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Lenin e a hegemonia. Os sovietes, a classe trabalhadora e o partido na Revolução de 1905

Por Alan Shandro

Tradução: Jorge Acosta

Imagem: “Lenin. New tasks”, pintura de Anatoly Pavlovich Levitin, 1970.

Este pretende ser o primeiro texto de uma série de estudos sobre o leninismo. Sua escolha se justifica pela relevância do debate acerca do papel e da posição das lideranças na teoria marxista. Assim, o texto se dirige tanto aos que desejam qualificar sua produção teórica quanto aos militantes que, a partir de suas práticas políticas, buscam aprimorar sua análise da luta de classes. Além do alcance propriamente marxista de seu conteúdo, o texto enfrenta diretamente a questão do apartidarismo, o conceito pós-marxista de contra-hegemonia e a suposição de um caráter elitista do partido em Lênin. Todos esses debates são travados sob a luz da distinção entre espontaneidade e consciência de classe, tal como defendida por Lênin no contexto da prática política e teórica de 1905. Podemos adiantar que o texto recoloca a questão da luta pela hegemonia — ou seja, da tomada do poder. Para isso, nos põe a par da teoria revolucionária e do caráter estratégico do pensamento político do líder bolchevique. Boa leitura, camaradas!

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As abordagens mais reflexivas sobre o fenômeno da liderança a entendem como uma relação complexa entre o líder e os liderados. Se considerarmos o que dizem as obras sobre Lênin, o proeminente líder prático do movimento operário marxista teria pouca importância teórica na hora de contribuir para uma compreensão da liderança. A linha argumentativa predominante nestas obras sugere que o conceito particular de partido de vanguarda que Lênin desenvolve, simplesmente reencaminha a representação revolucionária da classe trabalhadora para uma organização de vanguarda dirigida por intelectuais de procedência burguesa. De acordo com este tipo de leitura, o projeto de Lênin seria o de identificar um agente capaz de substituir a suposta incapacidade da classe trabalhadora para a atividade revolucionária por uma consciência revolucionária. No entanto, ao situar a posição de Lênin nos termos das categorias de seus oponentes, esta leitura a classifica erroneamente. A tese central de Lênin, de que a consciência socialdemocrata deve ser introduzida no movimento espontâneo da classe trabalhadora a partir de fora, poderia ser reformulada agora como a ideia de que o movimento operário não pode, sem a intervenção organizada da teoria marxista em sua luta, gerar uma consciência socialista revolucionária[1]. Eu sustento que o resultado de sua tese era reorganizar as categorias com que os marxistas poderiam se aproximar ao fenômeno da liderança, de maneira que produzisse alguma aquisição conceitual sobre as dinâmicas complexas da relação entre dirigentes e massas.

A vanguarda e a consciência socialista

Se equiparamos o movimento espontâneo da classe trabalhadora com a base econômica e a consciência socialdemocrata com a superestrutura, a tese de Lênin equivale a uma inversão voluntarista da primazia marxista da base; a revolução deixa de estar fundamentada em uma análise materialista das relações de classe e se converte na expressão da vontade dos intelectuais revolucionários comprometidos. Essas categorias proporcionam pouco espaço conceitual para entender o fenômeno da liderança: a revolução se leva a cabo tanto pela classe trabalhadora como por parte do partido de vanguarda; tanto a espontaneidade da classe trabalhadora gera a consciência de sua vocação revolucionária, como a autoproclamada vanguarda de intelectuais revolucionários substitui esse processo espontâneo. Situada neste contexto, a liderança só poderia consistir em transmitir a consciência de uma vocação revolucionária. A política, por isso, se equipara efetivamente com a educação, e a divisão política essencial encontra-se em saber se o educador respeita ou não a autonomia do aluno.

Contudo, a tese de Lênin resiste a qualquer identificação simples da distinção entre espontaneidade e consciência com aquela diferença produzida entre base e superestrutura. No transcurso de seu raciocínio, a vanguarda consciente atua tanto para fomentar o movimento trabalhador espontâneo como para combatê-lo. A aparente ambivalência deste enunciado se encontra em uma apreciação da própria espontaneidade tanto como embrião da consciência socialista quanto como depósito da ideologia burguesa; uma contradição que Lênin expõe detalhadamente, da seguinte forma: “a classe trabalhadora gravita espontaneamente para o socialismo; mas a ideologia burguesa mais estendida (contínua e variadamente reavivada) impõe-se de maneira não menos espontânea sobre o trabalhador, em um grau ainda maior”[2]. O sentido marxista de sua afirmação só pode ser alcançado examinando o processo dialético pelo qual a dominação ideológica da burguesia enfrenta-se com as tendências socialistas espontâneas da classe trabalhadora.

Os termos do problema (espontaneidade versus consciência, espontaneidade burguesa versus espontaneidade socialista) devem ser propostos dentro de uma dinâmica de luta. Isto requer dois níveis de análise. No primeiro, abstraímos a influência da ideologia, isto é, da “consciência” sobre a luta espontânea das forças sociais, uma luta caracterizada nos termos das relações sociais de produção. Neste nível, os interesses da classe trabalhadora mostram-se em conflito irreconciliável com as relações sociais fundamentais do modo de produção capitalista e, por isso, pode-se esperar que, em virtude dessas relações sociais, os trabalhadores gravitem espontaneamente para a teoria marxista como meio para explicar sua situação e orientar sua luta. Porém, Lênin sustenta que o movimento espontâneo não está determinado somente pela base socioeconômica da luta de classes. A afirmação de que

os ideólogos (ou seja, os dirigentes politicamente conscientes) não podem desviar o movimento do caminho determinado pela interação do meio com os elementos […] (isso) ignora a verdade elementar de que o elemento consciente participa nessa interação e na determinação do caminho. Na Europa, os sindicatos católicos e monárquicos são também um resultado inevitável da interação do meio com os elementos, mas era a consciência dos padres e de personagens como Zubatov, e não a dos socialistas, a que participava nessa orientação[3].

Considerando essa “verdade elementar”, Lênin analisa o movimento espontâneo como o movimento da classe trabalhadora, determinado não apenas pelas relações de produção, mas também submetido à influência do aparato ideológico da burguesia (os veículos institucionais de ideias e informação, tais como partidos políticos, agências governamentais, jornais, igrejas, etc., cuja atuação assume ou simplesmente aceita o domínio dos interesses capitalistas). Entendido nesses termos, o movimento espontâneo é o que se opõe à consciência socialista de quem pretende ser vanguarda do proletariado dentro de seu campo de ação, mas fora de seu controle. Lênin situa o domínio da ideologia burguesa somente neste segundo e mais concreto nível de análise; o que se encontra sujeito a esta dominação não é a classe trabalhadora como tal, mas o desdobramento espontâneo do seu movimento, isto é, o movimento da classe trabalhadora considerado em abstrato da sua vanguarda socialista revolucionária, daqueles intelectuais e trabalhadores cuja atividade política está situada dentro da teoria marxista, e que é, nesse sentido, consciente.

