Geral

Carta a uma ingressante no mestrado em antropologia

Por Máquina Crísica

Imagem: ilustração de Edward Gorey

Façam um reduto para si à distância da rotina institucional. Vivam uma vida dupla. Organizem reuniões alternativas, estudem o que bem entenderem, leiam descaradamente o que seus mestres não leem, rompam as censuras tácitas, revirem o passado e o presente do pensamento atrás de suportes que possam dar inteligibilidade, legibilidade e enunciabilidade a esses conceitos ainda obscuros que assediam suas divagações. Saltem pedágios e catracas, transgridam a rota de aprendizado fixada pela súmula das disciplinas, explorem a crítica antes de entenderem o argumento, analisem o argumento em concomitância com a crítica, avancem sobre uma abordagem alternativa sem passar pela abordagem convencional, esqueçam o cânone, nem que seja temporariamente.

Textos relacionados que podem te interessar: Criemos coletivos autônomos universitários; A melancolia na universidade brasileira; Sobre o silenciamento disciplinar; Suspender o disciplinamento, redimir a promessa da antropologia; Abandonar as disciplinas, pensar no registro do possível; Cosas que se dicen al margen – Adieu a la antropología.

* * *

Façam troça, achem graça

Riam no desenlace

Sem miséria, sem trapaça

Lancem tudo pro ar

Rompam os varais

Ergam barricadas nos jardins

Gritem com o olhar

Salvem suas peles por um triz

Vitor Ramil, Palavra Desordem

Querida ingressante,

Depois das incertezas do processo de seleção, da insegurança de não saber até que ponto tu conseguirias convencer aqueles caras das tuas habilidades enquanto pesquisadora e do intenso esforço dedicado às leituras obrigatórias, depois dessa aflição toda e da angustiosa espera subsequente, chegou a notícia da aprovação. Toma um porre ao melhor estilo da graduação, brinda pelos porres que virão e divide com teus amigos o relato dessa odisseia, assim como os planos mirabolantes que projetas para o futuro. Guarda esta carta para ler depois da festa e um pouco antes de começares tua nova jornada acadêmica.

Encara nossas palavras como uma cartografia possível dos desafios que virão por diante e, sobretudo, como o registro datado das intensidades que alguma vez compartilhaste conosco, quando decidiste arriscar uma vida intelectualmente significativa, sintonizada com os engajamentos mais radicais de uma época e com os debates que eles proporcionam. Cuida dessas intensidades, permanece fiel a elas, retém os princípios, as constatações e descobertas que surgiram dali, porque a instituição a qual pertences agora não fará isso por ti.

Faz pouco nos disseste que esperavas ter algo para agregar ao programa de pós-graduação e, principalmente, que o programa agregasse algo a ti.

Sem dúvidas, a integração em uma nova rotina institucional supõe muitos compromissos, tanto entre xs estudantes como entre elxs e o chamado corpo docente, o qual, além do mais, é um corpo burocrático. Há muitas formas de fazer e receber contribuições no ambiente institucional de uma pós-graduação em antropologia. O que não muda é que, queiramos ou não, seremos objeto de demandas e, eventualmente, ocuparemos o lugar do sujeito demandante. Essas dinâmicas ocorrem num plano formalizado de organização onde vicejam regras, expectativas e uma divisão de funções. No entanto, existe outro plano, pouco visível, mais informal, onde também experimentamos a realidade da instituição de uma forma menos imediata e mecânica. Nesse plano prolifera o estranhamento e, às vezes, o incômodo.

Estás entrando num espaço dividido em dois níveis.

No nível mais superficial e visível, terás a oportunidade de te familiarizar com o cânone de uma disciplina acadêmica e de conhecer os exóticos arranjos teóricos que atualmente subsidiam determinadas linhas de pesquisa e sub-campos disciplinares. Serás convidada a integrar algum núcleo de pesquisa e a exercer tua adesão à disciplina por meio de colóquios, congressos, simpósios e reuniões de trabalho onde a realidade dos “outros” será objeto de problematização e análise à luz do dispositivo conceitual que absorverás em longas noites de leitura. Em referência a esses mesmos critérios de análise, aprenderás a formular projetos de pesquisa coerentes com as agendas contemporâneas da antropologia, o que te exigirá tortuosas práticas de escrita e um difícil percurso de adestramento da percepção e da sensibilidade. A parte lúdica ficará por conta das fofocas de corredor e das especulações sensacionalistas sobre a vida dos mestres, suas intrigas, feitos e deslizes. Os professores passarão a ser mini celebridades, sempre disponíveis para a bajulação, sempre dispostos a oferecer opiniões sensatas e barrar excessos. Eles se mostrarão solícitos com alguns escolhidos e, ao módico preço da fidelidade irrestrita, lhes ensinarão a percorrer o caminho virtuoso que os levou ao topo da cadeia alimentar. Talvez chegue para ti aquele dia inesquecível do primeiro cafezinho com o docente amado. É possível que a partir desse encontro te sintas mais perto do Olimpo, menos estudante, mais antropóloga, mais completa. Sabemos, contudo, que tua lucidez logo acusará a miséria desse prazer, porque quem encontra satisfação numa completude que nega a única condição aceitável para qualquer intelectual – isto é, a condição eterna de estudante – pode estar fazendo qualquer coisa, menos uma entrega honesta à atividade do pensamento.

