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Brasil numa miragem argentina: coxinha coroada

Por João Alcântara

O bloco sinistro da vadiagem e do desbunde irresponsável converteu-se não só no objeto desprezível em contraste com o qual a Vida Batalhadora reivindica seu valor, mas também no alvo genérico da revanche endossada pela Coxinha Coroada. A depressão do salário real foi compensada por um salário anímico suplementar, debitado da certeza de já se saber onde reside o problema, onde bater com vontade, onde cortar com precisão, onde atirar. Mas esse mal vem de antes: encontra suas origens no progressismo tardio; naquela vontade dispersa de defender o direito de não ser importunado por nenhum ruído atordoante enquanto o patrão caga na cabeça de todos e o Estado cuida da inflação para que a precariedade totalitária valha realmente a pena.

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Quando o Colectivo Juguetes Perdidos (JP, de agora em diante) começou a colocar em palavras os resultados de suas cartografias sensíveis da ascensão macrista na Argentina, Bolsonaro ainda não havia ganhado as eleições presidenciais brasileiras e muitos de nós considerávamos essa hipótese praticamente impossível. Na Argentina, o triunfo de Mauricio Macri, em 2015, também pegou desprevenida uma parte significativa da esquerda e do progressismo. Desde então, JP dedicou-se a unir os fios de suas andanças pela região metropolitana de Buenos Aires para construir algumas das análises mais sugestivas, lúcidas e agudas de que tenho notícia a respeito das condições de possibilidade do macrismo. Desde os “anos dourados” do kirchnerismo, JP já vinha cartografando as dinâmicas do “engorramiento” nos subúrbios bonaerenses (“engorramiento” tem várias acepções. Por enquanto, e em analogia com o Brasil, tracemos um paralelo entre esse vocábulo argentino e neologismo “coxinhização”). Mais tarde, sob Macri, tais dinâmicas seriam coroadas por um programa político hábil em canalizá-las eleitoralmente e elevá-las à condição de parâmetro para a administração de uma vida coletiva cada vez mais empapada pelas apostas e sensibilidades inerentes ao “muleo” (algo assim como o “trabalho duro” ou a “batalha”, aquilo que, no Brasil, definiria a vocação existencial dos “batalhadores”, inventados e enaltecidos pelo sociólogo Jessé de Souza). Esses devires da coxinhização argentina são abordados por JP em dois livros: ¿Quién lleva la gorra? (Tinta Limón, 2014) e La gorra coronada (Tinta Limón, 2017). Aqui, eu me referencio num livreto de síntese, lançado às pressas logo depois da eleição de Macri e também intitulado La gorra coronada.

É impossível comentar os textos do JP sem fazer sucessivas paradas para especificações conceituais. É que o vocabulário do Coletivo não responde aos repertórios acadêmicos que exalam da universidade. Daí sua lucidez. A linguagem desses pesquisadores se caracteriza por prolongar, na superfície de um texto com pretensões explicativas, aquelas categorias empregadas pelos “pibes” e “pibas” (guris e gurias, garotos e garotas, moleques) dos subúrbios bonaerenses. Eles também estão atentos ao que dizem os moradores “gorrudos” dessas mesmas latitudes (“gorrudo” alude ao sujeito “castrador”, “coxinha”, “sargentão”, de índole policialesca, “que paga de milico”). Dessa língua urgente brotam elementos para pensar as vidas precárias, seus “interiores estallados” (interiores implodidos; espaços domésticos desabados), seus “rejuntes” (“gambiarras”, formas precárias de coexistir e compartilhar uma vida, seja por amor, obrigação, necessidade ou tudo isso ao mesmo tempo), mas também seus “agites” (“agitações”, “rolês”, “zueiras”) e “rajes” (“escapadas”, “fugas”, eventualmente insólitas e experimentais).

A “Vida Mula” (expressão inventada pelo Coletivo que abarca noções do tipo: “vida na correria”, “vida suada”, “vida pesada”, “vida puxada”, “vida batalhada”) comporta interiores estallados, rejuntes, engorramiento, agites, rajes. Nela coabitam a irreverência e a coxinhice imanentes à afluência econômica progressista; afluência relativa, instaurada nos quadros de uma precariedade penetrante, cansativa, angustiante. O boom do consumo popular foi vivido com um tesão ambíguo, às vezes taciturno, por quem nunca deixou de intuir, logo ali na esquina, o aceno arrepiante da precariedade, do vazio e do sufoco. Essa presença sinistra da precariedade mais arrebatadora, dependurada por um fio sobre a cabeça de todo o mundo, alimentou o “engorramiento” paulatino. Era preciso resguardar de um iminente despojo o pouco – ou muito – que vinha sendo conquistado na base do “muleo”. A exposição da vida à precariedade totalitária, apenas circunstancialmente atenuada, mas sempre à espreita nos ônibus lotados, nos trens metropolitanos acidentados, na violência da vida nos bairros, na própria voz dos mandatários (“se não fosse por nós, vocês estariam na sarjeta”), exigia precauções. Foi necessário manter-se vigilantes; cuidar com unhas e dentes o patrimônio acumulado.

Situação complexa aquela experimentada sob o kirchnerismo: havia trabalhos, eram trabalhos de merda, eram pra toda a galera e eram o máximo que a galera podia esperar. Só alguns receberam o direito de subtrair-se temporariamente à regra do “muleo”, convertendo-se, instantaneamente, em alvos de um rancor difuso: cargos comissionados, beneficiários de programas sociais, “encostados” de toda pelagem. Pouco a pouco, os mais fodidos passaram a ser apontados como “vagos del plan” (os “vagabundos do Bolsa Família”): eles supostamente – e odiosamente – dispunham de uma garantia paralela ao “muleo” para ter acesso às benesses da década de ouro. Não estavam no jogo acordado e padecido por todos. “Vagos del plan” era um epíteto democrático, aparecia na boca de muitos, não só do pessoal endinheirado. Com a Vida Mula no horizonte da geral, tornou-se tendência aceitável questionar qualquer indício de “vagancia” (“vagabundagem”); qualquer pontinha de vantagem material não mediada pelo “muleo”, essa nova figura operária do peronismo kirchnerista. No “muleo” dirimia-se o único destino possível de toda a massa “disponível”, especialmente a massa dos jovens.

Palavras do JP: “Houve mais grana, mais trabalho, mais ‘rejuntes’ [aqui, no sentido de “gambiarras” ou “jeitinhos” para viver melhor], mais educação, mais saúde, mais ciência, mais cultura, mais esporte, mais segurança (…) tudo isso são (…) redes que resguardam da intempérie, criando efeitos de distância entre a Vida Mula e o vazio, mas que não dissipam a precariedade de fundo, nunca chegam a conjurá-la”. Benefícios por um lado, luta permanente por outro. Bem estar relativo e tensão implacável. Mar sereno sob céu tormentoso. Nestas circunstâncias, a Vida Mula precisava “pagar de milica” para poder funcionar: tornava-se sargentona, intransigente, estourada, controladora no interior dos lares, nas ruas dos subúrbios, onde quer que as ameaças dissolventes pudessem espreitar. Jovens “verdugueados” (castigados, subjugados, surrados) pelos pais das portas de casa para dentro e acossados pela polícia das portas para fora. Moradores organizados para linchar os ladrões das redondezas. Função dispersa de polícia: saídas coletivas orientadas a assegurar o devir tranquilo da Vida Mula; estratégias “gorrudas” para defender o direito de não ser importunado por nenhum ruído atordoante enquanto o patrão cagava na cabeça de todos e o Estado cuidava da inflação para que essa torrente de merda valesse a pena. Os “mulos” – define JP – não são os que precisam trabalhar para viver, “mas sim os que acreditam que o trampo é a única coisa que valoriza a vida”.

Quando finalmente irrompeu a crise e “conter gastos” tornou-se uma saída óbvia para progressistas e reacionários, a direita neoliberal não hesitou em propor uma aliança de momento com a consciência mula, com o “realismo comunitário” (realismo vecinal). Ambos confluíram na convicção de que a fonte de todo o mal é a vagabundagem, isto é, qualquer um que pudesse ser sinalizado como praticante do desbunde irresponsável; de alguma espécie de maracutaia ao abrigo complacente dos amigos no poder ou dos “idiotas úteis” que infestavam a administração pública. CCs, funcionários fantasmas, encostados, vagabundos do Bolsa Família, imprestáveis da universidade e do boteco da esquina, militantes full-time, sanguessugas de todos os matizes. Esse bloco sinistro da vadiagem se converteu, então, não só no objeto desprezível em contraste com o qual a Vida Mula reivindicaria seu valor, mas também em alvo da revanche endossada pela “gorra coronada” (a “coxinha coroada”, i.e., Macri – Bolsonaro? Bolsomacri? -). A depressão do salário real foi compensada por um salário anímico suplementar, debitado da certeza de já se saber onde reside o problema, onde bater com segurança, onde passar a justa navalha, onde atirar. “Sem ser a continuidade do kirchnerismo, o macrismo se incubou nos silenciados e obscurecidos (…) reversos da década ganada. O macrismo é a expressão política do subsolo da pátria muleada e engorrada”.

Vida Mula é um complexo subjetivo secretado pela associação entre certo incremento da capacidade de consumo e uma forma de inserção laboral hipermobilizadora, realmente extenuante: a precarização em suas múltiplas facetas. Vida Mula é o realismo da precariedade. Como qualquer realismo, ela precisa reificar uma Realidade para, em referência a Ela, arbitrar sobre o possível e o impossível, a verdade e o erro. Temos, então, que Realidade = formas de satisfação pessoal dadas + formas de empreender que mediam o acesso aos prazeres disponíveis. Aqui, o impossível é a vagabundagem, carente de todo conteúdo real, mero aproveitamento indevido do esforço dos demais, sem contrapartidas. O vagabundo é a falha, a perda do sentido da realidade, o princípio da entropia. Ele demanda correção. Segundo JP, o realismo “mulo” é sintoma de um “consumo sem vitalidade”; consumo que redunda na reivindicação obsessiva das mediações laboral-empreendedoras já existentes. Daí que seu corolário possa ser o ajuste, ou melhor, o discurso que justifica o ajuste. O consumo sem vitalidade não manifesta nada criador, não dá passagem ao Ser no simulacro da mercadoria. Não desemboca noutra inquietude senão a de bolar um jeito de viver a exploração (sob batuta própria ou alheia) com a maior tranquilidade possível em termos de “segurança”.

Mas e o consumo vivaz, onde está? Onde esteve? Ele conseguiu descolar-se em algum momento da Vida Mula? Ou permaneceu grudado nela até indiferenciar-se totalmente do consumo encoxinhado? Como explicar que a vivacidade do consumo só possa ser intuída nas reentrâncias, nos espaços conspiratórios, em meia dúzia de palavras e arroubos que logo são esquecidos ou domesticados? Como explicar que lhe faltem territórios onde prolongar seus sonhos, onde abrigar e comunicar o vislumbre daquela outra vida possível que o ato do consumo e do esbanjamento tornou tangível, mas o imperativo do “muleo” obliterou sumariamente? Se o macrismo coroou o “muleo” e seu realismo, quem, então, poderia coroar a vivacidade que se deixa – ou deixou (deixou?) – ler na euforia da casa própria, na reforma do lar, na sesta básica bem sortida, no churrasquinho mais frequente aos fins de semana, no veraneio, no material escolar novo, no carro, nos eletrodomésticos, no táxi eventual, na roupa de marca, na alcatra semanal, no litrão, no béqui do pós-trabalho, etc. etc.? Alguma coisa estava acontecendo aí, em silêncio? Alguém a enunciou? Seria preciso que alguém a enunciasse para que pudéssemos decretar sua existência? Se não, qual o estatuto desse decreto? Quais suas consequências?

Hoje, dissolvida a euforia de uma época no coroamento da coxinha, podemos até mesmo chegar a duvidar de que o subterrâneo vivaz e selvagem do consumo popular tenha existido ativamente, povoado de devires silvestres prontos para dar o bote e transbordar o copo. Em plena dúvida atroz, só Deleuze nos consola; só ele nos assegura que – cito Deleuze em Deux régimes de fous – os agenciamentos de desejo “não deixam de fracassar, mas não deixam tampouco de ser retomados, modificados, até a eventual ruptura dos dispositivos de controle estabelecidos”. JP sintetiza essa esperança numa frase direta: “lo silvestre siempre está volviendo”. Mas constatar isso não basta. É necessário fazer algo. JP vai mais longe: levanta uma questão e nela está contida uma proposta: “a pergunta – mais ‘fisiológica’, urgente, vital que ideológica – é como armar uma série existencial diferente da que a Vida Mula propõe (nosso rechaço ao macrismo é sensível, antes que político ou ideológico; odiamos sua proposta de Vida…)”. Odiemos, então. Mas o ódio é o quê? Resposta da Vida ao mal-viver ? Talvez. E é possível que a própria Vida, como ponto de referência da política, não nos informe outro princípio de convergência senão o ódio. Continuamos identificados entre nós em referência ao Outro que odiamos. Nunca saímos do Outro. Não temos objeto próprio, não sabemos se juntos podemos fazer algo mais além de odiar.

“La gorra coronada y los anti-todo no nos gobiernan!”, brada o Colectivo JP. Quem nos governa, então? Sob qual signo, exterior ao outro, podemos nos governar? Se o ódio nos governa, Macri e Bolsonaro nos governam. Se não, precisamos de uma ideia do que somos capazes de fazer juntos e de uma política que possa colocá-la à prova. Falando nisso – e a miragem desvanece aqui, onde se perde a correlação com a Argentina –, alguém se lembra de 2013? Reformulo: alguém se lembra de quem era em 2013? Em plena bonança progressista, com o corpo ainda quente de consumo, mas estranhamente robustecido pela sensação de participar desse corpo novo e sem nome, que arrebentava vitrines e ocupava parlamentos, que ideia tínhamos do que poderíamos ser?

O Grupo de Estudos em Antropologia Crítica é um coletivo independente que atua na criação de espaços de auto-formação e invenção teórico-metodológica. Constituído em 2011, o GEAC se propõe, basicamente, a praticar “marxismos com antropologias”. Isto significa desenvolver meios para refletir, de maneira situada, sobre os devires radicais da conflitividade social contemporânea. Delirada pelo marxismo, a antropologia se transforma, para o GEAC, numa prática de pesquisa e acompanhamento político das alteridades rebeldes que transbordam e transgridem a pretensão totalitária do modo de produção vigente e da sua parafernália institucional.

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