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A direitização mora nos detalhes: três análises concretas Brasil – Argentina

Uma introdução e três textos curtos e grossos para compreender em detalhe o aspecto central da direitização que vivemos: a impotenciação política das pessoas em meio à precarização da vida.

Una introducción y tres textos cortos que van directo al grano para comprender en detalle el aspecto central de la derechización que vivimos: la impotenciación política de las personas en medio de la precarización de la vida.

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APRESENTAÇÃO: FALTAM PALAVRAS, FALTAM PROBLEMAS…

Por Grupo de Estudos em Antropologia Crítica (GEAC)

Alguns sujeitos, geralmente professores universitários respaldados por uma intensa atividade de pesquisa, diagnosticaram, com certa pressa, o impasse em que nos encontramos. Decidiram, então, tomar a dianteira, explicando à “esquerda” como sair do pântano atual e conseguir sensibilizar novamente as pessoas. O “povão”, que certos intelectuais definem como o conjunto das pessoas comuns e correntes – seu João, Dona Maria, a senhorinha que vai à esquina e não perde a oportunidade de vociferar contra os políticos, defender a pena de morte, queixar-se do aumento dos preços, declarar seu voto na extrema-direita e dar seu apoio aos militares – precisaria de uma resposta. “A esquerda”, advertem nossos acadêmicos, “não sabe mais falar o idioma das pessoas comuns”. Quando seu João pede prisão para os bandidos, nós só conseguimos dizer não ao encarceramento massivo; quando dona Maria pede por serviços públicos eficientes, nós só sabemos defender abstratamente a relevância do setor público, sem nos importarmos por como ele realmente funciona. Em meio a tantas demandas pendentes, a “esquerda” deveria estar disposta a refinar sua “oferta” programática. Deveria, basicamente, apresentar objetivos concretos que satisfaçam desejos concretos. Este tipo de solução estratégica flerta, invariavelmente, com a tentação eleitoral de representar o desejo do outro sem intervir na própria produção desejante. No entanto, a transformação social radical não passa, necessariamente, por saber responder a qualquer demanda com ofertas concretas.

E se a política significar algo mais do que ter a habilidade de escutar e falar o idioma das maiorias para impor uma hegemonia? E se o grande desafio para uma política transformadora for, pelo contrário, mudar os termos do debate e redefinir a economia dos desejos? De fato, ainda que pareça surpreendente, foi isso que aconteceu no Brasil há mais ou menos quinze anos atrás. Os brasileiros mais velhos, ou nem tanto, lembrarão que no seu país, até o início dos anos 2000, “pobre” era sinônimo de “vagabundo” e a solução para a pobreza não passava nunca por “dar o peixe” e sim por “ensinar a pescar”. Grosso modo, este era o sentido comum que se respirava nos anos noventa. No entanto, a partir de 2003, depois da vitória de Lula, o governo brasileiro decidiu que ia “dar o peixe”, pois ninguém merecia a pobreza. Esta nova atitude foi denominada “justiça redistributiva”.

Pois bem, independentemente das limitações e da verticalidade dos programas sociais da era Lula – ou de sua simbiose com os processos de endividamento massivo, consumismo, apologia da propriedade e obsessão securitista –, deveríamos reter a estrutura do ato político que lhes subjaz: se nem tudo está dito no léxico atualmente disponível, então temos que redefinir completamente os termos do debate para politizar aqueles mal-estares que, dentro da ordem atual, permanecem reprimidos e circunscritos ao campo do indizível. A questão para o lulismo não era, primordialmente, entrar em diálogo com quem quisesse justificar a pobreza dos demais recorrendo ao apelativo “vagabundos”. Pelo contrário, o desafio era transferir o debate para outro lugar, fomentar um novo desejo coletivo que, mais tarde, seria sintetizado e aprisionado na conhecida fórmula do “crescimento econômico com distribuição da riqueza”. Poderíamos dizer que esta fórmula prosperou por um tempo. Depois, inevitavelmente, suas contradições e inconsistências apareceram. Quando isto ocorreu, o partido do governo, já bastante burocratizado, não estava em condições de relançar o trabalho da política. Seja como for, ao que não deveríamos renunciar é à ousadia da política, sob pena de nos convertermos em sujeitos ainda mais moderados, manipuladores e conservadores do que o próprio progressismo nos seus melhores dias.

Dito isso, é necessário sublinhar que a direitização não é um problema que devamos resolver nos outros, como se estes outros fossem pessoas confusas que pedem socorro; pessoas que estão à espera de respostas convincentes cuja formulação dependeria, antes de mais nada, da perspicácia intelectual dos think tanks progressistas. Quando achamos que a solução para a direitice das pessoas está fora delas, em alguma panacéia programática, começamos a fazer parte do mesmo problema que pretendíamos resolver. Em poucas palavras, nos direitizamos. Superar a direitização não passa por apresentar uma interpretação arbitrária dos balbuceios confusos das massas àqueles que, supostamente, poderiam dar-lhes um brinquedo adequado. Em poucas palavras, ninguém está confuso e as alternativas já estão dadas. Se este cenário nos desagrada, então deveríamos modificá-lo através da politização paulatina de desconfortos pessoais e coletivos que ainda não possuem uma política a sua altura.

O voto na extrema-direita não é um pedido de ajuda da massa perplexa. É um voto na extrema-direita, ou seja, uma aposta eleitoral nas medíocres possibilidades que o reacionarismo apresenta à população. Ocorre, contudo – e aqui reside nossa tênue esperança –, que tais possibilidades são não-todas, isto é, não representam tudo o que alguém pode chegar a desejar, querer e ser. Recomeçar a política pela esquerda não requer que aprendamos a flertar hipocritamente com os terrores e ódios das pessoas, mas sim que procuremos reorientar a sua – e a nossa – atenção para outras preocupações que as balas, o dólar baixo, os produtos importados, o antipetismo e o moralismo vazio simplesmente excluem da política. Em suma, trata-se de formular uma problemática política radicalmente nova, ombro a ombro com os demais. A tarefa não é fácil, mas é a tarefa da esquerda.

Politizar os mal-estares, pensar com os demais, controlar os meios de produção da política.

As três intervenções que se encontram ao final desta apresentação se propõem a pensar a direitização atual como um processo que é imanente a certo tipo de esquerdização e, ao mesmo tempo, um sintoma da sua própria crise. Neste sentido, para o Coletivo Juguetes Perdidos (Argentina), a direitização não é, em primeira instância, o resultado da disseminação de ideologias conservadoras. A partir de uma perspectiva diferente, Juguetes Perdidos nos convida a ler a direitização como uma dinâmica “vital” e “existencial” que “incubou-se de maneira subterrânea; fabricou-se sensivelmente há muito tempo no coração dos subúrbios”. A articulação entre “consumo”, “trabalho de merda” e “coxinhice”, cultivada durante a chamada “década de ouro” (o período abarcado pelo kirchnerismo na Argentina), encontrou no governo de Maurício Macri sua solução de continuidade em tempos de crise e ajuste econômico. Diante do congelamento do consumo e da escassez de dinheiro circulante, a Vida Precária parece se revigorar com novas ênfases: “intensifica-se a mobilização da vida e a belicosidade do cotidiano; o social torna-se mais espesso e violento, os transbordamentos interiores fazem os corpos e as gambiarras implodirem: trabalha-se mais, ou sofre-se mais por não ter trampo ou estar desempregado”. Para contrabalançar o desânimo ocasionado pela falta de dinheiro, a Vida Precária foi alimentada com ressentimento, oferecendo-se a ela um “salário anímico”, um empoderamento que impulsiona a tirania, a exploração e a vingança. Foi habilitada, assim, uma carga revanchista que explodiu em diversos lugares como a família, o bairro, as ruas, contra pessoas conhecidas ou desconhecidas. “Vida Precária (Vida Mula)”, “coxinhice”, “interiores desabados”… o Coletivo Juguetes Perdidos sai em busca das palavras que possam iluminar os novos territórios da conflitividade social contemporânea, da mobilização do desejo e das expectativas coletivas. Não se trata, no entanto, de “categorias sociológicas” para “analisar”, por exemplo, a relação dos “setores populares” com o “trabalho”. Ao contrário, são portas de entrada para um plano de realidade no qual se encontram em jogo as tensões e as possibilidades de uma época; tensões encarnadas que se realizam, hoje, como desespero securitista e paranoia e que, ao mesmo tempo, coagulam uma angústia insistente: um vago desejo de tranquilidade cuja irrupção política poderia significar a derrota do macrismo (antes em nós mesmos e depois no palácio de governo).