Já num segundo nível, subterrâneo, tu provavelmente venhas a experimentar a impossibilidade de responder positivamente – e sem atritos – ao processo de institucionalização. Ali, o que a experiência do mestrado “agrega” para ti, poderá assumir a forma sinistra de uma incisão castradora.

Conhecemos muita gente que, defrontada com esses dois níveis da vida institucional, optou deliberadamente por levar a sério apenas o primeiro: o mais superficial. Passados alguns anos, querida ingressante, essas pessoas se tornaram irreconhecíveis. Às vezes adivinhamos a frustração ou o cinismo em seu olhar, outras vezes, seu semblante ostenta o orgulho doutrinário dos recém conversos a uma nova fé. São visões aterradoras, pelos menos aos nossos olhos, acostumados a frequentar a penumbra do subsolo, onde nenhum desejo, nenhum princípio, nenhuma intuição cultivada nos engajamentos reais da política cede alegremente à doutrinação disciplinar.

Frequenta o subsolo, explora suas bibliotecas, vasculha leituras não obrigatórias – e mesmo não recomendáveis – em busca de elementos que ressoem nas experimentações que te constituíram até agora. Tu não és uma tabula rasa. O esquecimento dos percursos pretéritos, ou seu abandono na gaveta dos hobbies, pode ser o primeiro passo para perderes definitivamente a possibilidade de trilhar um programa de pensamento significativo para ti.

“O conhecimento só se constrói em conjunto”, disseste uma vez. Tens razão. Nós acrescentaríamos o seguinte: “o pensamento só se constrói em conjunto”. E a relação professor/aluno é o oposto de uma conjunção. Se o conhecimento e o pensamento só se constroem em conjunto, terás que desenvolvê-los em companhia de outrxs estudantes. Busca teus colegas em meio a penumbra do subsolo. Verás que nem todxs decidiram simplesmente dissipar as sombras de seu mal-estar com a luz ofuscante das novas promessas de realização intelectual monumentalizadas na figura dos mestres.

Haverá gente circulando entre a superfície e o subterrâneo, explorando as tensões entre ambos os níveis da experiência institucional. Encontra essas pessoas, caminha com elas, organizem reuniões alternativas, estudem o que bem entenderem, leiam descaradamente o que seus mestres não leem, rompam as censuras tácitas, revirem o passado e o presente do pensamento (sim, vocês têm plenas condições de fazer isso) atrás de suportes que possam dar inteligibilidade, legibilidade e enunciabilidade a esses conceitos ainda obscuros que assediam suas divagações. Aproveitem a escuridão sob a superfície para saltar pedágios e catracas, transgridam a rota de aprendizado fixada pela súmula das disciplinas, explorem a crítica antes de entenderem o argumento, analisem o argumento em concomitância com a crítica, avancem sobre uma abordagem alternativa sem passar pela abordagem convencional, esqueçam o cânone, nem que seja temporariamente. Encarem cada texto em si mesmo e atrevam-se a estranhá-lo linha por linha, sem recalque, sem debitar sua perplexidade a um suposto déficit de compreensão. A perplexidade e o estranhamento podem ser o sinal de que vocês já habitam outra perspectiva. Todo o desafio residirá, então, em esclarecê-la e potencializá-la. Confiem nos seus mal-estares e não permitam que eles sejam julgados como sintomas de alguma inadaptação que o tempo e a fé na autoridade alheia terminarão por corrigir.

Lê o dia-a-dia da instituição com o olhar sombrio de quem não passou a vida buscando reformar a si mesma para evitar a tragédia de lançar-se à necessária redefinição do mundo ao redor. Avalia a nova rotina acadêmica a partir dos teus princípios, e não o contrário.

Querida ingressante, o mestrado em antropologia pode agregar algo para ti, mas sob condição de que tu não te limites a agregar algo a ele.

Um percurso de formação não tem por que ser um ritual de conversão. Nenhum, absolutamente nenhum dos modelos de subjetividade antropológica que serão oferecidos a ti nos próximos dois anos constituem figuras incontestes do bom proceder profissional. Todos esses modelos foram e são objeto de críticas contundentes, demolidoras, dentro e fora da disciplina. A disciplina está em crise há décadas. Alguns dos teus professores situarão o início dessa crise nos anos 1970, em pleno último ciclo de descolonização. Outros indicarão a década de 1980 e a “virada reflexiva”. Haverá, também, os que privilegiem os anos 1990, com a emergência das lutas pelo direito à diferença. O que nenhum docente saberá dizer é quando a crise acabou. Vive essa crise, toma conhecimento dela, não te furta de buscar a relativa inconsistência de tudo o que for ensinado nas salas de aula. Problematiza, explora limites, participa do implacável movimento do pensamento; um movimento que desconhece disciplinas porque está apaixonado pela irreverência do real.