Sobre tais premissas, não há necessidade de supor que o domínio da ideologia burguesa é perfeito, ou que os trabalhadores são incapazes de opor a ela uma resistência espontânea, de desenvolver uma luta política ou, inclusive, de realizar inovações. A lógica da luta espontânea gera uma dinâmica através da qual a ideologia burguesa e a experiência do proletariado tornam-se parcialmente constitutivas uma da outra. A limitação da luta espontânea encontra-se não em uma incapacidade absoluta do movimento trabalhador para gerar algum tipo particular de atividade política, mas sim em sua incapacidade, quando a teoria marxista está ausente, de estabelecer uma posição de independência estratégica diante dos seus adversários. A tese de Lênin sobre a consciência a partir de fora pode ser reformulada, portanto, mediante as seguintes afirmações. Primeiro, o movimento da classe trabalhadora não pode manter sua independência estratégica sem chegar ao reconhecimento de que seus interesses são irreconciliáveis com o conjunto do sistema sociopolítico organizado ao redor da dominação dos interesses burgueses. Segundo, um reconhecimento desse tipo implica que as tentativas de reconciliar os interesses da burguesia e do proletariado devem ser examinados no contexto da crítica marxista da economia política capitalista. Disso resulta a terceira afirmação: esse reconhecimento não pode ser efetivo na luta de classes sem uma liderança fundada na teoria marxista. Uma implicação que Lênin não conclui imediatamente é que a consciência revolucionária deve estar aberta à habilidade não só da burguesia, mas também do proletariado para inovar espontaneamente no curso da luta.

Esse conjunto de premissas, que sustenta a tese da consciência a partir de fora, é necessário para conceber o projeto político de uma vanguarda marxista, como uma intervenção determinada dentro de uma lógica complexa, desigual e contraditória da luta pela hegemonia. Isso é precisamente o que as circunstâncias da luta de classes na Rússia czarista exigia dos marxistas russos. Enquanto a extensão das relações sociais capitalistas erodia os fundamentos feudais e patriarcais do absolutismo, o crescimento sem restrições do capitalismo e as perspectivas do socialismo proletário convertiam em um imperativo a profunda transformação democrática das instituições do czarismo. No entanto, a dependência do Estado e da financeirização internacional que a burguesia russa tinha a convertiam em líder improvável de uma revolução democrática consistente; a precoce força do movimento da classe trabalhadora tornava tentador um acordo político moderado entre a burguesia liberal e o setor mais progressista dos proprietários de terras. Uma profunda revolução democrático-burguesa parecia depender da iniciativa política do proletariado. Isso não só iria requerer uma simples e direta polarização das classes, mas também a orquestração de uma aliança democrático-revolucionária de diversas forças políticas e sociais. A luta pela liderança, pela hegemonia na revolução democrática, era por essa razão uma luta sobre a constituição e a orientação política de sistemas alternativos de alianças políticas.

A consciência, tal como a concebia Lênin, tinha que entender reflexivamente o complexo e desigual processo da luta pela hegemonia. Focando-se na contradição entre a vanguarda consciente e o movimento espontâneo da classe trabalhadora, a tese da consciência a partir de fora permitia a Lênin, paradoxalmente, situar-se a si mesmo como teórico marxista e ator político dentro da luta de classes. Esta tese assume uma conceitualização da luta de classes na qual tanto a vanguarda consciente como o movimento espontâneo das massas são capazes de uma ação efetiva e, em algumas ocasiões, inovadora; cada qual tem diferentes e, inclusive, contraditórios modos de ação, e para sustentar uma posição hegemônica no processo de transformação revolucionária é necessária uma certa conjunção e, até mesmo, “fusão” de ambos. A afirmação de que a consciência socialista deve ser importada a partir de fora do movimento espontâneo não significa a substituição de um dos atores coletivos pelo outro, senão que serve para abrir um espaço conceitual nas relações entre dois atores diferentes e, por isto, a complexa e contraditória relação entre dirigentes e dirigidos pode submeter-se a um exame crítico.

Examinando a resposta de Lênin ao surgimento dos sovietes na Revolução de 1905, traçarei alguns contornos deste espaço. Ao fazê-lo, sustentarei que sua postura com respeito ao movimento espontâneo da classe trabalhadora e aos sovietes somente tem sentido no contexto da lógica político-estratégica da luta pela hegemonia que sustenta sua tese da consciência a partir de fora. As mudanças na sua postura não indicam um abandono dessa tese, pelo contrário, realmente dependem dela. Ao situar a exigência da liderança em relação com a lógica de uma luta política pela hegemonia, que implica adversários e aliados, líderes e massas, sua análise estratégica produziu uma maior apreciação e um entendimento mais efetivo das dinâmicas de relação entre dirigentes e dirigidos, comparada com a principal alternativa disponível para o movimento operário russo, oferecida pelos seus adversários mencheviques na ala moderada do POSDR.  No próximo tópico, sugiro que sua postura na luta pela hegemonia do proletariado significa enfrentar a realidade da diversidade do movimento revolucionário de massas e as complexidades da relação de liderança de maneira mais efetiva do que  o influente conceito pós-marxista de “contra hegemonia” permite desenvolver.

Teoria e prática da revolução

A guerra russo-japonesa de 1904-1905 trouxe ao primeiro plano as tensões que dominavam as estruturas políticas e sociais da Rússia czarista. Seguindo o exemplo da campanha dos intelectuais liberais para ampliar os limites da liberdade de expressão, o sacerdote Georgi Gapon encabeçou uma marcha dos trabalhadores de São Petersburgo para apresentar uma petição ao czar Nicolás para que atendesse suas queixas. A resposta das tropas czaristas, abatendo a tiros centenas de manifestantes, fez que, inclusive para os trabalhadores mais atrasados, a fé no czar se rompesse em pedaços. Desatou-se um processo revolucionário salpicado de ondas de greves políticas massivas, amotinamento de tropas, tomada de terras, constante desordem no campo e concessões das autoridades seguidas de uma brutal repressão. Esta revolução transformaria o terreno da política na Rússia e o pensamento político de Lenin moveu-se com ela. No entanto, como isso ocorreu é motivo de controvérsia. Lenin formularia a relação entre o movimento espontâneo da classe trabalhadora e o partido de vanguarda em termos, de certa forma, diferentes aos que havia utilizado antes. Surpreendidos pela mudança na ênfase, no tom e  na formulação, um certo número de autores tem tratado de contrapor mais ou menos sistematicamente o Lenin da revolução democrática de massas de 1905 ao político do partido revolucionário de O que fazer? Marcel Liebman, o mais destacado deles, tem caracterizado esta mudança como “a primeira revolta de Lenin […] contra o leninismo”[4]. Estes autores sustentam que Lenin, cativado pela espontaneidade do proletariado, abandonaria sua anterior falta de confiança nesta mesma espontaneidade do movimento operário. Seus chamamentos para uma profunda democratização do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), supostamente desmentem sua anterior “concepção elitista de partido”[5]. A confiança anterior nos revolucionários profissionais da elite intelectual daria lugar ao entusiasmo pela afluência dos trabalhadores revolucionários ao partido, como um estimulante para mitigar a letargia burocrática dos membros diretivos. Enquanto a intervenção em nome do controle superior centralizado  tinha parecido algo essencial durante a clandestinidade, à luz da realidade revolucionária Lenin se converteria no porta-voz da iniciativa criativa vinda de baixo. A hipótese anterior de que a revolução “deve ser necessariamente o trabalho de um grupo de vanguarda em vez do produto de um partido de massas” agora se substituiria pelo reconhecimento dos sovietes, organizações amplas de poder das massas trabalhadoras, como centros vitais da atividade revolucionária[6]. Por essa razão, 1905 foi “uma revolução que comoveu uma doutrina”[7].

As reformulações de Lênin de 1905, representam uma inversão teórica ou uma simples adaptação das ferramentas analíticas disponíveis a algumas circunstâncias que haviam se modificado? A aproximação de Liebman não está bem armada para enfrentar esta questão, já que abstrai a espontaneidade e a consciência, os trabalhadores e os intelectuais, a democracia e o centralismo, o partido e a classe etc., do seu contexto no pensamento leninista sobre os problemas estratégicos da revolução. Privados de seu contexto, estes conceitos deixam de ocupar um determinado lugar no projeto marxista de Lênin, que estava centrado em entender teoricamente e transformar politicamente a complexa e mutável constelação de forças de classe; em vez disto, se apresentam como um conjunto de distinções essencialmente morais, no qual cada um dos termos representa para nós um valor oposto, reiteradas mudanças de ênfase que simplesmente servem para representar o drama de uma alma perdida entre as demandas de moralidades políticas conflitivas. No entanto, estes termos também podem ser considerados à luz da orientação estratégica de Lênin para a luta política, uma orientação moldada pela consideração de que a identidade das forças políticas, os movimentos, as instituições, as políticas, os problemas e as ideias não são um simples reflexo da posição socioeconômica de classe dos atores, senão que respondem igualmente à conduta dos atores na luta e, por esta razão, estão sempre sujeitos a uma reavaliação em relação a lógica e ao desenvolvimento da própria luta política (e ideológica). Utilizo a expressão “lógica político-estratégica da luta pela hegemonia” para denominar esta visão leninista, e sustento que sem tal conceito organizativo não é possível explicar nem o jogo, nem as drásticas mudanças de ênfase, nem o aprendizado, nem o movimento teórico real no pensamento político de Lênin.

Como assinala Lênin, “não há dúvida de que a revolução ensinará algo a nós e às massas populares. Mas a questão a ser enfrentada agora por um partido político militante é se nós seremos capazes de ensinar algo à revolução”[8]. Algo novo poderia ser aprendido da revolução, e das massas no curso da revolução, situando-as em um marco conceitual capaz de responder as variações conjunturais do processo revolucionário e, consequentemente, de formular as perguntas adequadas em cada momento. Apresentar o mesmo ponto, de alguma maneira paradoxalmente, se devia a que Lênin estava disposto a ensinar à revolução algo que fosse capaz de aprender dela, e assim o fez. Ao incorporar a experiência dos movimentos revolucionários espontâneos de operários e camponeses a sua análise da lógica político-estratégica da luta pela hegemonia, Lênin produziria uma concepção marxista da hegemonia do proletariado na revolução democrático burguesa. Fazendo isso, chegaria a entender de forma reflexiva seu próprio marxismo situado em meio à luta pela hegemonia, e por isto pôde retificar sua descrição da relação entre espontaneidade e consciência. Esta retificação não resulta no abandono da tese da consciência a partir de fora, mas sim, precisamente, ao continuar com sua lógica, Lênin retifica a lógica político-estratégica da luta pela hegemonia.

A resposta de Lênin ao movimento camponês de 1905 não poderá ser analisada em detalhe, mas talvez exista um episódio que pode servir para mostrar que essa resposta só pode ser entendida se for unida à resposta que é dada ao movimento espontâneo da classe operária. O congresso inaugural da União de Camponeses Russos, que foi celebrado em agosto de 1905, propôs enviar saudações a “nossos irmãos operários, que há tanto tempo vem derramando seu sangue na luta pela liberdade do povo”. Porém, quando um delegado socialdemocrata interveio na discussão afirmando que “sem os operários das fábricas, os camponeses não chegam a lugar nenhum”, se deparou com os protestos do auditório que reclamava que “pelo contrário, sem os camponeses os trabalhadores não podem chegar a nenhum lugar”[9]. Aparentemente, a hegemonia proletária não se exercitava pelo simples fato de ser afirmada, inclusive, onde havia um claro gesto de boa vontade e de reconhecimento de interesses comuns. A sofisticação da análise socioeconômica e do cálculo político marxista parecia um fio muito fino, em termos histórico-materialistas, para poder aguentar a afirmação de liderança proletária na revolução democrático burguesa. Inclusive se a organização do POSDR tivesse respondido bem a estas questões, seguiria sem estar em condições de levar sua perspectiva para o meio rural. A hegemonia do proletariado teria que ser estendida por meio de uma rede mais extensa e mais profundamente enraizada que a do partido. Necessitaria uma reavaliação do movimento espontâneo da classe operária, uma reavaliação ocasionada pelo surgimento dos sovietes.

O movimento espontâneo e os sovietes

O exemplo mais destacado da instituição dos sovietes, o Soviete de Deputados Operários de São Petersburgo, surgiu no momento auge da greve geral de outubro. Os operários da capital estavam a par da ideia de representantes eleitos nas fábricas. Sob uma lei de 1903, podiam ser formados conselhos de fábrica [starosti] entre candidatos nomeados pelos trabalhadores para negociar suas reclamações; desde a greve de janeiro, haviam sido organizados comitês de delegados em muitas fábricas e, nos momentos finais do Domingo Sangrento, os operários tomaram parte em um processo de eleição em duas etapas para nomear representantes na frustrada Comissão Shidlovsky, que o governo havia criado para investigar os motivos das detenções de trabalhadores nas fábricas[10]. Além destas experiências práticas, os operários haviam acompanhado durante o verão os esforços dos mencheviques para popularizar consignas a favor do “congresso de trabalhadores” e do “autogoverno revolucionário”[11].

À medida que a onda de greves chegava a São Petersburgo, ocorria em muitas fábricas a eleição espontânea de delegados. Quando os mencheviques colocaram em marcha um comitê de operários para dirigir a greve geral, e buscando ampliar sua representação faziam campanha para a eleição de um representante por cada quinhentos trabalhadores, o faziam sob o argumento do “autogoverno revolucionário”. O Soviete dos Deputados Operários nasceu como um comitê de greve, mas estava animado por uma visão política mais ampla[12]. Em resposta aos imperativos práticos da greve geral, os sovietes começaram a atuar como um “segundo governo”, ocupando-se da vida diária, dando instruções aos escritórios de correios, ferrovias e inclusive à polícia[13]. O alcance do movimento de greve foi tal que, para poder atrair a oposição moderada ao campo da ordem e pacificar a situação, o czar se viu obrigado a conceder liberdades civis, uma assembleia representativa com poderes legislativos, a aceitar responsabilidades dos ministérios e a aprovar o sufrágio universal. Estas iniciativas não romperam o ímpeto revolucionário da classe operária e os sovietes continuaram estendendo-se para a Rússia urbana. Ao se encarregarem das preocupações diárias das massas, ganharam lealdade de uma ampla camada de trabalhadores e atraíram a simpatia e o apoio de setores não proletários da cidade. Retomaram a greve contra a repressão do Estado e a lei marcial, a favor da jornada de oito horas e de um “governo do povo”, e invadiram cada vez mais as prerrogativas do Estado. De acordo com a lógica de uma confrontação ilegal com o Estado czarista, começaram a assumir uma nova dimensão como agentes da insurreição e órgãos de poder estatal revolucionário. Antes de que a autocracia pudesse restaurar sua ordem e desdobrar suas forças contra os levantamentos camponeses, teria que acabar com as insurreições operárias em Moscou e em outras cidades[14].

Quando Lenin regressa do exílio a princípios de novembro, já tinham sido definidos os termos em que os socialdemocratas russos, tanto mencheviques como bolcheviques, debatiam o significado dos sovietes. Eram parte integrante da nova instituição os lemas mencheviques de “autogoverno revolucionário” e do “congresso de trabalhadores” que, através da precoce influência dos mencheviques, haviam chegado a formar parte da própria concepção dos sovietes. Um plano para o autogoverno revolucionário chamava as organizações operárias a tomar a iniciativa e a organizar, de forma paralela as eleições oficiais da Duma, um processo eleitoral aberto às massas. Isto faria que a pressão da opinião pública recaísse sobre o eleitorado oficial, e os representantes do povo poderiam, em um momento favorável, declarar-se em assembleia constituinte. Alcançado ou não este “objetivo ideal”, tal campanha “organizaria o autogoverno revolucionário, que romperia as correntes da legalidade czarista e sentaria as bases para o futuro triunfo da revolução”[15]. A ideia de um congresso operário, como apresentava o teórico menchevique P. B. Axelrod, se incorporaria a própria atividade do proletariado. Este congresso estaria composto por delegados eleitos em assembleia de trabalhadores, que “adotariam as decisões específicas referentes às reclamações imediatas assim como um plano de ação da classe operária”. Debateria a postura que se deveria adotar a respeito “da caricatura de assembleia representativa que apresentava o governo”, os termos apropriados sobre os quais chegar a acordos com os estamentos liberal democráticos, a convocação de uma assembleia constituinte e o tipo de reformas econômicas e políticas que seriam apoiadas nas eleições a estes órgãos, assim como outros temas de interesse público. Para Axelrod, a agitação política ao redor desta ideia “poderia captar dezenas de milhares de trabalhadores”, uma massa suficientemente grande em um período de revolução para “dotar o congresso, as suas decisões e a organização que colocaria em marcha, de uma enorme autoridade, tanto entre as massas menos conscientes do proletariado como aos olhos dos democratas liberais”. Inclusive se o congresso não desse frutos, ao contribuir para a “ilustração política das massas trabalhadoras, fortalecendo seu espírito combativo e desenvolvendo sua capacidade e disposição para defender com a força suas justas demandas”, tal agitação poderia ocasionar uma sublevação[16].

Os mencheviques esperavam que tais propostas proporcionariam um fórum para a própria atividade da classe operária, que poderia culminar na formação de um partido operário de massas. O que fundamentalmente estava em jogo na instituição dos sovietes era a relação entre a classe operária e seu partido político, em vez de uma agenda política mais inclusiva da revolução democrática global. Os bolcheviques de São Petersburgo, incapazes de entender a nova forma institucional em termos diferentes aos mencheviques, reagiram na defensiva. Temerosos de que a influência de uma organização política amorfa, não socialista, pudesse minar a evolução política dos operários em direção à socialdemocracia, receberam com receio a formação dos sovietes. Seu líder, Bogdanov apoiou o gesto de apresentar ao soviete um ultimato: ou se aceitava o programa e a liderança do POSDR ou os bolcheviques se retirariam. Ao final, permaneceram no soviete com a atenção voltada a corrigir tendências espontâneas contrárias aos socialdemocratas e explicar as ideias do partido. Talvez, tendo em conta as anteriores advertências de Lênin contra organizações políticas não-partidaristas que serviam de conduto para a influência burguesa sobre o proletariado, os bolcheviques pretenderam diferenciar entre a necessidade do soviete como “órgão executivo da ação proletária específica” da presunçosa “tentativa, por sua vez, de se converter no líder político da classe operária”[17]. No entanto, no momento da chegada de Lênin, o soviete já havia finalizado “a ação específica do proletariado” para a qual havia sido formado e mostrava poucos sinais de retirada do campo da ação política.

A intervenção de Lênin

Vista a partir da perspectiva do debate sobre o soviete entre os mencheviques e os bolcheviques de São Petersburgo, a intervenção de Lênin pode parecer instável, ambivalente e, em última instância, incoerente. Esta aparência, em minha opinião, é a responsável pela invenção da suposta “revolta contra o leninismo” que Lênin teria apresentado. No entanto, pelo contrário, ao situar o soviete dentro do contexto da lógica estratégica da luta pela hegemonia, Lênin foi capaz de concebê-lo como um dispositivo para o exercício da hegemonia do proletariado e, com isso, mudar os termos do debate. Uma vez que se reconhece esta mudança, a questão da “revolta contra o leninismo” simplesmente colapsa. Examinando sob esta luz a relação entre o movimento espontâneo da classe trabalhadora e o partido marxista, é possível estabelecer a verdadeira evolução de seu pensamento.

Com cautela, Lênin desenvolvia sua interpretação da situação em uma extensa carta, “Nossa tarefa e o Soviete dos Deputados Operários”, enviada ao conselho editorial da revista bolchevique Novaya Zhizn, mas que não chegou a ser publicada. Depois de começar como comitê de greve, o soviete havia assumido espontaneamente a característica de um centro de política revolucionária, capaz de unificar “todas as forças genuinamente revolucionárias” e servir de meio para um levantamento contra o Estado. Por conseguinte, era preciso considerá-lo como “o embrião de um governo revolucionário provisório”. No entanto, visto desta perspectiva, a composição ampla e não partidária do soviete não era uma desvantagem. Pelo contrário, “viemos falando todo o tempo da necessidade de uma aliança militante dos socialdemocratas e dos revolucionários burgueses democratas. Viemos falando disso e os trabalhadores [ao levar adiante o soviete] também o tem feito”. A questão sobre se era o soviete ou o partido o que deveria conduzir a luta política estava mal concebida: tanto o partido como um soviete reorganizado eram igualmente necessários. Inclusive considerando o soviete como “um centro revolucionário que proporciona a liderança política, não era uma organização muito ampla mas, pelo contrário, muito estreita”. O soviete deve constituir um governo revolucionário provisório e deve “recrutar, com este fim, a participação de novos deputados, não somente operários, senão […] dos marinheiros e soldados, […] do campesinato revolucionário, […] e da intelectualidade revolucionária burguesa”[18].

Esta apreciação do soviete estava acompanhada de um chamado à reorganização do partido em consonância com as novas, ainda que precárias, condições de liberdade política. Ainda que devesse manter o aparato clandestino, o partido devia abrir-se aos operários socialdemocratas. Sua iniciativa e criatividade teriam que se somar à tarefa de desenhar novas formas de organização, legais e semilegais, mais amplas e menos rígidas que os velhos circuitos, e mais acessíveis para os “típicos representantes das massas”. De acordo com isto, o partido devia adotar práticas democráticas, incluindo a eleição de delegados de base para o próximo congresso. Os trabalhadores que se uniram ao partido deviam ser socialistas responsáveis ou acessíveis à influência da socialdemocracia. “A classe trabalhadora é instintiva e espontaneamente socialdemocrata, e mais de dez anos de trabalho realizado pelos socialdemocratas produziu um grande resultado para transformar sua espontaneidade em consciência”. Os trabalhadores, preferíveis aos intelectuais no momento de colocar em prática os princípios, devem tomar em suas mãos o tema da unidade do partido[19].

Na análise de Lênin, o soviete figura não só como o organizador da greve geral, mas também como uma organização não partidarista. No entanto, nos dias em que fazia esta afirmação, Lenin apoiava também a crítica bolchevique das “organizações de classe não partidárias”, ao declarar “Abaixo o apartidarismo! O apartidarismo tem sido sempre e em todas os lugares uma arma e uma consigna da burguesia”[20]. Pouco depois declararia os sovietes como “não um parlamento operário, um órgão de autogoverno do proletariado, nem um órgão de autogoverno de maneira geral, mas uma organização de luta para alcançar os objetivos finais”[21]. Havia proclamado o soviete tão necessário como o partido para proporcionar uma liderança política ao movimento, e havia destacado que o próprio partido necessitava se revitalizar mediante a influência dos “representantes típicos das massas”. Entretanto, ao mesmo tempo, advertia “que a necessidade de organização que os operários sentem de maneira tão urgente agora”, sem a intervenção dos socialdemocratas, “encontrará sua expressão em formas distorcidas e perigosas”. Reconhecia que ali onde o partido tendia à demagogia ou se encontrasse sem um programa sólido, sem conceitos táticos e de experiência organizativa, uma entrada repentina de novos membros, sem treinamento nem experiência comprovada, poderia ser uma ameaça que provocaria a dissolução da vanguarda consciente da classe nas massas politicamente amorfas[22]. Ainda que os operários fossem “instintiva e espontaneamente socialdemocratas”, ainda era necessário esperar uma “hostilidade contra a socialdemocracia entre as filas do proletariado”, uma hostilidade que muitas vezes tomava a forma do apartidarismo. A transformação  do proletariado em uma classe dependia do “crescimento não só de sua unidade, mas também de sua consciência política” e a transformação da “espontaneidade em consciência” seguia sendo concebida em relação à intervenção da vanguarda marxista na luta de classes espontânea[23].

A resposta de Lênin aos sovietes e ao movimento espontâneo da classe operária que os originou, se considerada em abstrato, fora da lógica da luta pela hegemonia, tem a aparência de cair em uma confusão de formulações conflitivas. Seu discurso pode, então, ser dividido entre os elementos que refletem a realidade da luta de classes espontânea e os que marcam a resistência do dispositivo bolchevique. Este procedimento, que reduz o discurso de Lenin a um campo de batalha de forças políticas conflitantes, está sistematicamente desenvolvido pelo historiador menchevique Solomon Schwarz, mas também está implícito na interpretação de Liebman sobre a “rebelião doutrinal” de Lênin. No entanto, se examinarmos a posição de Lênin sobre os sovietes, no contexto da luta por hegemonia, isso se converte em algo supérfluo.

Os sovietes e a luta pela hegemonia

A disposição “instintiva e espontânea para a socialdemocracia” que Lênin atribui à classe operária após o triunfo da greve geral não consistia na busca por objetivos especificamente socialistas. Em um ensaio no qual explicava o predomínio da ideologia e das instituições não partidárias no movimento revolucionário, caracterizava “a luta dos trabalhadores pelo socialismo e sua aliança com o partido socialista […] [inclusive] nas primeiras etapas do movimento”, como consequência da “especial posição que ocupa o proletariado na sociedade capitalista”. Ao mesmo tempo afirma que, não obstante o exame de petições, exigências, instruções que surgiam das fábricas, oficinas, regimentos e distritos de toda Rússia, era possível encontrar um predomínio de “reivindicações de direitos elementares”, superiores às “reinvindicações específicas de classe”; “as reivindicações autenticamente socialistas são algo ainda por vir […] inclusive o proletariado está levando a cabo uma revolução dentro dos limites de um programa mínimo, não de um programa máximo”[24]. Se o movimento da classe trabalhadora era espontaneamente socialdemocrata, não o era por conta da sua consciência, mas sim por conta da sua prática, do que fazia e como fazia. Para poder entender como isto era possível, a prática do movimento operário espontâneo deve ser situada na relação com a luta entre dois caminhos possíveis da revolução democrático-burguesa: o caminho da burguesia e dos terratenentes e o caminho do proletariado e dos camponeses.

Em primeiro lugar, a greve geral tornou inviável a proposta da Duma, provocando a deterioração do compromisso que ela supunha entre o czar e a burguesia. A luta revolucionária dos trabalhadores, por conta disso, escapou espontaneamente da hegemonia estratégica da burguesia liberal, por meio de seu espírito de luta, sua tenacidade e seus métodos “plebeus”, mesmo que, por ora, não de maneira consciente e, portanto, de uma maneira não duradoura. Depois da “primeira grande vitória da revolução urbana”, caberia ao proletariado “ampliar e aprofundar as bases da revolução, estendendo-as às áreas rurais […]. A guerra revolucionária difere de outras guerras, nas quais se obtém as principais reservas do campo de antigos aliados de seu inimigo, de antigos partidários do czarismo, ou do povo que obedecia ao czarismo cegamente. O triunfo da greve política de toda Rússia teria uma influência maior na mente e nos corações dos camponeses que as palavras confusas de qualquer lei ou manifesto”[25].

O movimento espontâneo que levou à greve geral não somente abriu a possibilidade de uma decisiva transformação revolucionária; também ilustrou materialmente o exercício da hegemonia por meio da produção e/ou imposição de faits accomplis (fatos consumados), e da hegemonia ideológica por meio da geração e transmissão de consciência, de crença e convicção. Ela pressagiava a hegemonia do proletariado como reorganizador do sistema de alianças das forças políticas e sociais, não somente desestabilizando as forças do inimigo, mas também mobilizando uma incipiente coalizão revolucionária. A classe operária era “espontaneamente socialdemocrata” na medida em que sua luta espontânea era congruente com a orientação estratégica da socialdemocracia russa em direção à hegemonia do proletariado na revolução democrático-burguesa.

Os sovietes, surgidos no curso da greve geral, proporcionavam uma forma institucional através da qual a aliança dos democratas revolucionários podia se realizar a escala de massas. Dado que a independência política do proletariado em relação à burguesia liberal exigia sua aliança com outros democratas revolucionários, especialmente com o campesinato, para poder realizar uma meticulosa destruição das bases do czarismo, os sovietes constituíam a forma pela qual “a marca da independência do proletariado” podia ser estampada sobre o caminho da revolução. Ainda que tivessem surgido do movimento operário, Lenin não os considera exclusivo dos operários. Realmente, o que era decisivo na sua análise era que, como modo de organização, os sovietes constituíam um modo de abertura às massas de trabalhadores e camponeses, intelectuais e pequena burguesia, marinheiros e soldados, enfim, um terreno político onde podia tomar forma uma coalizão de democratas revolucionários. Como tal, e somente como tal, representavam o embrião de um poder estatal democrático e revolucionário.

Esta caracterização dos sovietes foi pontualmente formulada em uma resolução bolchevique preparada para o Congresso de Unidade do POSDR de abril de 1906 e elaborada com mais detalhe em uma intervenção mais ampla, “A vitória dos cadetes e as tarefas do partido dos trabalhadores”, que se distribuiu entre os delegados do congresso. De acordo com esta resolução, os sovietes, que surgiram “espontaneamente no curso das massivas greves políticas, como organizações não partidárias, das amplas massas de operários”, se transformaram necessariamente “ao absorver os elementos mais revolucionários da pequena burguesia […] em órgãos da luta geral revolucionária”; o significado de formas de autoridade revolucionária tão rudimentares dependia completamente da eficácia do movimento na insurreição[26]. No entanto, no contexto deste movimento, os “Sovietes de Operários, Soldados, Ferroviários e Camponeses” realmente eram novas formas de autoridade revolucionária:

Estes organismos foram criados exclusivamente pelos segmentos revolucionários do povo; formados à margem de leis e regulações, de uma maneira totalmente revolucionária, como produto do genuíno gênio do povo, como manifestação da atividade independente do povo, que […] estava se livrando dos grilhões policialescos. Enfim, apesar de seu caráter rudimentar, espontâneo, amorfo e de características difusas, eram realmente órgãos de autoridade tanto em sua composição como em sua atividade […]. Quanto ao seu caráter político e social, eram os rudimentos da ditadura dos elementos revolucionários do povo[27]

