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A melancolia na universidade brasileira

A refeição do homem cego, Pablo Picasso (1903).

Por Juliana Mesomo

Imagem: A refeição do homem cego, Pablo Picasso, 1903.

No auge da sua democratização, a universidade pode ter perdido a capacidade de ser um lugar para desenvolver o pensamento, para produzir conhecimento crítico e alimentar debates autênticos. Se essa perda for real, não nos adianta de nada negá-la. Também não serve, é claro, embarcar num riso nervoso e desesperado que não admite mais nenhuma esperança quanto aos objetivos do nosso trabalho. Temos que encarar a perda, fazer o luto e decidir, juntos, o que fazer.

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Há algumas semanas, conheci “Tina”, personagem de um quadro de humor veiculado através de um perfil da rede social Instagram chamado “A vida de Tina”. O quadro, “Expiando a culpa burguesa”, mostra Tina em diferentes versões – artista, empreendedora, acadêmica, etc. –, sempre buscando uma artimanha para expiar sua “culpa” por ser, no fundo, um sujeito inerme politicamente. Na sua versão acadêmica, Tina surge no início do quadro vestida de vermelho. Ela está agitando uma bandeira da mesma cor, direcionando o gesto para alguma multidão que passaria sob a janela de seu apartamento, localizado na cidade de São Paulo. Enquanto agitava a bandeira, emocionada, ela ainda bradava: “abaixo a opressão! Abaixo a opressão!”. Em seguida, dando-se conta da urgência clamada pelas ruas, Tina determina que “precisa fazer alguma coisa”. A voz da nossa protagonista lembra uma dublagem de baixa qualidade, o que deixa tudo mais risível. Diante da constatação de que “algo precisa ser feito”, ela empreende um “giro” radical na sua produção acadêmica, adquire uma linguagem crí(p)tica para materializar o alcance da sua virada e dita palestras onde é aplaudida por um público que parece se sentir contemplado diante das suas colocações. Em paralelo às cenas que expressam sua radicalização teórica, Tina é “flagrada” em deslizes que denotam não só seu pertencimento de classe, quando profere comentários elitistas, mas também o caráter falso ou inócuo do seu giro. Por exemplo, com uma taça de vinho na mão, numa espécie de confraternização pós-evento acadêmico, Tina comenta a uma pessoa que se encontra fora do enquadramento da câmera sobre um rapaz com o qual estaria flertando. Ela se mostra surpresa: “ele não sabe quem é Heidegger! – diz, atônita – Como eu poderia sair com um cara que não sabe quem é Heidegger?!”. Logo, mostra-se chateada com sua empregada doméstica que teria bagunçado seus volumes d’O Capital. No final, depois de declarar sua convicção de que “nossas palavras podem mudar o mundo”, a tese de doutorado de Tina aparece abandonada numa biblioteca da universidade. Devo dizer que ri com gosto: a caricatura me pareceu acertar em cheio ao descrever os giros inócuos (porque idealistas) dos acadêmicos ditos radicais, que chegam ao limite do que pode ser dito e escrito, mas mantêm intactas as hierarquias institucionais que lhes conferem o poder de falar (mesmo que dizendo, efetivamente, muito pouco) e serem ouvidos. Achei fina a ironia, sobretudo nas frases bobas como “abaixo a opressão” e “nossas palavras podem transformar o mundo”. Vale lembrar que elas só parecem bobas porque estamos rindo delas: na verdade, são repetidas de maneira séria em congressos e palestras.