Não te sintas na posição de quem precisa contribuir com o mestrado na modalidade da adesão ideológica e da autocontinência intelectual. Isso só limitaria a tua sagacidade e te condenaria a falar mais do mesmo para uma audiência complacente, que busca conforto na reiteração cotidiana da certeza de que não é realmente necessário dizer e fazer muito mais do que já se diz e se faz. Cá entre nós, não foi por isso que tu fizeste aquele processo de seleção. Se lembramos bem, estavas em busca de estímulos fortes, de experimentação, de desafios estonteantes. Persiste nessa busca e recusa qualquer oferta conformista. Não cede em teu desejo. Não agrega ao mestrado outra coisa que não seja tua potência intelectual; potência que, aliás, encontrará no subsolo de que falávamos antes seu principal caldo de cultivo.

Fica serena quando te oferecerem reconhecimento fácil para certas qualidades que tu não reconheces como definidoras da existência que és ou pretendes experimentar – por exemplo, a resignação, a docilidade, o egoísmo, o arrivismo, o oportunismo, o charlatanismo –. Desconfia de quem procurar em ti um espelho, uma filha, uma sobrinha ou uma afilhada. Pratica afinidades políticas e teóricas, não vínculos familiares. Insubordina-te resolutamente quando quiserem te submeter ao familismo. Reúne forças, denuncia e ataca. Essa seria, aliás, uma bela contribuição para o mestrado. É graças a contribuições desse tipo que, hoje em dia, podemos trilhar nossos estudos de pós-graduação em instituições minimamente republicanas.

Quando chegar o momento de pagares pela tua presença no PPG com uma certa quantidade de publicações, procura extrair desse imperativo controverso o que de mais enriquecedor ele pode proporcionar: o aprimoramento da escrita e a sofisticação da expressividade. Prepara resenhas, revisões críticas da literatura que te interessa, elabora traduções de autoras e autores capazes resolver asfixias e desinterditar impasses, entrevista gente interessante e submete o diálogo aos periódicos adequados. Isso costuma aplacar o produtivismo acadêmico sem comprometer demasiado um autêntico esforço de construção intelectual. Procura inspiração em boas autoras (elas não necessariamente farão parte do corpo docente do teu PPG). Coloca, enfim, o trabalho da escrita à serviço das tuas próprias inclinações e não te entrega à desonestidade da máquina de encher linguiça.

Não sucumbe à tentação de publicar artigos afobados, saturados de clichês, ladainhas tediosas, modelos de análise requentados, mentiras piedosas, conceitos distorcidos, frases incongruentes, ecletismos irrefletidos, modismos inerciais, críticas prêt-à-porter, imposturas e banalidades de toda ordem. Entregar-se a exercícios de escrita dessa natureza é arriscado pelo seguinte motivo: eles costumam ser bem-vindos em muitas revistas acadêmicas e isso nos envaidece. Começamos a nos viciar em nossas disposições mais medíocres e acabamos declinando do árduo esforço de construção intelectual que, algum dia, poderia nos levar a dizer coisas realmente interessantes; coisas que façam a diferença nos mundos que habitamos e que queremos transformar.

Por último, não esquece daquele porre que em breve vais tomar com os teus amigos e dos planos mirabolantes que anunciarás a essas pessoas que te admiram. Qualquer movimento que, a partir de agora, não esteja à altura da dignidade e da dimensão desses planos pode significar o início do fim desse encantamento poderoso que, apesar de todas as dificuldades, te colocou dentro do PPG em antropologia. No PPG, viverás enormes provações a tua formação intelectual. Por isso mesmo, terás a oportunidade de robustecê-la como nunca, mas sob o risco constante – porém exorcizável – de ter que ceder no teu próprio desejo. Se esse risco se tornar uma ameaça concreta, não duvida em lançar tudo para o ar.

Um abraço enorme,

Máquina Crísica

PS: Nos vemos no subsolo!

Junho de 2021.

O Grupo de Estudos em Antropologia Crítica é um coletivo independente que atua na criação de espaços de auto-formação e invenção teórico-metodológica. Constituído em 2011, o GEAC se propõe, basicamente, a praticar “marxismos com antropologias”. Isto significa desenvolver meios para refletir, de maneira situada, sobre os devires radicais da conflitividade social contemporânea. Delirada pelo marxismo, a antropologia se transforma, para o GEAC, numa prática de pesquisa e acompanhamento político das alteridades rebeldes que transbordam e transgridem a pretensão totalitária do modo de produção vigente e da sua parafernália institucional.

2 comments on “Carta a uma ingressante no mestrado em antropologia

  1. Amiel Vieira

    Sou sociológo ou tento ser e faço um doutorado na bioética, estou escrevendo a qualificação e seu texto foi um balsamo libertador pra mim. Obrigada

    • Oi Amiel! Que bonito ler tuas palavras e saber que essa mensagem repercutiu em tua experiência. Desejamos sorte em teu itinerário e esperamos que, mesmo em meio às dificuldades, consigas construir/conspirar espaços para a autonomia intelectual e política ao longo do percursos de formação que estás empreendendo. Fica à vontade para escrever para a gente: antropologiacritica@gmail.com

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: