras invadidas era tido como enorme obstáculo para a salvação, e a penalidade era castração para o homem e mutilação facial para a mulher (ibidem, p.179).

Acreditava-se que os infiéis estavam em conspiração com o Anticristo para destruir tudo o que a cristandade representava e sua imagem popular passou a ser a de “demônios em forma de gente”: precisavam ser varridos da face da terra. Mas caso não fossem, poderiam também ser escravizados[14] (ibidem, p.180). Entre os séculos XII e XIIId.C. a escassez de mão-de-obra no mundo mediterrâneo em consequência da Peste estimulou a importação[15] de pessoas escravizadas na Turquia, Bulgária, Armênia e África. Uma das razões para isso é que a Igreja estava colocando restrições cada vez mais rigorosas à escravização de pessoas que haviam nascido como cristãs[16]. Como resultado, ao longo da Idade Média, enquanto a “guerra santa” contra os infiéis alhures era um contínuo dever da Igreja, dentro da Europa milhares de muçulmanos eram tratados como coisas, e judeus viviam em estado quase permanente de crise. De fato, mesmo antes da Peste, em 1215, um edito papal requeria que judeus e muçulmanos usassem uma vestimenta distintiva, o que foi feito em larga medida a fim de dificultar os contatos sexuais entre eles e pessoas cristãs (ibidem).

Expulsos de vários países durante a Idade Média, nos anos que se seguiram à Peste Negra os judeus eram ainda tolerados na Espanha basicamente por causa de suas contribuições para a economia (ibidem, p.181-2), mas a propaganda contra eles por parte de lideranças da Igreja fez com que o ódio anti-judeu explodisse em Aragão, Catalunha e Castela em 1391. Muitos judeus, identificados mais facilmente por causa dos tais adereços distintivos, foram mortos.  Outros se converteram apenas para salvar suas vidas e as de seus filhos, tornando-se o que veio a ser conhecido como converso, cristão-novo, cripto-judeu ou simplesmente marrano, já que permaneciam secretamente fiéis à sua fé (ibidem, p.182). Esse tipo de prática perturbava a hierarquia católica, pondo em cheque tanto as conversões dos outros como a lealdade dos próprios católicos em relação aos seus dogmas, e foi não tanto para perseguir os judeus mas sim para investigar os marranos e sua falsa adesão ao cristianismo que em 1483 a Inquisição foi instituída em Castela e depois em 1487 em Barcelona: daí por diante todos os marranos estavam sob suspeição, e muitos confessaram o “crime” após sessões de tortura, terminando na fogueira (ibidem pp.182-3). Algumas décadas depois começariam os conflitos entre protestantes e católicos, nos quais cristãos massacravam cristãos, europeus aniquilavam europeus, gente “civilizada” assassinava gente “civilizada”.

Esse era o mundo de onde partiu Colombo em 1492: por quase meio milênio cristãos estavam se lançando em sangrentas “guerras justas” contra inimigos externos que eles viam como espécies de demônios de carne e osso, seguidas de escravização em massa, tudo isso para recuperar a Terra Santa e prepara-la para a Segunda Vinda. Além disso, ao longo desses séculos eles também demonstraram seu ódio e intolerância para com não-cristãos conduzindo pogroms contra judeus na Europa, impondo tortura, exílio e morte àqueles que se recusassem à conversão (ibidem, p.190). A Europa deste período parecia mesmo o fim dos tempos. E Cristovão Colombo não apenas compartilhava com os demais cristãos desse sentimento apocalíptico: ele estava obcecado com isso, na verdade.

A cristandade chega na América

Colombo via a si mesmo como como um homem com uma missão divina vivendo em uma era apocalíptica. Além de estar muito seguro acerca de suas ideias, ele também tinha certeza de que o mundo iria acabar dentro de 150 anos (ibidem, p.195). Ele mesmo havia feito os cálculos, baseado em uma leitura cuidadosa de uma obra escrita em 1410 pelo cardeal católico (e depois chanceler da Universidade de Paris, além de inquisidor de alto escalão) Piere d’Ailly chamada Imago Mundi. Deste mesmo livro Colombo também derivou um conjunto de variadas informações que o levaram a afirmar que a distância até as Índias pelo Atlântico era mais curta do que se acreditava. As mais de 900 anotações em matéria de geografia, teologia e história, que podem ser observadas hoje na cópia do livro utilizado por Colombo, indicam que ele fez uma leitura intensa, digna de um autodidata que houvesse encontrado o caminho divino para a verdade:

It was through the exploration of sources such as this, apparently in addition to lengthy conversations with Franciscan monks who were convinced that the end was near, that Columbus figured out to his satisfaction precisely when the Second Coming would occur. He did this through a kind of simplistic biblical numerology he had worked out, but he also knew it from the historical signs that were all around him. Failure as well as success always has been absorbed easily into the all-embracing chiliastic logic of those convinced that the millennium is at hand; even contradictory evidence is interpreted so that it leads to the same desired conclusion. Thus, the obstinate resistance of the Jews to conversion, like the alarming successes of the Muslims in Turkey, were only part of God’s great plan, his testing of the Christians-the inevitable dark before the dawn-Columbus thought. Conversely, the even more recent expulsion of the Jews from Spain (along with the baptism of those who repented), like the fall of the Muslims at Granada, were equally clear indications that a new and glorious day was arising (Stannard, 1992, p.196).

Colombo era uma espécie de personificação secular daquilo que havia sido moldado na Europa após mais de mil anos de cultura cristã e o que o distinguia do europeu comum daquele tempo era tão somente a intensidade em que ele acreditava nessas coisas, e o modo determinado pelo qual agia conforme esta crença (ibidem, p.199). A maioria dos cristãos de fins do século XV, de fato, concordaria com ele de que a conversão do mundo inteiro (e a destruição dos que resistissem) era um pré-requisito para a Segunda Vinda, ou que haviam sinais inequívocos de que tais conversões e destruições em massa estavam próximos (ibidem, p.200). É bem provável, por exemplo, que a vitória espanhola sobre os muçulmanos que controlavam Granada, em 2 de janeiro de 1492 – a primeira vitória real sobre os “infiéis” em anos –, tenha sido percebida pela rainha Isabela como um desses sinais, favorecendo sua decisão de financiar a empresa de Colombo (ibidem, p.190).

