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Então é respeito o que os acadêmicos querem…

Por João Alcântara

Desde o dia 1° de janeiro, inclusive os consensos mais salutares do ciclo progressista diluíram-se em meio a uma discussão inevitável, acalorada e algo caótica. Neste contexto, os arautos da academia parecem ter esquecido suas profundas convicções democráticas para reivindicar, na base do carteiraço, uma legitimidade intelectual a priori. Enquanto chacoalham os diplomas na esfera pública – mais correto seria dizer nas redes sociais –, eles se arrogam jurisdição patrimonial sobre certas “palavras chave” das quais seus currículos Lattes seriam o inquestionável título de posse. A democracia os incomoda porque ela desconhece até mesmo os que falam com “propriedade de causa”; porque ela passa bem longe dos mecanismos – a propósito, questionáveis – que atualmente referendam a excelência acadêmica em nosso país.

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A vitória eleitoral de Bolsonaro significou o fim da hegemonia progressista no âmbito do Poder Executivo brasileiro. Desde que o capitão instalou-se no Palácio do Planalto e distribuiu seu ministério entre a corporação judiciária, o generalato, o capital financeiro, o agronegócio e o fundamentalismo religioso, somos bombardeados diariamente por opiniões no mínimo controversas, provindas dos altos escalões do poder. Trata-se de pontos de vista que divergem mais ou menos frontalmente daqueles outrora sustentados pela burocracia progressista. Naturalmente, os novos parâmetros de gestão da coisa pública encontram alguma ressonância no campo social, reavivando debates que, até pouco tempo atrás, muitxs acreditavam encerrados. Justiça restaurativa, ações afirmativas, reparação histórica, promoção de direitos LGBTTQI, educação sexual, ênfase no combate à pobreza – mais do que na “guerra ao crime” –, etc., são agora questões discutíveis e discutidas. Os enfoques punitivos voltaram à baila no campo das políticas de segurança pública, as ações afirmativas vêm sendo questionadas em sua justeza e eficácia, promovem-se discursos revisionistas no tocante à ditadura civil-militar, as pautas relativas à diversidade sexual têm sido impugnadas com a pecha da “ideologia de gênero”, o debate sobre a violência vai desconectando-se paulatinamente do debate sobre a desigualdade. Em síntese, uma batalha ideológica está colocada. Os consensos pétreos que regeram a administração pública durante os governos petistas foram transfigurados em pontos de vista sinistros e questionáveis. Hoje em dia, é como se qualquer um – o juizinho provinciano, o vizinho reaça, o capitão ignorante, o crente obtuso, a ministra fanática e despreparada – pudesse opinar sobre qualquer assunto. E, pior ainda, inclusive sobre aquelas questões cuja correta abordagem era cuidadosamente resguardada pela aliança sinérgica entre a razão governamental progressista e os think tanks universitários de “esquerda”.

Desde o dia 1° de janeiro, os consensos — muitos deles salutares — do ciclo progressista diluíram-se em meio a uma discussão inevitável, acalorada e algo caótica. Neste contexto, os arautos da academia parecem ter esquecido suas profundas convicções democráticas para reivindicar, na base do carteiraço, uma legitimidade intelectual a priori. Enquanto chacoalham os diplomas na esfera pública – mais correto seria dizer nas redes sociais –, elxs se arrogam jurisdição patrimonial sobre certas “palavras chave” das quais seus currículos Lattes seriam o título de posse. A democracia os incomoda porque ela desconhece até mesmo quem fala com propriedade de causa; porque ela passa bem longe dos mecanismos – a propósito, questionáveis – que atualmente referendam a excelência acadêmica em nosso país. Em sua acepção menos utilizada e defendida, a democracia diz respeito à igualdade das capacidades de fala e tomada de decisões; uma igualdade que é mediada apenas pela prática da política. Provavelmente não era esta a democracia que nossos combativos intelectuais defendiam em cartas públicas e abaixo-assinados contra o golpe de 2016.

É evidente que a nova burocracia conservadora, aquela contra a qual se insurge a intelectualidade bem pensante, não é mais democrática que esta última. Os quadros mais espalhafatosos do governo Bolsonaro – juiz Moro, general Mourão, deputado Onix, banqueiro Guedes, pastora Damares, etc. – também pretendem esmagar a irreverência da democracia com golpes de autoridade tecnocrática e, em alguns casos, com a evocação da inquestionável Verdade Divina. Entre os burocratas ascendentes e os ideólogos da burocracia derrotada não existe uma oposição qualitativa. Ambos empenham-se em legitimar formas análogas de autoridade, mas com o sinal ideológico invertido. Nesta contenda tudo está em jogo – egos, legitimidades institucionais, feudos, igrejas –, menos a democracia.