Estabelecida na luta contra o ancien régime, a autoridade dos sovietes e das organizações afins não se derivava da força das armas, nem do poder do dinheiro, nem dos hábitos de obediência às instituições consolidadas, mas sim da “confiança das grandes massas” e do recrutamento de “todas as massas” para a prática do governo. A nova autoridade não envolveu suas atuações no segredo, no ritual ou na profissão de conhecimento e experiência: “não escondia nada, não tinha segredos ou regulações, nem formalismos […]. Era uma autoridade aberta a todos […] surgida diretamente das massas, um instrumento direto e imediato das massas populares, da sua vontade”. Dado que as massas também incluíam aqueles que tinham estado atemorizados pela repressão, que estavam degradadas pela ideologia, pelos hábitos ou pelos preconceitos, ou simplesmente tendiam a manifestar uma indiferença ignorante, por conta disso, a autoridade revolucionária dos sovietes não estava exercida por todo o povo, senão pelo “povo revolucionário”. Este último, entretanto, explicava pacientemente as razões de seus atos e “de boa vontade recrutava todo o povo não só para “administrar” o Estado, mas também para dirigi-lo e, especialmente, para participar na organização dele[28]. A nova autoridade não constituía apenas um Estado embrião, mas também um embrião de anti-Estado. Esta relação ainda não tinha se tornado evidente, mas se apresentava uma certa dissolução da oposição entre a sociedade e o aparato político, entre o povo e a organização do poder do Estado. Os sovietes proporcionavam uma forma institucional em que as lutas sociais, econômicas e culturais das massas, de operários e camponeses, podiam se combinar com a luta revolucionária pelo poder político, amplificando-se reciprocamente e se reforçando entre elas.

Autogoverno ou hegemonia revolucionária?

Adequadamente compreendida, a crítica de Lenin ao “autogoverno revolucionário”, ao “congresso de trabalhadores”, e ao princípio do apartidarismo, não só contradiz sua análise dos sovietes em 1905-1906, mas também surge logicamente dela. Invocar o tema do “autogoverno revolucionário” para caracterizar os sovietes era invocar a orientação política daqueles que lhe davam validez, como os mencheviques. Para Lênin, eles simplesmente justapunham o exercício do “autogoverno revolucionário” com a cooperação nas cerimônias do governo czarista, sem uma orientação estratégica sobre a inevitabilidade da repressão contrarrevolucionária. Por isso, concebido à margem da lógica da luta pela hegemonia, o “autogoverno” representava uma negação da necessidade de organizar a insurreição revolucionária, ou pelo menos um rechaço a tomar iniciativa sobre ela. Neste contexto, não sinaliza um chamado a favor da ditadura do povo revolucionário, mas sim a subordina a um experimento de pedagogia política. Este era o alvo das críticas de Lenin.

O mesmo acontece a fortiori com formulações tais como “parlamento do trabalho” e “congresso dos trabalhadores”, que traziam adicionalmente a desvantagem de identificar os sovietes como organizações não partidárias da classe operária. Demarcados desta maneira, os sovietes excluiriam as massas não proletárias e desvalorizariam o papel do partido socialdemocrata. A estrutura não partidária dos sovietes era essencial para a análise de Lênin, precisamente porque proporcionava um terreno político em que podia formar-se uma coalizão do proletariado, da pequena burguesia e das massas camponesas. O não partidarismo indubitavelmente era um princípio burguês, mas na medida que o processo revolucionário exigia uma aliança dos operários com os democratas burgueses, deixava de ser um inconveniente para ser um valor ativo. Para poder manter a independência política da classe trabalhadora, a liderança do partido socialdemocrata era essencial e, por mais paradoxal que possa parecer, esta liderança se exercia orquestrando uma aliança de classe ao redor da organização de uma insurreição revolucionária e, em consequência, desvelando a confusão estratégica representada pela ideia de um “congresso de trabalhadores”.

Como se demonstrou com o surgimento dos sovietes, a inclinação socialdemocrata espontânea da luta operária era algo mais que simples receptividade às lições políticas da análise de classe marxista. Os trabalhadores não haviam se limitado simplesmente a pôr em prática conselhos proporcionados pela teoria marxista; haviam demonstrado ser eles mesmos capazes de inovação política e, ao fazê-lo, haviam gerado na prática uma solução a um problema chave da teoria. No entanto, aquilo que eles tinham realizado à maneira socialdemocrata havia sido produto da sua espontaneidade, não da consciência. Foi Lênin que, ao situar suas inovações no contexto da lógica político-estratégica da luta pela hegemonia, proporcionou a teoria de sua prática. O que a classe operária havia feito exatamente? Não apenas tinha perturbado momentaneamente a hegemonia da burguesia liberal e adquirido experiência política; ela também havia levantado uma nova forma institucional através da qual as diversas forças democráticas revolucionárias podiam enlaçar-se entre si em uma coalizão de massas, a aliança de trabalhadores e camponeses, e assumir o poder do Estado. Assim, ficava demonstrada sua própria atitude para exercer a hegemonia na revolução democrático-burguesa.

Este potencial hegemônico do soviete como organização só podia se manter através de uma ação conforme à lógica político-estratégica da luta pela hegemonia. Por isso, necessitava, por um lado, desenvolver uma força armada para enfrentrar e derrotar a violência contrarrevolucionária e, por outro, desenvolver uma análise marxista para controlar as diversas conjunturas da luta política e conter o nascimento da confusão ideológica. O soviete não podia tornar supérflua a intervenção da vanguarda marxista, mas os próprios sovietes, assim como formas similares de organização, haviam chegado a encarnar um aspecto da luta pela hegemonia do proletariado que não era um requisito menor. Ao deslocar as formas convencionais que davam à política sua forma e textura, os sovietes reorganizaram o espaço da vida política; ao abrir o processo de tomada de decisões políticas ao escrutínio das massas populares, as animaram para que entrassem na política; ao fundir as queixas e exigências sociais, econômicas e culturais em seu assalto ao regime autocrático, ampliaram palpavelmente o leque da luta política; ao superar as formalidades que obstaculizavam o caminho da participação na luta, facilitaram a confluência das forças populares com toda sua contraditória diversidade. De todas essas maneiras, os sovietes reestruturaram o terreno da luta política sobre certos eixos que permitiam ao partido marxista de vanguarda seguir de forma mais efetiva o projeto político da hegemonia do proletariado. Com esta transformação do terreno da luta, a instituição dos sovietes representava uma conexão entre a ideia da hegemonia do proletariado como projeto de partido e a inscrição material da hegemonia do proletariado no caminho da revolução democrático-burguesa. Ao teorizar os sovietes neste contexto, Lênin podia traçar uma concepção histórico-materialista coerente da hegemonia do proletariado.

Alguns anos depois, sem fazer referência explícita aos sovietes, Lênin recorreu a uma metáfora espacial para definir a ideia da hegemonia do proletariado:

Quem confina a classe a um terreno cujos limites, formas e contornos estão determinados ou permitidos pelos liberais não entende as tarefas da classe. Somente entende as tarefas da classe somente quem dirige sua atenção (consciência, atividade prática etc.) para a necessidade de reconstruir esse terreno, suas formas, contornos, etc., para estendê-lo mais além dos limites autorizados pelos liberais. […] A diferença entre as duas formulações […] é que a primeira exclui a ideia de “hegemonia” da classe trabalhadora, enquanto a segunda, de maneira deliberada, define a própria ideia[29].    

A lógica político-estratégica da luta pela hegemonia estava baseada na luta de classes sociais. Ditava a preparação para o conflito armado, a disposição para desenvolver as artes da insurreição. Envolvia uma batalha de ideias, disputada com a ciência da análise marxista e a arte da persuasão. Mas não podia se desconectar da luta sobre a verdadeira forma, contorno e dimensão do campo de batalha. Esta luta podia ser travada de maneira consciente de acordo com as artes organizativas, mas muitas vezes surgiria espontaneamente, resultando de variações súbitas ou desafios a convenções estabelecidas cuja relevância se encontrava reforçada ou transformada, de maneiras nunca vistas, pelo puro peso da participação do povo. As convenções que estabelecem as expectativas que cada um dos atores políticos tem sobre os demais, desdobradas no meio material da política, dão forma a um terreno para a ação que, apesar de estar sujeito a mudanças nas mãos dos próprios envolvidos, também oferece várias possibilidades para a ação e exerce um tipo de restrição estrutural sobre os planos dos atores. Este terreno, ao qual os atores individuais chegam como os jogadores de beisebol que tem que se adaptar à peculiaridade do estádio, não é exatamente o da persuasão nem o da coação, senão, antes, o da força das circunstâncias. Por isso, o exercício da hegemonia se faria evidente não só como o consentimento à persuasão ou o medo da coação, mas também como a adaptação às circunstâncias. O movimento espontâneo da classe trabalhadora tinha transformado as circunstâncias da ação política, mediante a criação dos sovietes. Algumas restrições se tornariam mais relevantes e outras menos, algumas possibilidades mais reais e outras menos, algumas ameaças mais plausíveis e outras menos, alguns argumentos mais persuasivos e outros menos. Ao reconstruir o terreno político, a criação dos sovietes permitia e/ou exigia aos atores, não só aos próprios trabalhadores mas também a camponeses, soldados, marinheiros, funcionários, intelectuais (e, claro, aos proprietários de terras e à burguesia) reorientar-se em relação com a luta política da classe trabalhadora pela hegemonia na revolução democrático burguesa.

Teoria e prática da hegemonia

Aplicando a lógica político-estratégica da luta pela hegemonia à análise dos movimentos revolucionários espontâneos de camponeses e trabalhadores, Lenin foi capaz de atribuir ao projeto da hegemonia do proletariado uma orientação mais concreta. Antes da revolução, ele havia descrito o exercício da hegemonia através da analogia com uma tribuna do povo, cuja função era articular todas e cada uma de suas queixas contra o regime; este papel universal se conserva, mas com o surgimento de um movimento camponês revolucionário, foi necessário que a hegemonia adotasse a forma específica de uma aliança entre a classe trabalhadora e camponeses. Anteriormente, a hegemonia aparecia como um tipo de influência generalizada do proletariado, passível de ser confundida, na prática, com a mera difusão da propaganda do partido; mas com o surgimento de uma forma institucional, o soviete, capaz de estabelecer a aliança de trabalhadores e camponeses, e de exercer de maneira revolucionária o poder do Estado, a hegemonia podia ser concebida concretamente, de maneira a integrar a ação de massas da classe trabalhadora.

A lógica político-estratégica que atuava na análise política de Lênin requeria receptividade às variações conjunturais da luta de classes. Isso outorgava um caráter reflexivo à instância teórica, permitindo a Lênin que a experiência prática dos movimentos espontâneos ocupasse um vazio da teoria marxista. A ideia da própria atividade do proletariado, que formava a essência do conceito menchevique de hegemonia, era adaptada em um sentido bem diferente. Adaptada aos limites de qualquer situação, ela se manifestava de forma diferente, de acordo com a variação das circunstâncias da luta de classes. No entanto, qualquer que fosse a forma assumida, por não estar nunca a atividade própria da classe operária situada em relação com a lógica estratégica da luta pela hegemonia, o que a caracterizou foi que prefigurava o objetivo socialista, ela o situava como intenção. Neste sentido não havia distância entre teoria e a realidade, nenhuma lacuna teórica, mas tampouco a possibilidade de crescimento teórico. A forma de atividade própria adequada a uma situação determinada teria de se desenvolver espontaneamente de forma ad hoc. O chamado à atividade própria do proletariado se ajustaria ao terreno de luta imposto pela derrota da revolução e, em vez de combater nos limites deste terreno, os mencheviques permitiriam que o aparato ilegal do partido caísse em desuso e se degradasse. No mapa estratégico de Lênin, os mencheviques sempre tinham figurado como a via para a hegemonia da burguesia liberal, mas isto – afirmava Lênin – conduziria ao abandono do autêntico projeto de hegemonia proletária na revolução democrático-burguesa. Os mencheviques abandonariam progressivamente a linguagem da hegemonia. Mas nunca tinham mantido – e por isso não podiam abandoná-lo – o conceito de hegemonia da maneira que Lênin o havia utilizado.

Do ponto de vista de Lenin, o discurso menchevique da hegemonia podia caracterizar-se, mais exatamente, como mais uma forma de inserção subalterna no marco da evolução da hegemonia burguesa. E neste ponto de vista, a análise que os mencheviques faziam dos sovietes como órgãos de autogoverno dos trabalhadores apresenta uma curiosa similitude com a discussão sobre hegemonia e contra hegemonia do “pós-marxismo” contemporâneo[30]. Assim como o autogoverno menchevique não significa uma luta para derrubar o poder autocrático do Estado, mas sim um fórum onde os trabalhadores podem educar politicamente a si mesmos, um abrigo resguardado do poder do Estado, a contra hegemonia pós-marxista não significa um projeto de reconstrução sobre novos esquemas e sob uma nova liderança, da ordem social burguesa, mas sim uma crítica de qualquer projeto de hegemonia como uma declaração arrogante que visa descartar a diversidade inovadora do processo de autodefinição individual e, com isso, “costurar” a ordem social. Certamente, a própria substituição do termo usado por Lênin (e por Gramsci) de “hegemonia proletária” pelo de “contra hegemonia” sugere que a alternativa ao governo da burguesia não é, de nenhuma forma, uma nova ordem social, mas sim um universo de indivíduos definidos autonomamente. A sarcástica declaração de Marx na “Crítica ao programa de Gotha” de que a burguesia tinha boas razões para atribuir um “poder criativo sobrenatural” ao trabalho[31], sugere de qualquer forma que, da mesma maneira que ninguém pode simplesmente produzir a si mesmo, também não pode simplesmente se auto definir. Sempre estamos em um contexto, e por isso, sempre estamos sendo definidos a cada momento, inclusive se os termos pelos que somos entendidos e/ou entendemos são objeto de impugnação. Numa sociedade de classes, o material disponível para o difícil trabalho de transformar contextos e redefinir projetos, aspirações e identidades políticas, é proporcionado pelo movimento histórico da luta de classes e, neste contexto, as relações sociais, políticas e ideológicas do capital não representam um simples pano de fundo estático no qual os trabalhadores e intelectuais revolucionários lutam para dar forma a um projeto socialista: da mesma maneira que no transcurso de suas lutas os operários produziram inovações espontâneas, a classe dirigente inova através de seus representantes políticos e ideológicos, em resposta às lutas da classe operária. O processo de avançar um projeto socialista, de elaborar a autodefinição política do movimento da classe operária, considera inevitável e ativamente seu adversário. Fazer considerações sem ter isso presente é aceitar como dados os contornos do terreno político e, portanto, assumir, nos mesmos termos da própria luta contra hegemônica, a posição de subalterno. Estritamente falando, supõe converter a liderança política em algo impensável.