Seria possível pensar nossos contemporâneos sem rotulá-los a priori como representantes de algum “setor social” cujas inquietudes e demandas precisam, primeiro, ser interpretadas pelos acadêmicos para, só depois, serem transformadas em programas de governo pelos especialistas em representação? Alex Moraes argumenta que não só é possível, como também necessário, sobretudo agora que, no Brasil, as “coisas já não podem ser o que eram”. As coisas mudaram bastante ultimamente porque, desde as sublevações populares de 2013, a governabilidade progressista se esvaziou, isto é, perdeu qualquer capacidade de acompanhar a radicalização política das pessoas. A perda de conexão entre a política estatal e a radicalidade da produção desejante reintroduziu a política institucional no círculo vicioso de uma vida sem futuro. Sendo assim, poderíamos dizer que o governo golpista de Michel Temer foi o beneficiário de um verdadeiro estado de decepção gerado pelo empobrecimento do horizonte pragmático e imaginativo da esquerda. Isto favoreceu a emergência de propostas conservadoras que nos dizem basicamente o seguinte: tudo bem, chegamos até aqui, agora é hora de deixar de lado a parafernália ideológica e os excessos socializantes para pensar seriamente em como preservar o patrimônio conquistado e, claro, sustentar o desenvolvimento capitalista a longo prazo. Em resumo: segurança e normalização. Pois bem, se o que queremos é entender “como as coisas chegaram a este ponto” e nos lançar ao esforço de transcendê-las, é necessário encarar as sublevações populares de 2013 como uma situação que revela, simultaneamente, “a inconsistência do projeto lulista” e “as possibilidades reais para sua superação positiva”. No entanto, ser fiel à capacidade das pessoas de colocar em xeque seu próprio mundo exige, antes de mais nada, um esforço de indisciplinamento, posto que “as disciplinas acadêmicas promovem, cada vez mais, a direitização do pensamento”. Ao invés de representar para o Estado e para os partidos o que o povo quer, trata-se de pensar com os demais e abordar seus enunciados já não como índices de uma representação sobre o mundo, “mas sim como prescrições que inauguram processos de experimentação no real”. “Pensar no registro do possível”, sugere Alex, “é o primeiro passo para recomeçar o trabalho da política, precisando, ponto por ponto, suas prescrições imanentes e compondo, pouco a pouco, seu sujeito ainda inexistente”.

Atenta aos enunciados de quem ocupa edifícios privados e públicos na luta pela moradia no extremo sul do Brasil, Juliana Mesomo sugere que certas iniciativas encabeçadas pelos movimentos sociais foram capazes, como era esperado, de propor uma série de soluções para resolver diversos problemas relacionados à vida nas grandes cidades do país. Tais propostas, no entanto, foram parcialmente neutralizadas pelas “respostas estatais” que pretendiam contemplá-las. As respostas estatais são, argumenta a autora, um claro vetor de desesquerdização no campo social, na medida em que apontam resolutamente a obturar as “lógicas esquerdizantes” imanentes às lutas populares. Para Juliana, as reflexões e propostas elaboradas no contexto de três ocupações urbanas na cidade de Porto Alegre constituem verdadeiros esforços de “totalização” que inscrevem problemas aparentemente pontuais em relatos mais abrangentes sobre as condições de dominação e as possibilidades para suspendê-las. Assim, por exemplo, os protagonistas da ocupação de um edifício público no centro da cidade de Porto Alegre apresentaram sua forma de luta como um ato de reparação histórica que, transgride, na prática, a segregação racial urbana, restituindo as zonas centrais – com seus abundantes serviços públicos e vagas de emprego – à população negra. A recuperação imediata do centro da cidade por parte destes grupos é uma afronta direta ao racismo que se materializa na organização dos espaços urbanos brasileiros. Diante deste tipo de ações, o Estado não só responde com repressão, mas também tenta isolar certas “demandas pontuais” do contexto de politização no qual elas originalmente apareceram, tentando suturá-las em outro “horizonte operativo”. “A característica básica do vetor de esquerdização é a ação totalizante: a casa, por exemplo, é um referente imediatamente significado, encadeado a uma totalidade, a uma estratégia, a um plano de ação”. O Estado, pelo contrário, funciona como uma força desesquerdizante porque, na maioria das ocasiões, recorre a uma série de mecanismos repressivos e estatísticos destinados a inventariar “fatos empíricos” e “problemas concretos” (o problema da falta de moradia, por exemplo), catalogando-os por fora dos enunciados onde estes “problemas” e “fatos” foram inicialmente postulados. Os governos nacionais do Partido dos Trabalhadores reproduziram, a sua maneira, este tipo de procedimento de sutura, incentivando, por um lado, a imaginação dos fins (direito à moradia, ao bem-estar, etc.) e impedindo, por outro lado, “a execução direta dos meios, ou seja, dos ‘modos de fazer’ propostos pelas iniciativas populares”. Enfrentar a direitização exige, por isso, assumir a indissociabilidade entre os fins e os meios que as pessoas propõem a si mesmas para transgredir suas posicionalidades atuais. “Entre o real, enunciado imaginativamente através de iniciativas populares tais como as ocupações urbanas, e os ‘fatos empíricos’ produzidos pelo discurso estatal”, Juliana nos convida a não titubear: é necessário escolher sempre a primeira opção.

As três intervenções que apresentamos aos nossos leitores sugerem que os processos de direitização experimentados hoje no continente não têm, necessariamente, origem na disseminação de conteúdos ideológicos específicos. Muito pelo contrário, seria mais correto buscar suas causas nas dinâmicas de sutura representativa, de exploração da vida nas grandes cidades, de repressão das lógicas esquerdizantes e dos momentos insurrecionais. Se aceitarmos que a direitização não supõe opiniões e conteúdos conservadores a priori, mas sim um modus operandi cuja consequência é manter os limites da ordem, então teremos a oportunidade de olhar de outra maneira para a conjuntura que habitamos. Os textos em questão nos convidam a retomar o trabalho da esquerda através da problematização das inconsistências inerentes ao véu representativo que recai sobre as “pessoas comuns” e seus respectivos desejos. Em vez de produzir um panorama legível da vida coletiva e representá-lo para – e no marco de – aparatos estatais, disciplinas acadêmicas ou partidos políticos, é hora de criar, junto aos demais, novos termos para o debate, assim como uma política singular que esteja à altura dos mal-estares da nossa época.

TEXTOS:

Apresentação: faltam palavras, faltam problemas.

Por Grupo de Estudos em Antropologia Crítica

Vida Mula y derechización

Por Colectivo Juguetes Perdidos

Algunas pistas para “operar a nuestro antojo” (ahora que en Brasil las cosas ya no pueden ser lo que eran)

Por Alex Martins Moraes

Ocupações urbanas e “respostas estatais”. Hipóteses sobre esquerdização e desesquerdização.

Por Juliana Mesomo

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