Os atores sociais em questão pretendem validar seus enunciados por fora do laborioso trabalho da política. Em política, o saber – seja qual for – só se torna legítimo graças ao debate público e a construção de sujeitos coletivos capazes de fazê-lo valer como critério possível para a (re)organização da vida coletiva. Sem o trabalho da política, o que resta é uma luta pela preservação das formas de autoridade já existentes e, por conseguinte, da distribuição atual dos poderes e das visibilidades. Não impressiona que o bolsonarismo se furte ao trabalho da política democrática. O que sim entristece é ver que, na prática, esta política não é sequer respaldada por aquelxs que, com muito estardalhaço, apresentaram-se à sociedade como seus/suas principais fiadorxs. Talvez minha tristeza seja fruto da ingenuidade… afinal, o que se pode esperar de quem aprendeu a crer, no contexto de uma das instituições menos democráticas do Estado brasileiro, que um título acadêmico é conditio sine qua non para falar aos outros com prerrogativa de autoridade? (Entre parênteses, uma reiteração: a universidade pública é, sim, uma instituição antidemocrática. Que o digam os estudantes, essa maioria que há anos luta pela paridade nos conselhos e pelo reconhecimento de que seu voto valha pelo menos o mesmo que o voto de um professor…).

Em política democrática, a palavra de deus e o cânone teórico das disciplinas acadêmicas não valem nada a priori. É preciso construir seu valor ideologicamente, ou seja, mediante enunciados que pretendam convencer xs outrxs sobre a lógica de uma ideia e a pertinência de testá-la na prática. Ninguém entra na ágora munido de fatos. Ou melhor: na ágora, os fatos não são munição eficaz.  As ideias sim. Transpor ideias em fatos com os quais todxs deverão lidar é um atributo da política. Neste sentido, não deveríamos recusar, por exemplo, que nossas posições sobre, digamos, “gênero” sejam tachadas de “ideologia”. Quando se trata de construir uma política, a ideologia é muito mais efetiva que o autismo dos fatos e dos dados. A ideologia é interpeladora, pois pretende dizer respeito a todxs e, mais do que isso, afetá-lxs com a lógica reveladora de seu conteúdo intelectual. “Ideologia de gênero” é a expressão política de uma prospecção sistemática da diversidade objetiva das práticas sexuais e das eventuais violências inerentes a sua hierarquização arbitrária. Como ideólogos de gênero, dizemos a todxs – e isto incomoda – que, no final das contas, elxs podem ser aquilo que bem entenderem; que não merecem ser estigmatizados pela colocação em prática de sua própria humanidade, sempre aberta a mil experimentações. No espaço democrático, somos todxs ideólogos, assim como nossxs inimigxs. Isto quer dizer que apresentamos aos/às nossxs contemporânexs uma possibilidade que nossa experiência de mundo permitiu-nos vislumbrar e que, a partir da interpelação ideológica, poderá tornar-se uma possibilidade universalizável – e libertadora, queremos crer.

Se é respeito o que os acadêmicos querem, então em primeiro lugar devem reconhecer nos demais sua igualdade em política. A partir daí, e em meio a composições coletivas concretas, poderão combater os modos de vida propostos pelo inimigo e, simultaneamente, afirmar outras formas de existência (ideo)logicamente mais desejáveis. Sem esta mudança de atitude, que pressupõe a igualdade das vozes e dos enunciados, a defesa de uma posição intelectual não pode ser outra coisa senão a defesa de um privilégio sempre politicamente questionável.

O Grupo de Estudos em Antropologia Crítica é um coletivo independente que atua na criação de espaços de auto-formação e invenção teórico-metodológica. Constituído em 2011, o GEAC se propõe, basicamente, a praticar “marxismos com antropologias”. Isto significa desenvolver meios para refletir, de maneira situada, sobre os devires radicais da conflitividade social contemporânea. Delirada pelo marxismo, a antropologia se transforma, para o GEAC, numa prática de pesquisa e acompanhamento político das alteridades rebeldes que transbordam e transgridem a pretensão totalitária do modo de produção vigente e da sua parafernália institucional.

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