O persistente rechaço de Lênin em equiparar a política com a pedagogia estabelece, pelo contrário, um campo conceitual que abre à analise os matizes da relação de liderança. Parte da liderança é a educação política dos liderados, mas somente uma parte; as massas e a vanguarda atuam de maneira diferente dentro da luta de classes, potencialmente de forma complementar, mas algumas vezes de forma oposta. O peso dos indivíduos organizados postos em movimento, das massas, pode levar a aparição de forças políticas, de possibilidades e de posições imprevistas. Mas uma posição pela qual se aposta hoje sempre pode ser invertida e transformada amanhã, de acordo com o cálculo estratégico do adversário. Por isso, a luta pela hegemonia supõe a habilidade para adaptar-se às mudanças das conjunturas da luta política, de combinar a apreciação das forças subjacentes que dão forma à lógica da luta com a abertura às maneiras em que os diferentes atores, vanguardas e massas, adversários e aliados, podem inovar na luta. A liderança na luta de classes exige, pois, uma vanguarda consciente que seja sensível às lutas das massas e disposta a, quando seja necessário, contrapor sua análise política ao movimento espontâneo. Poderíamos objetar que tal oposição entre dirigentes e dirigidos proporciona simplesmente uma racionalidade sofisticada para a ditadura da minoria. No entanto, essa objeção seria convincente somente se os conceitos e distinções que formam a abordagem de Lênin da liderança não permitissem uma análise maior da lógica da luta de classes. A questão da verdade da análise é, nesse sentido, inevitável. E se a análise de Lênin ilumina a lógica e as dinâmicas dos movimentos de massas, então, a verdadeira questão é a que Gramsci propunha: “na formação dos líderes, há uma premissa fundamental: a intenção é a de que sempre deverá haver dirigentes e dirigidos ou o objetivo é criar as condições para que esta divisão deixe de ser necessária?”[32].


[1] Alan Shandro, “Consciousness from without: Marxism, Leninism and the Proletariat”, Science and Society LIX, 3 (otoño de 1995), pp. 268-297.

[2] V. I. What Is to Be Done? [¿Que hacer?] [1902], Collected Works V, Moscú, Progress Publishers, 1961, p. 386.

[3] V. I. Lenin, “A Talk with Defenders of Economism” [Charla con los defensores del economicismo] [1901], Collected Works V, cit., p. 316.

[4] Marcel Liebman, “Lenin in 1905. A Revolution That Shook a Doctrine”, Monthly Review (abril de 1970), p. 73.

[5] M. Liebman, Leninism under Lenin, Londres, Jonathan Cape, 1975, p. 29.

[6] Ibid., pp. 29-31.

[7] M. Liebman, “Lenin in 1905”, cit., pp. 57-75.

[8] V. I. Lenin, “Two Tatics of Social-Democracy in the Democratic Revolution” [Dos tácticas de la socialdemocracia en la revolución democrática] [1905], Collected Works IX, cit., p. 18.

[9] Maureen Perrie, The Agrarian Policy of the Russian Socialist-Revolutionary Party, Cambridge, Cambridge University Press, 1976, pp. 110-111.

[10] Sidney Harcave, First Blood. The Russian Revolution pf 1905, Londres, Bodley Head, 1965, pp. 181-186; Oskar Anweiler, The Soviets. The Russian Workers Peasants, and Soldiers Councils, 1905-1921, Nueva York, Pantheon Books, 1974, pp. 24-27, 32-37.

[11] O. Anweiler, The Soviets, cit., pp. 45-46.

[12] Solomon Schwarz, The Russian Revolution of 1905, Chicago, University of Chicago Press, 1967, pp. 168-178.

[13] O. Anweiler, The Soviets, cit., pp. 55-58.

[14] S. Harcave, First Blood, cit., pp. 233-242; Leon Trotsky, 1905, Harmondsworth, Penguin Publishers, 1973, pp. 249-264.

[15] V. I. Lenin “A Most Lucid Exposition of a Most Confused Plan” [Una lúcida eposición de un plan confuse] [1905], Collected Works IX, cit., p. 224; S. Schwarz, The Russian Revolution of 1905, cit., pp. 168-171.

[16] Pavel B. Axelrod. “The People’s Duma and the Workers’ Congress” [1905], en Abraham Ascher (ed.), The Mensheviks in the Russian Revolution, Nueva York, Cornell University Press, 1976, pp. 65-67.

[17] S. Schwarz, The Russian Revolution of 1905, cit., pp. 186-187; V. I. Lenin, “A New Revolutionary Worker’s Association” [Una nueva asociación obrera revolucionaria] [1905], Collected Works VII, pp. 507-508.

[18] V. I. Lenin, “Our Tasks and the Soviet of Worker’s Deputies: A Letter to the Editor” [Nuestra tarea y el soviet de los diputados obreros: carta al editor] [1905], Collected Works X, cit., p. pp. 21-23. Énfasis en el original.

[19] V. I. Lenin, “The Reorganisation of the Party” [La reorganización del Partido] [1905], Collected Works X, cit., pp. 34, 32.

[20] V. I. Lenin, “Learn from the Enemy” [Aprender del enemigo] [1905], Collected Works X, cit., p. 61.

[21] V. I. Lenin, “Socialism and Anarchism” [Socialismo y anarquismo] [1905], Collected Works X, cit., p. 72.

[22] V. I. Lenin, “The Reorganisation of the Party”, Collected Works X, cit., p. 29, 32.

[23] V. I. Lenin, “Learn from Enemy”, Collected Works X, cit., p. 60. Énfasis en el original.

[24]

[25] V. I. Lenin, “The first Victory of the Revolution” [La primera victoria de la revolución] [1905], Collected Works IX, cit., p. 433.

[26] V. I. Lenin, “A Tactical Platform for the Unity Congress of the RSDLP: Draft Resolutions” [Plataforma táctica para el Congreso de Unidad del POSDR: proyectos de resoluciones] [1906], Collected Works X, cit., p. 156.

[27] V. I. Lenin, “The Victory of the Cadets and the Tasks of the Worker’s Party” [La victoria de los cadets y las tareas del partido obrero] [1906], Collected Works X, cit., p. 243. Énfasis en el original.

[28] Ibid., pp. 244-245, 247. Énfasis en el original.

[29] V. I. Lenin, “Fundamental Problems of the Election Campaign” [Problemas fundamentals de la campaña electoral] [1911-1912], Collected Works XVII, cit., pp. 422-423. Énfasis en el original.

[30] Ernesto Laclau y Chantal Mouffe, Hegemony and Socialist Strategy. Towards a Radical Democratic Politics, Londres, Verso, 1985 [ed. Cast.: Hegemonia y estrategia socialista. Hacia la radicalización de la democracia, Madrid, Siglo XXI, 1987].

[31] Karl Marx, “Critique of the Gotha Programme” [1875], en The First International and After, Harmondsworth, Penguin Publishers, 1974, p. 341 [ed. Cast.: K. Marx y F. Engels, Obras escogidas, 2 vols., Madrid, Akal, 1975].

[32] Antonio Gramsci, Selections from the Prision Notebooks, Q. Hoare y G. Nowell Smith (eds.), Nueva York, International Publishers, 1971, p. 144.

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