Em março daquele mesmo ano seria dado um ultimato aos judeus na Espanha: que se convertessem em, no máximo, cinco meses ou seriam expulsos do país. Um mês depois um decreto real prometia suspender todos os procedimentos legais contra quaisquer criminosos que aceitassem embarcar na viagem de Colombo. Apenas cinco homens acusados de assassinato aceitaram a oferta, de modo que dos menos de cem tripulantes a bordo do Niña, Pinta e Santa Maria, a grande maioria não era perseguida pela lei naquele momento, embora provavelmente não fossem também nobres cavalheiros (ibidem, pp.192-3). Os três pequenos navios partiram de Palos “meia hora antes do raiar do sol”, como escreveu Colombo em seu diário de bordo (Colombo, 2013[1998], p.28), do dia 3 de agosto, tomando o rumo das Ilhas Canárias.  

Incorporando a mente mediterrânea de seu tempo, Cristovão Colombo era um religioso fanático obcecado com a conversão, conquista e destruição de todos os não-cristãos (Stannard, op.cit., pp.199-200). Tratava-se, além disso, de alguém particularmente intolerante em relação a todos aqueles que não parecessem ou não agissem conforme suas expectativas, e que não via problema algum em matar ou escravizar tais pessoas (ibidem, p.200). Duas características indígenas chamaram logo à sua atenção: a facilidade com que se tornariam cristãos pois não tinham nenhuma religião, e a superioridade bélica dos espanhóis – “eu poderia conquistar a totalidade deles com cinquenta de nossos homens armados e governa-los como quisesse”, observou (Grondin & Viezzer, 2018, p.47). Sabendo disso, não surpreende que ele tenha se lançado numa campanha de extrema violência contra os nativos de Hispaniola, usando, é claro, a justificativa de estar em busca de ouro.

Inicialmente Colombo estipulou um tipo de imposto a ser coletado pelos caciques nos povoados – os indígenas deveriam lhe fornecer um pote cheio de ouro (chamado de “casacavel”) a cada três ou quatro meses – mas como estes não possuíam nenhum tipo de indústria ou artifício para recolher o metal nos rios a tarefa logo revelou-se impossível: os indígenas e os caciques responsáveis pela coleta se recusaram a contribuir. Recorrendo à violência e dizimando povoados inteiros, Colombo escravizou a população sobrevivente e a manteve sob o regime de repartimiento, obrigando-a a trabalhar de dez a doze horas por dia, todos os dias da semana sem retornar para casa e sem uma alimentação minimamente digna[17]. Nesta situação os nativos começaram a morrer durante o trabalho, enquanto idosos, mulheres e crianças passavam fome nos povoados. Com isso Colombo conseguiu que os indígenas lhe pagassem o tributo até o ano de 1496 (Grondin & Viezzer, op.cit., p.51).

É claro que Colombo tinha inúmeros propósitos ao perseguir avidamente o ouro dos indígenas americanos. Fama e poder, evidentemente; financiar as próximas excursões transatlânticas também; além disso financiar a última “grande cruzada” que iria finalmente aniquilar todos os infiéis que ainda resistiam à conversão (Stannard, op.cit., p.201). Numa carta de 4 de abril de 1493 Colombo expôs seus planos futuros à coroa espanhola: em vez de levar os pouco menos de cem homens que havia levado na primeira viagem, recomendava que lhe fosse permitido contar com vinte vezes esta quantidade, tal era a expectativa da quantidade de ouro a ser encontrada. De fato, as próximas viagens dispensariam decretos reais perdoando crimes para aqueles que se aventurassem com Colombo, pois as histórias sobre o ouro e as almas encontradas por ele já haviam se espalhado (ibidem, p.202). Porém, quando chegavam na América os europeus logo percebiam que haviam poucas almas dispostas a se converter, e ainda menor era a quantidade de ouro a se possuir. E as coisas ficaram piores quando epidemias furiosas começaram a se espalhar pela população nativa logo após os primeiros contatos com os europeus recém-chegados (ibidem, p.202).

Os impérios espanhol e português, como se sabe, se depararam com o que pode ser considerada a maior sorte econômica da história humana quando encontraram continentes inteiros cheios de riquezas inesgotáveis cujos habitantes, munidos com armas paleolíticas, começaram a morrer facilmente após sua chegada (Graeber, 2016, p.394). Mas embora estejamos acostumados a dizer que a população nativa foi devastada pelos efeitos das novas doenças trazidas nas caravelas, muitos pesquisadores atuais acreditam que a imposição do trabalho foi igualmente responsável. Especialmente a conquista do México e do Peru levou à descoberta de novas fontes de metais preciosos, as quais foram exploradas de maneira cruel e sistemática, chegando ao ponto de exterminar populações nativas inteiras a fim de extrair a maior quantidade possível de metal em menor tempo (ibidem, p.397). Mesmo padres e frades comprometidos com a crença de que o extermínio dos indígenas era juízo de Deus não conseguiam disfarçar o horror diante de cenas de soldados que testavam a lâmina de suas armas estripando aleatoriamente os passantes, arrancavam bebês dos colos de suas mães para jogá-los aos cães e coisas do tipo. Se tais atos fossem algo esporádico poderiam ser descritos como o que se esperaria de um grupo de homens fortemente armados, muitos com histórico de crimes violentos, e que gozam de impunidade absoluta. Mas os relatos das minas indicam algo mais sistemático (ibidem, p.398). Incontáveis vidas nativas se perderam ali, no Peru regiões inteiras foram despovoadas pelo trabalho forçado e na Ilha de Santo Domingo (bem como em outras ilhas caribenhas) a população indígena foi totalmente erradicada (ibidem, p.398-9).  

Quando se fala em conquistadores estamos nos referindo à ganância elevada à proporções míticas, afinal é justamente por causa dela que essas figuras são comumente lembradas. Assim, mesmo depois da conquista de Tenochtitlán ou de Cusco e da obtenção de riquezas inimagináveis até então, os conquistadores quase sempre se reagrupavam e partiam em busca de mais tesouros (ibidem, p.399). Em que pese o conhecido argumento de Max Weber de que o capitalismo é o ímpeto de nunca descansar mas se dedicar à expansão infinita que, para ele, apareceu pela primeira vez com os calvinistas, os conquistadores eram católicos de mentalidade medieval. Assim, porque mantinham esse desejo insaciável de obter cada vez mais?

Ganância legitimada: dinheiro como fim em si mesmo

A história dos instrumentos financeiros modernos, bem como a origem definitiva do papel-moeda, começa com a prática de emissão de títulos municipais iniciada pelo governo de Veneza no século XII: no momento em que o governo precisou de uma rápida injeção de renda para fins militares requisitou aos cidadãos um empréstimo compulsório prometendo a cada um juros de 5% ao ano. Além disso também permitiu que os títulos ou contratos fossem negociados, criando assim um mercado para a dívida pública (ibidem, p.426). Práticas semelhantes logo se espalharam pelas cidades europeias, de modo que, os títulos da dívida pública (rentes, juros, anuidades) se tornariam o verdadeiro dinheiro de crédito dos novos tempos (ibidem,p.427). Na segunda metade do século XVI, feiras de lugares como Medina del Campo, próximo ao porto de Sevilha, haviam se transformado em fábricas de certificados, com as transações sendo realizadas exclusivamente em papel (ibidem, p.428).

Posteriormente, quando o ouro e prata extraídos na América chegavam nos portos da Europa eram levados diretamente para os cofres genoveses e ficavam ali aguardando para serem despachados para o Oriente, principalmente para Índia e China[18]. Neste processo, o lingote tornou-se a base para complexos esquemas de crédito, em que o valor do ouro e da prata era emprestado aos reis ou governos para bancar operações militares em troca de papéis (que podiam ser usados como dinheiro, note-se) que dessem ao portador o direito a anuidades a juros do governo. Assim, por meio da usura os banqueiros conseguiam multiplicar quase infinitamente o valor real do ouro e da prata que possuíam (ibidem).

Vale notar aqui que desde a Idade Média a Igreja considerava a usura algo que se praticava mais apropriadamente com estrangeiros ou inimigos[19] (ibidem, p.407-8). Por exemplo, Martinho Lutero começaria sua carreira em 1520 defendendo (entre outras coisas) que a venda de indulgências era uma forma de “usura espiritual”. Claro que após a série de revoltas camponesas que aconteceram nos anos seguintes, ele aparentemente sentiu que as coisas estavam saindo do controle e em 1524 ele já assumia que embora a usura fosse pecado, uma taxa de 4% ou 5% poderia ser perfeitamente legal sob certas circunstâncias (ibidem, pp.406-407). Posteriormente, em 1650, Calvino rejeitaria completamente a proibição universal à usura, e junto com ele quase todas as denominações protestantes concordaram com sua posição de que uma taxa razoável de juros não seria pecado. A doutrina católica, apesar de ter demorado um pouco, acabou por consentir passivamente (ibidem, p.407). Embora tenha sido primeiramente aplicada apenas aos empréstimos comerciais, logo a mesma taxa de mais ou menos 5% estava regendo todos os tipos de empréstimos e, apesar de não ser “natural”, o aumento do dinheiro através do próprio dinheiro passou a ser tratado como algo não apenas permitido mas também totalmente desejável. Ou seja, a partir de então passou a ser possível tratar a todos como estrangeiro ou inimigo, inclusive o próximo (ibidem, p.408). Para entender o que isso significava na prática bastaria observar o modo como os aventureiros-mercadores europeus tratavam os estrangeiros na Ásia, África e América.

Mas somente com a criação do Banco da Inglaterra em 1694 se pode, de fato, falar em papel-moeda, pois suas cédulas bancárias não eram títulos. Aquele que viria a ser o primeiro banco central independente de um Estado Nacional moderno, começou quando o rei Guilherme II tomou um empréstimo com quarenta mercadores de Londres e Edimburgo para ajudar a financiar sua guerra contra a França. Os mercadores convenceram o rei de, em contrapartida, deixá-los formar uma corporação que monopolizasse a emissão de cédulas, isto é, notas promissórias para o dinheiro que o rei devia a eles. Tais notas logo se transformaram no primeiro exemplar de papel-moeda nacional europeu e a corporação formada pelos mercadores se tornou rapidamente uma câmara de compensação de dívidas entre bancos menores (ibidem).

Novas formas de dinheiro de crédito se multiplicaram rapidamente, em grande parte devido ao fato de que os bancos comuns também podiam criar dinheiro, e a especulação financeira começou a produzir resultados desastrosos (ibidem, p.430). Explodiram uma série de bolhas especulativas, nas quais o preço futuro dos ativos foi supervalorizado e depois caiu de repente (“tulipomania” em 1637, “bolha dos mares do sul” em 1720, entre outras), muitas delas em torno de uma sociedade anônima para investimentos em projetos coloniais que imitava a Companhia Britânica das Índias Orientais. Tentativas de regulação viriam depois, como a proibição de criação de novas sociedades anônimas na Grã-Bretanha com exceção apenas para a construção de rodovias e canais ou a eliminação do papel-moeda baseado totalmente na dívida pública na França (ibidem).

Com esse tipo de coisa acontecendo muitos acabaram por concluir que a força motriz dos mercados era inerentemente corrupta. No momento em que a ganância foi legitimada e o lucro incessante foi considerado viável como um fim em si mesmo, o elemento político de todo o sistema se tornou um problema, pois aparentemente aqueles que faziam o sistema funcionar – isto é, corretores, operadores e negociantes – não eram leais a nada, nem mesmo ao próprio sistema (ibidem, pp.433-4). Talvez por isso pensadores da época, como Thomas Hobbes, acreditavam que os mercados só podiam existir sob a égide de um Estado absoluto, que nos forçaria a cumprir nossas promessas e respeitar as propriedades dos outros (ibidem, p.434).

Da economia de crédito para a economia de interesse

Alguns autores acreditam que a máquina colonial não teria sido possível caso não houvesse a demanda asiática praticamente ilimitada por metais preciosos em fins do século XV e início do XVI (ibidem, p.394). Uma das principais razões para isso foi a adoção pela China (durante a dinastia Ming) do lingote de prata como moeda corrente. Com isso as minas chineses se exauriram rapidamente, e embora em 1530 tenham sido descobertas novas minas de prata no Japão, elas também seriam insuficientes e a China teve de recorrer à Europa e ao Novo Mundo (ibidem, p.393-4). Já no final do século XVI a China importava quase 50 toneladas de prata por ano (cerca de 90% do total de prata utilizado no país) e no início do século XVII, 116 toneladas, isto é, mais de 97% de toda a sua prata (ibidem). Em troca, grandes quantidades de produtos chineses como seda, porcelana e outros iam pararna Europa e nas novas cidades da América Central e do Sul. Se a China não tivesse sido tão particularmente dinâmica a ponto de mudar sua liga metálica e absorver a enorme quantidade de prata extraída das minas americanas durante trezentos anos, estas mesmas minas provavelmente teriam se tornado pouco lucrativas em algumas décadas (ibidem, pp.394-5). Elas  poderiam ter parado de funcionar em 1540, por exemplo, – quando o excesso de oferta de prata fez os preços colapsaram em toda a Europa – o que causaria o fracasso de todo o projeto de colonização (ibidem, p.395). O comércio asiático tornou-se um fator extremamente importante na economia global emergente, e aqueles que controlaram as alavancas financeiras – particularmente os bancos mercantis da Itália, da Holanda e da Alemanha – acabaram enriquecendo de maneira espetacular (ibidem). Enquanto isso, na Europa a maioria das famílias tinha tão pouco dinheiro que era obrigada a derreter com certa frequência a prataria da casa para pagar os impostos (ibidem, p.396). E isto acontecia, claro, porque os impostos tinham que, obrigatoriamente, ser pagos em prata.

Fora dos círculos aristocratas, dos grandes mercadores e dos governos – em cujos cofres ia parar a pequena parte do ouro e da prata proveniente da América que era destinada a ficar na Europa – funcionava uma economia de crédito, isto é, quem fosse ao açougueiro ou ao sapateiro basicamente colocava tudo na conta (ibidem, pp.412-13). Num vilarejo europeu típico as únicas pessoas que pegavam em dinheiro eram os estrangeiros e aqueles considerados “da ralé” (isto é, pobres e desocupados cuja situação era tão ruim que ninguém lhes daria crédito). Todos eram devedores e também credores – todos sabiam quem devia o que a quem – e a maior parte da renda familiar tinha a forma de promessas de outras famílias. Mesmo quando os empréstimos a juros começaram a ser legalizados em 1545 poucas pessoas ficaram irritadas pois tais empréstimos continuavam a acontecer dentro deste mesmo quadro moral: seriam, por exemplo, uma vocação bastante apropriada para viúvas sem nenhuma outra fonte de renda, ou como forma de vizinhos dividirem lucros de um pequeno empreendimento comercial e coisas do tipo (ibidem). 

Por outro lado a aristocracia agrícola e os mercadores ricos evitavam acordos selados com apertos de mão e por isso utilizavam com frequência dinheiro vivo entre si, principalmente para pagar letras de câmbio de grandes mercados, como o de Londres. Ouro e prata eram sobretudo usados pelo governo (para comprar armas e pagar soldados) e pelas classes criminosas. Em outras palavras, as moedas eram mais utilizadas por aqueles que comandavam o sistema legal (magistrados, condestáveis e juízes de paz) e pelos integrantes violentos da sociedade que este mesmo sistema supostamente devia controlar (ibidem, p.415).

Assim, para a maioria das pessoas que tentava evitar complicações com o sistema legal e também problemas com soldados e criminosos, a dívida era a própria tessitura da sociabilidade[20]. Mas para aqueles que passavam a vida trabalhando nas instituições de governo nas grandes casas comerciais a troca imediata e em dinheiro passou a ser corriqueira e a dívida passou a ser vista como marca de criminalidade. Com o tempo isso levou a uma dissociação cada vez maior entre ambos os universos morais, e as redes das economias de crédito dos aldeões foi se transformando gradualmente e pela intrusão do poder impessoal do Estado em economias de interesse (ibidem, p.419).

Aldeões ingleses da era elisabetana, dos Tudor ou dos Stuart não gostavam de apelar ao sistema judiciário, mesmo se a lei estivesse a seu favor, e isso por duas razões: por um lado eles preferiam o princípio de que vizinhos deviam resolver as coisas entre si e por outro a lei era extremamente dura[21]. Mas quanto mais o tempo passava menos as pessoas buscavam evitar os tribunais para resolver problemas entre credores e devedores, e em 1580, quando os empréstimos a juros começaram a se tornar comuns entre os aldeões, os credores começaram a fazer questão de contratos legais e assinados, o que levou a um grande aumento nas apelações nas cortes locais (ibidem, p.420). Se poucos destes processos eram levados a julgamento – pois a simples ameaça de punição era suficiente para que o devedor liquidasse a dívida –, o medo que os devedores sentiam de ser presos (ou de algo ainda pior) passou a atormentar a todos e a sociabilidade começou a ser assombrada pelo crime. A criminalização da dívida foi a criminalização do próprio alicerce da sociedade humana (ibidem, pp.420-21).    

Resumidamente, aqueles que controlavam os lingotes (governos, banqueiros, mercadores de grande escala) passaram a poder usar esse controle para instituir que ouro e prata eram, de fato, dinheiro, e depois introduzir novas formas de dinheiro de crédito para uso próprio, enfraquecendo e destruindo lentamente os sistemas locais de confiança que permitiam às pequenas comunidades por toda a Europa funcionarem sem a necessidade do uso de moedas de metal. Esse tipo de “instrumentalização da dívida”, ou seja, este regime de dinheiro em forma de lingotes, foi imposto por meio de uma violência extrema, e isso não apenas nas colônias mas também em solo europeu (ibidem, p.396). A reação camponesa à chamada “revolução dos preços” e ao cercamento dos campos na primeira metade do século XVI culminou em insurreições populares que foram violentamente reprimidas pelos governos. Após os conflitos, os errantes eram recolhidos e enviados para as colônias como trabalhadores por contrato ou como soldados e marinheiros. Poderiam também ser mandados para trabalhar nas fábricas de seu próprio país (ibidem).

Um exemplo contundente ocorreu a Francônia, durante o reinado de Casimiro de Brandemburgo-Ansbach (1481-1527), filho de Frederico I, considerado um dos “príncipes loucos” da dinastia alemã. Frederico reconhecidamente não sabia gerir o próprio dinheiro e no início de 1515 ele alertou seus credores, a maioria nobres como ele, de que possivelmente teria de suspender temporariamente o pagamento de juros por suas dívidas (a qual, acredita-se, somava por volta de 200 mil florins). A crise de confiança gerada por este alerta fez com que, em poucas semanas, seu filho Casimiro organizasse um golpe de estado (ibidem, p.408). Ele confinou Frederico I no castelo de Plassenburg e distribuiu governos e outros cargos especiais entre os credores do pai o que teve o previsível efeito de aumentar a extorsão dos súditos (ibidem, pp.408-9). Não por acaso as terras de Casimiro no vale do Tauber foram um dos epicentros da grande revolta camponesa de 1525[22]: grupos de aldeões se armaram e declararam que não obedeceriam a nenhuma lei que não estivesse de acordo com a palavra de Deus. Os líderes rebeldes, muitos deles açougueiros e lojistas locais, iniciaram, uma campanha altamente organizada para derrubar as fortificações dos castelos e oferecer garantia de segurança aos nobres que moravam neles caso não oferecessem resistência, concordassem em abandonar seus privilégios e jurassem cumprir os Doze Artigos dos rebeldes – o que muitos, de fato, fizeram. Mosteiros e catedrais foram invadidos, saqueados e destruídos às dúzias (ibidem, p.409).   

Casimiro, a princípio, tentou ficar em cima do muro e chegou mesmo a negociar com os rebeldes aparentando grande boa-fé. No entanto, quando os rebeldes da União Cristã ao sul foram derrotados, ele partiu violentamente para a ação e seu exército varreu o próprio território como se fosse um exército conquistador, queimando e pilhando vilarejos e cidades, assassinando mulheres e crianças, fundando tribunais punitivos e confiscando propriedades (ibidem, p.410). Suas forças ficaram conhecidas não só por executar os rebeldes mas por sistematicamente cortar os dedos de quem houvesse colaborado minimamente com eles. Um de seus carrascos – denominado de “mestre da dor” – manteve uma contabilidade de partes amputadas para futuro reembolso:114 florins por 69 olhos arrancados ou dedos amputados e coisas do tipo (ibidem).

O comportamento de Casimiro combinava o caráter geral de um sujeito frio e calculista com rompantes de uma crueldade vingativa extrema. Um comportamento bastante semelhante pode ser observado em muitos conquistadores da América, como veremos logo adiante. Tais atitudes podem ser vistas como características de alguém que é devedor mas que sabe não ter feito nada (pelo menos não propositalmente) para ser deixado em tal posição, ou seja, ao mesmo tempo em que existe uma urgência desvairada de ter de fazer qualquer coisa a fim de converter tudo ao seu redor em dinheiro para pagar os credores, também existe a raiva e o sentimento de afronta por ter sido reduzido ao tipo de pessoa que faria estas mesmas coisas (ibidem, p.411).

Considerações finais: o aventureiro e o calculista

Hernán Cortês, conquistador do México, migrou para a colônia de Santo Domingo em 1504, sonhando com glórias e aventuras, e em 1518 conseguiu ser nomeado comandante de uma expedição cujo objetivo era garantir a presença espanhola em terra firme (ibidem, p.399). Quando amigos mercadores souberam de sua nomeação emprestaram-lhe 4 mil pesos de ouro em moedas e mais 4 mil em bens, tendo como garantia os nativos escravizados e as suas propriedades. O governador acabou cancelando a expedição no último minuto mas ele, ignorando este fato, partiu com onze navios e cerca de seiscentos homens a bordo oferecendo a todos uma divisão igualitária dos lucros. Ao desembarcar em terra firme ele mandou queimar os barcos, apostando efetivamente tudo na vitória. Em seguida, Cortês começou a formar um exército de aliados locais – o que não foi muito difícil já que os Astecas eram odiados por muitos dos seus vizinhos – e então começou a marchar para a capital (ibidem, p.447). Montezuma, então imperador asteca, acompanhava de perto a situação e decidiu que seria preciso descobrir com que tipo de pessoas estava lidando, assim convocou toda a força espanhola (ou seja, centenas de homens) para uma visita oficial a Tenochtitlán (ibidem, p.447-8). Durante esta visita ocorreram toda sorte de intrigas e os homens de Cortês acabaram mantendo Montezuma como refém por um curto período antes de o expulsarem à força (ibidem, p.448).

Após oito meses de uma guerra exaustiva, sem tréguas, e da morte de talvez cem mil astecas, Cortês saiu vitorioso (ibidem, p.400). Uma das maiores cidades do mundo na época foi completamente destruída, o tesouro imperial estava garantido e havia chegado a hora de dividi-lo em partes iguais entre os soldados que sobreviveram. Mas antes que isso acontecesse os oficiais conspiraram para desviar a maior parte do ouro de modo que, com o anúncio do cômputo geral, os soldados descobriram que receberiam apenas de cinquenta a oitenta pesos cada um (ibidem, pp.400-401). E mais: como Cortês havia dito antes da batalha, os homens seriam cobrados a cada reposição de equipamento e também por cada cuidado médico recebido, de modo que a maior parte do que receberam os soldados seria imediatamente tomada pelos oficiais, que assumiram a posição de credores. Evidentemente tratou-se de um resultado ultrajante para a maioria, e muitos descobriram que haviam efetivamente perdido dinheiro com o acordo. Para completar, mercadores espanhóis logo chegariam cobrando preços inflacionados pelos itens mais básicos (ibidem, p.401).

Cortês, cansado das reprimendas e reclamações de seus homens, decidiu livrar-se deles, fundando colônias nas províncias que lhe parecessem mais apropriadas para tal propósito. Estes homens foram os que passaram a controlar as províncias e que estabeleceram as administrações locais, impostos, regimes de trabalho e assim por diante. Segundo Graeber:

Isso explica um pouco por que haviam tantos nativos com o rosto coberto de assinaturas, como se fossem cheques endossados e reendossados, ou minas cercadas por grandes áreas repletas de corpos em putrefação. Não se tratava de um comportamento ganancioso, frio e calculista, mas de uma mistura muito mais complexa de aviltamento e indignação moral, e de um sentimento de urgência frenética por dívidas que fariam e acumulariam (dívidas quase certamente de empréstimos a juros), bem como fúria diante da ideia de que depois de tudo o que haviam passado, seriam tidos (…) como devedores de tudo (Graeber, 2016, p.402).

Quanto a Cortês, mesmo estando sentado sobre uma montanha de ouro, de alguma forma ele conseguia sempre contrair mais dívidas. Os credores já haviam começado a tomar seus bens quando ele partiu em uma nova expedição para Honduras em 1526. Pouco depois disso escreveu ao imperador Carlos V afirmando que apesar de tudo não conseguira sair “da pobreza e da miséria” (ibidem, p.402). Mesmo que isso fosse certamente um exagero (pois ele tinha seu próprio palácio nessa época[23]), alguns anos depois ele realmente foi obrigado a penhorar jóias da esposa para financiar uma série de novas expedições a Califórnia, nas quais depositava a esperança de recuperar sua fortuna. Elas não deram o resultado esperado e Cortês se viu tão rodeado de credores que teve de voltar para a Espanha e rogar pessoalmente auxílio ao imperador.

Não por acaso, tudo isso se parece bastante com o contexto das Cruzadas, com seus cavaleiros endividados saqueando as riquezas das cidades por onde passavam e mesmo assim tendo que continuar submetidos a seus credores. O capital que financiava estas expedições vinha praticamente do mesmo lugar – Gênova, no caso dos empreendimentos coloniais, Veneza no caso das Cruzadas (ibidem). Além disso, em ambos os contextos temos a união entre de um lado o aventureiro ousado ou o apostador disposto a correr todo tipo de risco, e de outro o financiador criterioso, cujas operações eram planejadas para produzir um crescimento estável, matemático e inexorável de renda. Uma consequência desta combinação foi que quem estava na linha de frente das operações não sentia que estava no controle, e quem estava no controle não se importava com detalhes.

Um último exemplo à guisa de conclusão. Ele ocorreu na Amazônia peruana entre 1909-11, mais especificamente em Putumayo, e deixou leitores londrinos em choque ao descobrirem – a partir de cenas de estupros, torturas e mutilações – que os agentes da Companhia Amazônica Peruana (que recebia crédito de financiadores londrinos) haviam exterminado milhares de indígenas uitoto, que eles insistiam em chamar de “canibais”[24]. Uma investigação (comissionada pelo Império Britânico[25]) revelou que os agentes e supervisores enviados para lá, numa situação semelhante à dos conquistadores 400 anos antes, se endividaram muito com a companhia peruana que os contratou e chegaram com todas as intenções de estender a rede de crédito para incluir os indígenas. Quando estes se recusaram a aceitar tecidos, facões e moedas que eles ofereceram, os agentes passaram então a captura-los e força-los a aceitar empréstimos, sob mira das armas, e depois estabelecer a quantidade de borracha que deviam (Graeber, 2016, pp.439-40). Os Uitoto, embora tentassem fugir, acabaram, na prática, sendo reduzidos à escravidão. Assim como no caso de Casimiro de Brandemburgo, ou no de Cortês no México o empreendimento todo terminou preso em uma espiral de terror e revolta que ameaçava destruir até mesmo sua própria base econômica (ibidem, p.440). Michel Taussig, diante de descrições de indígenas uitoto sendo mutilados, desmembrados e queimados vivos, se pergunta se os empregados da companhia não estariam ali empenhados na encenação ritual do seu próprio mundo colonial. Em suas palavras: “não estariam eles afirmando seu lugar de conquistadores, sua função civilizadora e sua aura de brancos providos de magia talvez ainda mais poderosa do que a do deus Sol?” (Taussig, 1987[1993], p.116).

O que chamamos de tradição europeia portanto teve suas raízes, de um lado, na cristandade e suas concepções sobre sexo, raça e Guerra Santa, e de outro, na imposição de um regime de dinheiro que era calculado como se ouro e prata tivessem um valor intrínseco mas que, com a adoção da prática de usura, permitiu a certos agentes – grandes mercadores, banqueiros e governos – adquirirem lucros exorbitantes a partir da exploração do trabalho de camponeses europeus, indígenas americanos e africanos escravizados. A imposição deste regime de dinheiro (e de trabalho) ocorreu, como vimos, por meio de violência, mas esta era justificada, na maioria das vezes, pela ideia herdada do cristianismo de que em relação a certos tipos de pessoas a guerra, o extermínio e a escravização eram práticas aceitáveis. Em pleno vigor no início do século XX A tradição europeia continua com os mesmos contornos até os dias de hoje e seus efeitos, aparentemente, se farão sentir ainda por bastante tempo.    


Notas

[1] Uma versão traduzida por mim para o português deste capítulo pode ser acessada aqui.

[2] Aliás, mesmo antes da importação de cientistas alemães no pós-guerra (o que contribuiu para que os EUA desenvolvessem uma tecnologia de destruição em massa talvez nunca imaginada por Hitler), os nazistas já admiravam muitos aspectos da cultura norteamericana: o culto ao esporte, a produção de valores por Holywood, a mitologia da fronteira (o farwest), entre outras. O próprio Hitler, em sua juventude, costumava devorar livros de western do popular escritor alemão Karl May.

[3] Como por exemplo o tratamento dado aos palestinos pelos estado de Israel. Sobre isso, ver, entre muitas outras fontes, Mbembe (2018): “(…) a ocupação da Faixa de Gaza apresenta três características principais ligadas ao funcionamento da formação específica do terror que chamei ‘necropoder’. (…) a dinâmica da fragmentação territorial, o acesso proibido a certas zonas e a expansão dos assentamentos” (ibidem, p.43).

[4] Cf Bunim 2001[1964], principalmente o capítulo 4. 

[5] E os primeiros discípulos de Jesus aparentemente faziam a mesma associação, como está escrito, por exemplo, na primeira epístola de João 3:4, “(…) porque o pecado é a transgressão da lei”. Na verdade, quando se leva em conta que Jesus simplesmente pregava um “retorno” ao que ele e outros consideravam a forma mais “pura” ou “correta” de judaísmo (cf Aslan 2013), a impressão é que quando reis e nobres europeus começaram a adotar o cristianismo como sua religião “oficial” a interpretação das escrituras fora de seu contexto judaico passou a ser, digamos, bastante imprecisa.

[6] Tomando como literal uma passagem sobre eunucos no reino dos céus em Mateus 19:11-12.

[7] De forma diametralmente oposta ao que ocorria, no mesmo período, entre os judeus. Aqui a ascenção do rabinismo colocou justamente o casamento como um critério quase compulsório de sabedoria (Stannard, 1992, p.155).

[8] A passagem originalmente está em ROUSSELLE, Aline. Porneia: On Desire and the Body in Antiquity, traduzido para o inglês por Felicia Pheasant (Oxford: Basil Blackwell, 1988), p. 170.

[9] Embora o cristianismo não tenha sido exatamente uma religião totalitária, havendo na Europa durante este período em diversos lugares a possibilidade de maior liberdade sexual, as possíveis variações neste sentido estavam sempre embebidas e remetiam àquele ideal repressivo. Por exemplo, um dos únicos lugares em que a cultura cristã europeia achava a nudez e o erotismo coisas adequadas era o universo da bruxaria – a literatura sobre esse assunto pode ser comparada ao que atualmente se conhece como pornografia. Os encontros de bruxas eram descritos (em detalhes) como grandes orgias sexuais com Satã e seus lacaios, e não é difícil imaginar os efeitos de se escutar, dia sim e dia não, histórias sobre elas em pessoas comprometidas com uma intensa repressão sexual, como acontecia, por exemplo, durante os processos inquisitoriais que iriam se alastrar pela Europa a partir do final do século XV(Stannard, 1992, p.162-4).

[10] Demonstrando sua aversão ao “mundo” muitos monges católicos medievais, como se sabe, surravam a si mesmos com correntes ou passavam anos em completo isolamento.

[11] O mundo greco-romano, aliás, era atravessado por certas “antipatias raciais”: em particular “características de negro” (negro features) não eram muito bem vistas em tais sociedades escravagistas (Stannard, 1992, p.165).

[12] Tais questões reapareceriam após a chegada dos europeus na América, durante os debates sobre se os indígenas teriam ou não alma. Foi somente em 1537 que uma bula papal de Paulo III, em Roma, declarou que os indígenas eram sim humanos, o que teve como consequência trágica a obrigação dos conquistadores europeus de evangeliza-los (Grondin & Viezzer, 2018, p.49).

[13] A noção de “guerra justa” durou séculos, e chegou a ser utilizada contra indígenas em vários lugares e períodos da colonização. No Brasil em 1808, por exemplo, o príncipe regente D. João declarou guerra aberta aos Botocudos (uma designação genérica para certos grupos de indígenas que habitavam larga faixa do leste e sul brasileiro, que segundo Marcato [1979, p.3] pertenciam ao tronco linguístico macro-jê) incentivando uma política de extermínio que vigorou até 1831. Em Cartas Régias ele definiu que os Botocudos eram um entrave para o desenvolvimento regional e para a interiorização de luso-brasileiros além apresentarem um comportamento que chocava-se frontalmente com o comportamento cristão, o que justificaria a guerra ofensiva contra eles (ibidem, p.8), ou seja, estava legalmente permitido o extermínio e a escravização de qualquer Botocudo, fosse homem, mulher, velho(a) ou criança.

[14] Interessante notar que um outro elemento que depois viria a ser acoplado ao escravagismo europeu moderno também foi descoberto durante a Primeira Cruzada: a cana-de-açúcar (originalmente domesticada na Nova Guiné há cerca de dez mil anos mas particularmente comum a partir de 800d.C. no litoral mediterrâneo onde hoje se encontram Líbano e Israel) e sua peculiar forma de produção, a plantation. Os católicos europeus presentes nas missões anti-muçulmanas posteriores à Primeira Cruzada se apossaram das fazendas de açúcar muçulmanas e bizantinas em Chipre, Creta, Sicília, Maiorca e no sul da Espanha. Logo não haveriam mais áreas quentes e úmidas o bastante para o cultivo do açúcar no Mediterrâneo. Foi quando Portugal começou a cultivá-la em suas províncias no Atlântico (Ilha da Madeira, Açores, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe) e Espanha nas Ilhas Canárias. Na Ilha da Madeira, por exemplo, entre 1472 e 1493 a produção cresceu mais de mil vezes, o que fez com que os preços caíssem na Europa. Os produtores viram seus lucros ameaçados, precisavam aumentar a produção. Decidiram então comprar escravos, inicialmente um conjunto aleatório de criminosos, guanches (os nativos da Ilhas Canárias), berberes (povo do noroeste da África), e provavelmente os judeus e muçulmanos convertidos a força ao cristianismo (Mann, 2012, pp.367-370). Com o tempo este conjunto foi substituído por africanos do centro-oeste (ibidem, p.371). Como diz David Graeber (2016, p.440), o “escândalo secreto” do capitalismo é justamente o fato de que ele nunca foi organizado primordialmente em torno da mão de obra livre. 

[15] Na Europa a instituição da escravidão desapareceu em grande parte dos séculos que se seguiram a abolição do Império Romano (cf Dockés, 1979) e muitos autores concordam que a difusão do cristianismo possa ter contribuído para tal (embora a própria Igreja nunca tenha realmente sido contra a escravidão, tendo defendido a instituição em várias ocasiões). Aparentemente isto ocorreu apesar das atitudes de autoridades intelectuais e políticos da época, e em nível popular a escravidão continuou sendo tão detestada que mesmo mil anos depois quando tentaram reavivar o comércio os mercadores europeus descobriram que seus compatriotas não aprovariam a posse de escravos em suas propriedades rurais (uma das razões para os grandes proprietários terem acabado adquirindo escravos na África e fixando suas plantações no Novo Mundo). Segundo David Graeber (2016, pp.271-2) o racismo moderno “teve de ser” inventado justamente porque os europeus continuariam ainda por séculos não aceitando que qualquer pessoa considerada por eles um ser humano pleno de direitos iguais pudesse ser justificadamente escravizada.

[16] É interessante notar que, começando por Aristóteles, sempre que se tentou justificar a escravidão o enfoque nunca foi a instituição em si (que é injustificável) mas sim as qualidades inferiores do grupo étnico que estivesse sendo escravizado (Graeber, 2016, p.538).

[17] Fica evidente a maneira pela qual a escravidão indígena se constituiu no motor inicial da colonização das Américas. Para o caso brasileiro (particularmente o contexto paulista) ver a obra fundamental de John Manuel Monteiro (1994).

[18] Ver infra.

[19] Ver por exemplo a passagem em Deuteromônio 23:19-20. Baseado em passagens como esta, Santo Ambrosio em sua famosa homilia De Tobia (380d.C.) adotou o ponto de vista de que a usura só seria uma prática aceitável para com pessoas contra quem o roubo e o assassinato também seriam justificados (Graeber, 2016, pp.361-2).

[20] Para maior aprofundamento desta ideia ver Graeber (2016), pois trata-se de um dos argumentos centrais da obra.

[21] Sob o governo de Elizabeth, por exemplo, a punição por “vadiagem” era ter as orelhas pregadas em um pelourinho, para primeira ocorrência; para segunda, a morte

[22] Ver também Engels (1946), especialmente o capítulo V.

[23] Após subjugar os Astecas ele escolheu uma propriedade composta por seis porções de terra que somavam vinte mil quilômetros quadrados (uma área do tamanho do atual Israel, por exemplo). Numa destas porções, ao sul da Cidade do México, ele construiu seu lar de paredes espessas “semelhante a um castelo” (Mann, 2012, p.375). Um lugar opulento, com 22 peças de tapeçaria, cada uma com no mínimo quatro metros de largura, por cima das quais Cortês gostava de vagar trajando casacos de veludo brocado e roupões com abotoaduras de pérola (ibidem).

[24] Apesar disso, um juiz que esteve em missão na região declarou ter visto apenas um único caso de canibalismo, e que este havia sido ordenado “pelos próprios civilizados” (Taussig, 1987[1993], p.131).

[25] Depois de uma série de reportagens intitulada “O paraíso do diabo: um Congo possuído pelos britânicos” publicada em uma revista de Londres (Palmquist, 2018, p.64).

Referências bibliográficas:

ASLAN, Reza. Zelota: a vida e a época de Jesus de Nazaré. Rio de Janeiro, Zahar, 2013.

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ENGELS, Friedrich. As guerras camponesas na Alemanha. Rio de Janeiro, Editorial Vitória, 1946.

GRAEBER, David. Possibilities: essays on hierarchy, rebellion and desire. Oakland,  AK Press, 2007.

__________. Dívida: os primeiros 5.000 anos. São Paulo, Três Estrelas, 2016.     

GRONDIN, Marcelo & VIEZZER, Moema. O maior genocídio da história da humanidade: mais de setenta milhões de vítimas entre os povos originários das Américas – Resistência e Sobrevivência. Toledo (PR), GFM Editora & Gráfica, 2018.

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MARCATO, Sonia de Almeida. A repressão contra os Botocudos em Minas Gerais. In Boletim do Museu do Índio, n1,1979.

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PALMQUIST, Helena. Questões sobre genocídio e etnocídio indígena: a persistência da destruição. Dissertação, UFPA, 2018.

STANNARD, David E. American Holocaust: the conquest of the new world. New York; Oxford, Oxford University Press, 1992.

TAUSSIG, Michael. Xamanismo, colonialismo e o homem selvagem: um estudo sobre o terror e a cura. São Paulo, Paz e Terra, 1987[1993].

THOMPSON, E. P. Ameaça fascista à Grã-Bretanha. In E. P. Thompson: panfletário antifascista. Fortaleza, Plebeu Gabinete de leitura, 2019[1947].

WHITMAN, James Q. Hitler’s American model: the United States and the making of Nazi race law. Princeton University Press, 2017.

O Grupo de Estudos em Antropologia Crítica é um coletivo independente que atua na criação de espaços de auto-formação e invenção teórico-metodológica. Constituído em 2011, o GEAC se propõe, basicamente, a praticar “marxismos com antropologias”. Isto significa desenvolver meios para refletir, de maneira situada, sobre os devires radicais da conflitividade social contemporânea. Delirada pelo marxismo, a antropologia se transforma, para o GEAC, numa prática de pesquisa e acompanhamento político das alteridades rebeldes que transbordam e transgridem a pretensão totalitária do modo de produção vigente e da sua parafernália institucional.

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