Depois de assistir a peça, fui revisar as reações dos usuários das redes sociais. Me deparei com algumas ponderações de pessoas que se mostraram preocupadas com o tipo de crítica insinuada no quadro de humor. Essas pessoas sinalizavam a desvantagem atrelada à circulação dessas ironias dissolutivas, vistas como “ataques” que teriam aparecido na cena pública justamente num período em que a universidade deixou de ser majoritariamente branca e burguesa. Meditando sobre a questão, concluí que, sim, esse tipo de peça é parte de uma atitude autodestrutiva, embora isso não seja culpa nem da humorista, nem de quem riu dela autenticamente. Na verdade, é a violenta graça dessa piada o que está em questão. Não se trata de um problema fácil de resolver. Eu diria, correndo o risco de supervalorizar tudo isso, que estamos, já faz tempo, em meio a um processo de auto aniquilação melancólica, que atinge tanto a intelectualidade quanto o campo da esquerda em geral (ou o que ainda resta dele). A melancolia é o processo que ocorre quando perdemos um objeto (um ser querido, um horizonte de possibilidades, enfim, um objeto de afeto qualquer) e estamos impedidos ou não conseguimos fazer o luto dessa perda. Impedido de lidar com a perda, o “eu” (ou o “nós”, neste caso) tenta incorporar dentro de “si mesmo” o objeto perdido. Ele reproduz dentro de si a figura perdida e a mantém, de alguma forma, viva, dirigindo a ela todas as repreensões e admoestações que faria caso o objeto de seu afeto estivesse realmente presente. No entanto, o objeto só subsiste como um espectro dentro de nós. Preocupado, ainda, em não destruir o objeto de seu amor que vive como um fantasma no interior do “ego”, o melancólico desloca – num segundo movimento – essas repreensões e críticas em direção a si mesmo, pressentindo que, se as dirigisse ao objeto, este seria inevitavelmente destruído. Tal configuração psíquica cria uma situação insuportável para o “ego”, que dirige tudo quanto é crítica e repreensão a si mesmo (críticas e repreensões cujo alvo original seria o objeto perdido). No fim das contas, a tendência suicida é o horizonte desse sujeito: a única forma de manter vivo o objeto que sobrevive de maneira espectral no interior do “ego” é aniquilando aquele que o ameaça, ou seja, nós mesmos.

A melancolia, isto é, essa maneira um pouco torta de viver as perdas, desata um ciclo de auto aniquilação. Impedidos de criticar o objeto perdido, e não admitindo seu desaparecimento, criticamos a nós mesmos num looping eterno. Críticas cada vez mais violentas e dissolventes, piadas cada vez mais ácidas. Eu mesma defendi em relação ao quadro humorístico da “Tina” (versão acadêmica) que a única saída para enfrentar o mal-estar que ele provocava seria fazer “piada da piada”, “crítica da crítica” e assim por diante… até que isso se torne a consistência do nosso fazer e do nosso dizer. E essa já é a sensação mais presente no tipo de abordagem irônica e agressiva dos problemas nas redes sociais: nesse ambiente, parece que nada se sustenta e que nenhuma posição é suficientemente boa. Trata-se de uma impressão bastante precisa e objetiva: um impulso autodestrutivo está efetivamente em curso e eu não atribuiria essa dinâmica apenas aos algoritmos que comandam nossa existência virtual. Por outro lado, defender-se das críticas e das piadas tampouco é um caminho interessante: diante do medo de destruir o objeto perdido que mantém dentro de si, o “ego” demonstra excessiva “ansiedade” pelo bem-estar e preservação do objeto – como apontou Judith Butler em “Quadros de guerra” (2015) –, objeto que só sobrevive mesmo dentro da sua psique. Assim, o sujeito melancólico encara qualquer coisa dita ou insinuada como uma agressão, um ataque ou uma perseguição insuportável ao seu objeto querido — e, para sempre, perdido. Essa é a outra posição observada na recepção ao quadro de humor da Tina, na sua versão acadêmica: não podemos fazer críticas à universidade, porque “as próprias críticas” alimentariam sua destruição. Mas a crítica niilista e o excessivo zelo são, ambos, frutos de um mesmo processo, isto é, remetem à postura que tenta negar ou ocultar a perda de um horizonte. A primeira lida com a perda de maneira irônica, distante e descomprometida – como que dizendo: “isto aconteceu, mas não tem nada a ver comigo”. A segunda, adota uma atitude preservacionista, buscando manter vivo, a todo custo, um objeto de afeto que já está definitivamente morto.

Eu considero extremamente válida a preocupação com o fato de a universidade sofrer ataques no seu momento de maior popularização e ampliação para sujeitos que, até então, estavam afastados dos seus corredores. No entanto, devemos separar críticas e ironias do processo de depredação governamental em curso. Por um lado, temos as medidas do governo de direita, que corta investimentos nas instituições de Ensino Superior e desmerece o trabalho de pesquisadores. Nosso problema diante destes ataques é, antes, nossa incapacidade de reagir a eles. Há tempos não se via um ataque tão brutal às intituições de ensino e pesquisa no país e tão pouca capacidade de revertê-lo. Não conseguimos juntar forças para reagir e deveríamos nos perguntar o porquê. Por outro lado, a sensação de fragilidade que nos acomete não tem como causa as críticas em si ou as ironias. Estas últimas são totalmente necessárias, e até inevitáveis. Eu creio que o motivo da nossa fragilidade atual reside na incapacidade de admitir que perdemos algo. Justamente no auge da sua democratização, a universidade (e as disciplinas acadêmicas) podem – e essa é minha hipótese – ter perdido sua capacidade de ser um lugar para desenvolver o pensamento, para produzir conhecimento crítico e alimentar debates autênticos. Isso é realmente preocupante, pois esvazia todos os efeitos emancipadores da democratização da universidade. Se essa perda for real, não nos adianta de nada negá-la, nem tapar com areia esse buraco. Também não serve, é claro, embarcar num riso nervoso e desesperado que não admite mais nenhuma esperança quanto aos objetivos do nosso trabalho. Temos que fazer o luto e encarar a perda. Decidir, juntos, o que fazer diante dela. Do contrário, não conseguiremos entender porque temos atitudes cada vez mais realistas diante do nosso ofício: “eu faço pesquisa pelo dinheiro da bolsa”; “faço pesquisa para conseguir um emprego”, “é só mais um trabalho qualquer” – é o que muitos dizem. Isso é obviamente verdade, mas nunca foi o suficiente para mobilizar as pessoas. É preciso cultivar ideias e uma imaginação que justifiquem o engajamento com o conhecimento, um dos poucos projetos humanos onde o esforço para si acaba contribuindo para a satisfação geral. Pois bem, em se tratando de um processo coletivo de perda, é claro que houve momentos em que essa perda foi encarada de frente, enunciada em toda a sua transparência, em meio a tentativas de processar e, logo, superar essa morte. Esses momentos são perceptíveis, pelo menos, em uma ocasião específica, que se repetiu de maneiras diversas em muitas universidades: as ocupações de institutos e departamentos que, eventualmente, tomaram a totalidade de alguns campi universitários pelo país. Foi um sinal de que os estudantes perceberam essa perda (ou esse fim de linha preocupante) e tentaram, ainda que precariamente, lançar as bases para refundar um novo espaço de instrução, debate e construção de conhecimento, talvez parecido com uma universidade, mas que levasse esse nome adiante na tentativa de encontrar algo novo. Na ocupação que participei, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFRGS, em 2016, a tomada de poder dos estudantes em relação aos tempos e aos espaços da universidade foi absolutamente criadora: as relações entre si e com outros setores puderam iniciar um percurso de transformação. Os estudantes se aliaram politicamente aos funcionários terceirizados e se tornaram massa nas suas mobilizações contra cortes e atrasos nos salários. Além disso, os princípios que fundamentavam a capacidade de fala nos espaços de instrução foram amplamente revistos. Por exemplo, qualquer professor ou estudante podia propor uma aula ou tema de debate. Em seguida, uma assembleia avaliava a proposta levando em conta critérios bastante generosos: basicamente, qualquer tema que fosse de potencial interesse coletivo era bem recebido, e acolhido. As únicas aulas que não aconteceram foram as dos professores que se negaram a estabelecer qualquer tipo de relação com a ocupação estudantil. Muitos desses princípios já colocados em prática nas ocupações das universidades, nos inspiraram, posteriormente, no marco do Máquina Crísica-GEAC, a propor as bases de um projeto de universidade livre, horizontal e gratuita, chamada Campus Comum.

Se observarmos os acontecimentos mencionados, não poderemos afirmar que a perda da universidade como lugar para o pensamento é, para nós, algo oculto, um segredo impossível de encarar, um mistério que só podemos cercar e que é melhor nem mencionar ou nomear. Com certeza não. Pelo contrário: os estudantes, inseridos num contexto de democratização da universidade, erigiram sua crítica autônoma ao que estava acontecendo, crítica esta que não tinha nada de autodestrutiva. Ela era, antes, afirmativa e propositiva e se formava em antagonismo à burocracia universitária: anunciava que havia que democratizar o mando dessa instituição pública gigantesca e, pelo menos naquela época, fartamente financiada. Havia, dizia-se então, que abrir espaço para os funcionários terceirizados e para que o “fora” da universidade a governasse. Do ponto de vista daquele esforço, era o sequestro do governo universitário por parte de seu setor docente-burocrático, entre outras coisas, o que estava contribuindo para sua destruição, não – é claro – o nosso riso nervoso e desesperado, nem, muito menos, nossas justas críticas ao silenciamento e à imobilidade à que essa situação nos condenava. Os critérios produtivistas de valoração do conhecimento, o incentivo da competição entre pares, a falta de verve política dos professores, a hierarquização dos estudantes e a meritocracia renitente eram o que impedia que a universidade se desenvolvesse plenamente. Assim como essas linhas de interpretação, havia muitas outras que as ocupações estudantis enunciaram. É claro que, uma vez derrotadas, essas interpretações foram caladas e todo um aparato de restauração foi convocado: a legitimação dos especialistas diplomados retornou, a defesa cega da universidade e das suas hierarquias tal como elas são tornou-se aparentemente nosso único horizonte, os estudantes foram apresentados na esfera pública como vítimas do “sofrimento acadêmico” e não como os sujeitos que depõem e superam a estrutura institucional que os recruta como mão-de-obra e combustível da sua reprodução disciplinar. Tal restauração não transforma a realidade da nossa perda; apenas a nega, num gesto autoritário e igualmente desesperado. Nós, por nossa parte, podemos nos sufocar de tanto rir ou, então, morrer abraçados a uma universidade hiperreal, supostamente cumpridora do seu ideal democrático e do esforço de acolhedor a todxs. Ela objetivamente não existe. Se tudo isso fizer sentido, só há dois desdobramentos possíveis para o processo que já está em curso e no qual nos encontramos todxs incluídos: o primeiro é o caminho da auto aniquilação melancólica, que se desdobra no riso e na ironia desesperados ou na ansiedade autoritária; o segundo caminho é a opção de, finalmente, encarar o luto decorrente da perda da universidade como lugar para o desenvolvimento real da atividade intelectual. As causas que acarretaram tal perda deverão ser avaliadas, sem condescender, sem contar mentiras a nós mesmos, encarando de frente a gravidade das condições que nos coube viver. Para encarar essa tarefa, nos inspiraremos naqueles acontecimentos, como as ocupações estudantis, que já anunciaram os novos critérios para a superação do estado atual de coisas e, mais do que isso, para uma possível refundação da dinâmica universitária. As ocupações são os acontecimentos políticos que nos permitem afirmar, com confiança, que uma outra universidade está por vir.

O Grupo de Estudos em Antropologia Crítica é um coletivo independente que atua na criação de espaços de auto-formação e invenção teórico-metodológica. Constituído em 2011, o GEAC se propõe, basicamente, a praticar “marxismos com antropologias”. Isto significa desenvolver meios para refletir, de maneira situada, sobre os devires radicais da conflitividade social contemporânea. Delirada pelo marxismo, a antropologia se transforma, para o GEAC, numa prática de pesquisa e acompanhamento político das alteridades rebeldes que transbordam e transgridem a pretensão totalitária do modo de produção vigente e da sua parafernália institucional.

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