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Carta de um ano de pandemia

Por Felipe Moretti
Imagem: estela funerária ateniense

Criados por fora da tradição subterrânea rebelde, não temos nossos pequenos profetas da subversão. Nossa angústia só cresce. De fato, talvez 2020 seja o ano prenhe, mas de fantasmas.

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***

Caro Felipe,

            Primeiro devo pedir desculpa pelo incômodo. O passado já é muito intrometido; não gostaria que ele viesse te incomodar ainda mais. Também peço desculpa pelo certo clichê de escrever uma carta para o futuro. É claro que não escrevo isso exclusivamente para você; na verdade, é algo que endereço possivelmente aos nossos futuros eus. É uma espécie de diálogo com um coletivo que no presente parece ser impossível. Acredito que também o seja no futuro, mas ao imaginá-lo, posso singularizá-lo sob sua forma e isso torna toda a situação um pouquinho mais fácil. Concentrando-me na imagem de alguém a receber essa carta, mesmo que nunca a receba, consigo dar forma àquilo que tem me incomodado nas últimas semanas justamente por ser difícil de falar, ou escrever.

            Escrevo em 2020, que talvez na sua época será chamado de “o ano da pandemia”. 2020 e pandemia: parece que esses são os únicos elementos que consigo articular na minha narração. Há, zumbindo em volta deles, uma indústria de produção de opiniões sobre como conjugar estes dois conceitos. Há quem diga que nada mudou, que as mesmas injustiças de ontem se repetem hoje, só que mais brutalmente (e não é sempre assim na hiper-aceleração do desastre capitalista – uma crescente revelação do fim que nunca chega?); há outros que dizem que, começando agora, nada será igual (muitas das vezes, no entanto, parece que dizem isso para nos convencer de que nada deveria realmente mudar). Entre as confirmações de que continuamos no inferno e as previsões de que entraremos em um novo inferno desconhecido, há variações, é claro, como sempre há dos mitos clássicos do fim. Os monstros mudam, as tempestades do julgamento final ganham tons diferentes aqui e ali.

            As análises são repetidas infindavelmente, por mim mesmo, pela mídia, por nossos amigos, pelo ciclo fantasmagórico de notícias que ilumina os celulares e seus donos cada vez mais notívagos. Mas, no geral, sabemos unicamente que antes disso tudo foi o ano de 2019, e que depois disso tudo – que está aqui, e tão rapidamente – (teoricamente) será 2021, e que o espaço entre estes dois números chama-se o “ano da pandemia”, talvez, ou “o ano em que tudo mudou”. Mas 2020 parece se estender como um grande vazio à minha frente, e assim, obrigações e objetivos parecem perder sua importância, como se o amanhã, sendo uma repetição do hoje, nunca pudesse realmente chegar. Sem um prazo concreto, marcado pelo ir e vir da vida urbana, de pegar metrô e ir para a aula, a dissertação deixa de ser um objetivo de vida e passa a ser o quê — nem divertimento, nem punição?

            Na vida individual, cotidiana e no andar do planeta, em 2020 parece que nada acontece, mas ao mesmo tempo todo dia há alguma notícia nova. Normalmente negativa, profundamente trágica em algum sentido ou outro, recebemos constantemente os lembretes de que este é o ano em que verdadeiramente começa o século XXI, ou que é agora que começa o final das coisas, quando o mundo antropocenizado entra em marcha suicida e decide por vez se jogar do abismo. Como na metáfora bíblica, o tempo atual está prenhe de algo, mas não sabemos o que é. Ao contrário da metáfora milenarista, nosso futuro só nos foi profetizado pelos arautos do poder, servos da economia: crescemos ouvindo a balela de que teríamos de ser a geração adaptada a qualquer desafio. Ironicamente, quando esse desafio chega, percebemos que fomos preparados para absolutamente nada. Criados por fora da tradição subterrânea rebelde, não temos nossos pequenos profetas da subversão. Nossa angústia só cresce. De fato, talvez 2020 seja o ano prenhe, mas de fantasmas. Dizem que viveremos uma nova depressão.

            Admito que, no meio disso tudo, eu estou cego. Cansei de conversas sobre conjuntura, sobre a capacidade de um golpe pelo Bolsonaro. Pode soar pueril, mas neste momento – até quando? – gostaria de tentar entender primeiro o orgulho ferido de chegar à vida adulta e não ter um grão de expectativa para o futuro. Poderíamos tentar um jogo. Você poderia me ligar do futuro e me dar uma dica. Faríamos uma espécie de jogo de charadas intra-cronológico e burlaríamos a regra do tempo. Eu poderia te falar das coisas que vivi e que nunca serão anotadas. Por exemplo, ontem ouvi pela primeira vez o canto do urutau, por volta de meia-noite. Haverá urutaus lá pra frente? Já você poderia me avisar daquilo que nunca imaginaria se tornar tão normal, ou de grandes eventos que se passarão. Nesse jogo, se alguém pudesse ganhar, acho que seria você. Afinal de contas, o presente é tudo que temos e o futuro é inexistente, mas o passado sempre está morto.

            Escrevo de 2020, do ano da pandemia. Ele deixará suas covas cheias, uma boa parcela de mortos. Como o passado de qual te escrevo, estão para além de uma barreira impassável. A não ser que algo deste ano vire um espectro e vá te assombrar. Dos fantasmas que rondarão teu mundo futuro, e acho que haverá muitos deles, que eu e nosso presente-já-passado sejam como aquele famoso espectro do comunismo, um fantasma que não vem propriamente só do passado, mas que anuncia todos os passados deferidos e os futuros de liberdade ainda possíveis. Muito está em jogo hoje; imagino que mais ainda estará amanhã. Que esta carta do ano da pandemia seja um lembrete do tanto que se perdeu, mas também do quanto há a ser conquistado.

Com força e amor,

Felipe.

O Grupo de Estudos em Antropologia Crítica é um coletivo independente que atua na criação de espaços de auto-formação e invenção teórico-metodológica. Constituído em 2011, o GEAC se propõe, basicamente, a praticar “marxismos com antropologias”. Isto significa desenvolver meios para refletir, de maneira situada, sobre os devires radicais da conflitividade social contemporânea. Delirada pelo marxismo, a antropologia se transforma, para o GEAC, numa prática de pesquisa e acompanhamento político das alteridades rebeldes que transbordam e transgridem a pretensão totalitária do modo de produção vigente e da sua parafernália institucional.

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